Os fogos de artifício irritavam seu cachorro, que assustado escondeu-se sob o sofá onde o dono se sentava. O copo de whisky dava lugar ao de champagne, e a solidão à familia. Não estava mais sóbrio e tudo que podia pensar era como aquela festa ao lado de sua casa atrapalhou seus estudos, ele estava bêbado, mas isso não o impedia de querer estudar na virada do ano, impedia? Pelo menos não totalmente.
Faltavam dois dias para a última prova que ele teria que enfrentar na vida, se deus, Buda ou Alá quisessem. Sua mente não raciocinava direito há mais de uma semana, mas com o álcool e toda ocasião importante isso não parecia importar-lhe, terminou todos os exercícios que tinha prometido a si mesmo terminar e largara-se sobre o sofá que seu cachorro procurara abrigo. O tempo rastejava pelo relógio de pulso e o ano e aquela alegria que não o contagiava recusavam-se ao término.
Abriu mais uma garrafa de whisky e vencido pela comoção alheia abriu as cortinas de sua sala, bêbado, sozinho, digo, acomponhado pelo seu fiel companheiro, mas sem compainha humana e apreciou aquele fim de ano que por mais depressivo que sôe na história tinha sido um bom ano, não melhor que o próximo, caso ele passase, mas um bom ano sem dúvida. Feliz ano novo!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Disseram por aí
Fiquei sabendo que na minha terra, os policiais são treinados para não bater nos “caba safado”. São treinados para defender os pais de família daqui e para fazer com que os vagabundos fiquem espertos e virem trabalhadores honestos de uma vez.
Uma vez mesmo, me contaram, que a polícia daqui anda tão esperta que conseguiu prender um grupo que estava planejando um assalto. “Pla – ne – jan – do”, o taxista que me contou repetiu isso umas oito vezes. “Os cabra não tinham nem feito nada!” incrível.
Descobri também que um dos ‘prestatenção’ mais comuns que os policiais dão nesses vagabundos é o truque do jabá. Jabá é carne de sol, mas muito mais salgada. Fiquei sabendo que os policiais faziam os vagabundos comerem um montão de jabá e aí, quando eles ficavam com muita sede, colocavam uma jarra de água bem gelada na frente de cada safado e só os deixavam beber quando todos prometessem que não iriam mais atrapalhar os homens de bem.
Se fosse onde eu vivo, os trombadinhas fariam o mesmo, mas depois de serem soltos, voltariam a assaltar as pessoas. Aqui, na minha terra, isso não acontece. Os homens daqui têm palavra.
Me contaram que das poucas vezes que uns ‘cabas safados’ não honraram sua palavra, os policiais os levaram para dar um passeio. Os vagabundos foram colocados em um barco e passearam por mais de três horas para longe das praias daqui, para longe do alto mar daqui. Os passeios terminavam ali, por Recife, nas águas dominadas por seus tubarões. É, estes cabas nunca mais foram vistos na minha terra.
Uma vez mesmo, me contaram, que a polícia daqui anda tão esperta que conseguiu prender um grupo que estava planejando um assalto. “Pla – ne – jan – do”, o taxista que me contou repetiu isso umas oito vezes. “Os cabra não tinham nem feito nada!” incrível.
Descobri também que um dos ‘prestatenção’ mais comuns que os policiais dão nesses vagabundos é o truque do jabá. Jabá é carne de sol, mas muito mais salgada. Fiquei sabendo que os policiais faziam os vagabundos comerem um montão de jabá e aí, quando eles ficavam com muita sede, colocavam uma jarra de água bem gelada na frente de cada safado e só os deixavam beber quando todos prometessem que não iriam mais atrapalhar os homens de bem.
Se fosse onde eu vivo, os trombadinhas fariam o mesmo, mas depois de serem soltos, voltariam a assaltar as pessoas. Aqui, na minha terra, isso não acontece. Os homens daqui têm palavra.
Me contaram que das poucas vezes que uns ‘cabas safados’ não honraram sua palavra, os policiais os levaram para dar um passeio. Os vagabundos foram colocados em um barco e passearam por mais de três horas para longe das praias daqui, para longe do alto mar daqui. Os passeios terminavam ali, por Recife, nas águas dominadas por seus tubarões. É, estes cabas nunca mais foram vistos na minha terra.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
vida a dois
Já fazia um tempo que ela queria engravidar. Ou pelo menos dava a entender isso. Queria sexo a toda hora. E sempre sem proteção. Ficava toda manhosa, e insistindo sempre pra que eu terminar dentro dela. É irresistível uma mulher te pedindo isso. Prova maior de amor não existe. Mas eu sou paranóico, tenho problemas o suficiente com pessoas para não desejar mais um ser na minha vida. Apesar de nunca termos falado abertamente sobre isso, tudo me dizia que esse era só mais um passo na nossa vida juntos. Ela já lavava as calcinhas no meu banheiro. É um sinal forte.
Mas você sabe. Já não era igual. Eu pensava que talvez esse filho fosse pra tentar amarrar mais as coisas entre nós. Mas ela não era assim. Depois pensava em interesse. A não ser que ela se interessasse por dívidas, também descartava essa possibilidade. Mas dizem, né, que as mulheres têm essa hora que sentem o desejo materno. Não sei como funciona, mas era o único motivo que eu encontrava. Então um dia ela me chamou para conversar. Disse que era assunto sério. Fingi não me preocupar, indiferença era minha especialidade. Falou de irmos numa praça ali perto, era mais sossegado. Era daquelas pracinhas de bairro, com velhinhos cagados andando pra lá e pra cá, camisinhas jogadas embaixo dos bancos e merda de cachorro na grama. Bem aconchegante.
Arrastando-a pela mão, fui em direção aos bancos de cimento, mas ela me segurou e disse para sentarmos perto das árvores. Tudo bem. Ela me olhou de um jeito estranho, de quem sente que a notícia não vai ser bem recebida. "Não acha lindo? Esse mato, essas árvores? Esse pequeno espacinho natural que temos aqui perto do apartamento?" Ela disse "o espacinho que temos.". Vai querer uma cópia da chave logo. Isso não pode ser bom. E se por espaço natural ela pensa nesses velhos tarados que logo serão adubos dessa pracinha porca, tudo bem. Mas essas árvores acabadas e essa terra batida não caracterizam o meu ideal de "espacinho natural". "O ar daqui é tão bom. Mesmo depois da chuva, o cheiro da terra entrando pelas narinas é delicioso, né?". Que merda de conversa séria é essa? Veio aqui pra me ensinar o cheiro da terra? Ela tá enrolando.
"E as pessoas? Isso aqui faz um bem tão grande pra elas. As crianças ali no parquinho, por exemplo. Aposto que aqui é um dos únicos lugares em que elas podem ter esse contato com o verde. Me sinto tão conectada.". Merda. Crianças. Lá vem o assunto sério. Só me falta ela estar grávida. Ficou parada, encarando as crianças. O pior de tudo é que era mesmo um olhar de...mãe. Maldita. Ela suspirou. "Bom, eu te trouxe aqui exatamente pra te perguntar: o que acha de a gente adotar?". Pior que estar grávida, é ela querer adotar. Porque ela vai saber que eu não quero. Gravidez seria uma desculpa ainda. Eu poderia chamá-la de aproveitadora, pelo menos, e ir embora. Mas agora me deixou encurralado. Respirei fundo e fui. "Elisa, olha, eu gosto muito de você. Muito mesmo. A gente se dá bem e mesmo depois de todo esse tempo que estamos juntos ainda gosto da tua companhia e das nossas conversas. Mas tô achando tudo isso muito apressado. Você quer vir morar comigo, deixa tuas coisas no meu apartamento. Sai pendurando calcinha, usando minhas camisas, deixando louça pra lavar. Te respeito muito, mas não dá. Preciso do meu espaço. E agora vem com essa história de adoção. Olha nossa idade. Adotar uma criança agora seria no mínimo irresponsável e...".
"Você tem merda na cabeça?", ela perguntou. Conseguia me surpreender a cada frase. "Merda?". "É, merda.". "Por quê?". "Que porra é essa de adoção?". "Você acabou de falar em adotar.". "Você tem merda na cabeça.". "Você acabou de falar em adotar uma criança.". "Que criança?". "Criança. Uma criança como essas daí que você fica olhando.". "Quem falou em criança?". "Se não quer adotar criança, que merda você quer adotar?". "A praça.".
Mas você sabe. Já não era igual. Eu pensava que talvez esse filho fosse pra tentar amarrar mais as coisas entre nós. Mas ela não era assim. Depois pensava em interesse. A não ser que ela se interessasse por dívidas, também descartava essa possibilidade. Mas dizem, né, que as mulheres têm essa hora que sentem o desejo materno. Não sei como funciona, mas era o único motivo que eu encontrava. Então um dia ela me chamou para conversar. Disse que era assunto sério. Fingi não me preocupar, indiferença era minha especialidade. Falou de irmos numa praça ali perto, era mais sossegado. Era daquelas pracinhas de bairro, com velhinhos cagados andando pra lá e pra cá, camisinhas jogadas embaixo dos bancos e merda de cachorro na grama. Bem aconchegante.
Arrastando-a pela mão, fui em direção aos bancos de cimento, mas ela me segurou e disse para sentarmos perto das árvores. Tudo bem. Ela me olhou de um jeito estranho, de quem sente que a notícia não vai ser bem recebida. "Não acha lindo? Esse mato, essas árvores? Esse pequeno espacinho natural que temos aqui perto do apartamento?" Ela disse "o espacinho que temos.". Vai querer uma cópia da chave logo. Isso não pode ser bom. E se por espaço natural ela pensa nesses velhos tarados que logo serão adubos dessa pracinha porca, tudo bem. Mas essas árvores acabadas e essa terra batida não caracterizam o meu ideal de "espacinho natural". "O ar daqui é tão bom. Mesmo depois da chuva, o cheiro da terra entrando pelas narinas é delicioso, né?". Que merda de conversa séria é essa? Veio aqui pra me ensinar o cheiro da terra? Ela tá enrolando.
"E as pessoas? Isso aqui faz um bem tão grande pra elas. As crianças ali no parquinho, por exemplo. Aposto que aqui é um dos únicos lugares em que elas podem ter esse contato com o verde. Me sinto tão conectada.". Merda. Crianças. Lá vem o assunto sério. Só me falta ela estar grávida. Ficou parada, encarando as crianças. O pior de tudo é que era mesmo um olhar de...mãe. Maldita. Ela suspirou. "Bom, eu te trouxe aqui exatamente pra te perguntar: o que acha de a gente adotar?". Pior que estar grávida, é ela querer adotar. Porque ela vai saber que eu não quero. Gravidez seria uma desculpa ainda. Eu poderia chamá-la de aproveitadora, pelo menos, e ir embora. Mas agora me deixou encurralado. Respirei fundo e fui. "Elisa, olha, eu gosto muito de você. Muito mesmo. A gente se dá bem e mesmo depois de todo esse tempo que estamos juntos ainda gosto da tua companhia e das nossas conversas. Mas tô achando tudo isso muito apressado. Você quer vir morar comigo, deixa tuas coisas no meu apartamento. Sai pendurando calcinha, usando minhas camisas, deixando louça pra lavar. Te respeito muito, mas não dá. Preciso do meu espaço. E agora vem com essa história de adoção. Olha nossa idade. Adotar uma criança agora seria no mínimo irresponsável e...".
"Você tem merda na cabeça?", ela perguntou. Conseguia me surpreender a cada frase. "Merda?". "É, merda.". "Por quê?". "Que porra é essa de adoção?". "Você acabou de falar em adotar.". "Você tem merda na cabeça.". "Você acabou de falar em adotar uma criança.". "Que criança?". "Criança. Uma criança como essas daí que você fica olhando.". "Quem falou em criança?". "Se não quer adotar criança, que merda você quer adotar?". "A praça.".
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
A sete chaves
É difícil conviver com as coisas que guardamos, né?
Eu costumava dizer sempre as coisas que eu sentia. Não gostava de guardar nada pra mim. O mais importante sempre foi ser sincero comigo e, por isso, eu mantinha a verdade sempre fora de mim. Como eu poderia me envolver com as pessoas, conhecer pessoas, fazer amigos e afins sem lhes contar verdades?
O que eu sentia, meus defeitos, meus sonhos, tudo saía de mim do jeitinho que havia entrado.
Guardei apenas uma coisa. Uma coisinha só. Eu pensava que seria melhor guardar isso para mim, já que era algo que me tornava vulnerável demais. Então guardei.
Não era algo ruim, era algo muito bom. Me fazia mal no começo, porque eu afirmava a mim mesmo que era mentira e pensar assim contradizia o que eu mais prezava em mim. A verdade parecia um câncer entupindo meu corpo. Um câncer entupindo a minha alma.
No primeiro mês me doía, no segundo também. No terceiro eu quase me convenci de que era verdade e no quarto me convenci. No quinto fingi que era mentira de novo. No sexto, sétimo e oitavo continuei teimando.
Ainda não havia chegado o nono mês quando me convenci de vez e resolvi parar de ser teimoso. Já era hora de colocar isso pra fora. Era hora de contar a todo mundo o que eu sentia e, hoje, eu tenho certeza que todos já sabiam. Tenha certeza também que todos já sabiam dessa minha luta em negar as coisas, aceitá-las, escondê-las e por fim, confirmá-las.
Decidi então que eu deveria contar mesmo. Me muni com todas as energias que eu tinha e que não tinha. Peguei meu almoço e corri para onde todos estavam.
Tudo aconteceu num dia muito quente e eu passava muito mal no calor. No horário em que decidi correr para contar o que sentia, estava começando a passar mal, mas eu já tinha me armado com toda a vontade e a determinação do mundo. Parecia que eu cruzava o inferno. Parecia que eu subia o inferno para chegar ao céu de vez. Eu já podia sentir todo o peso do mundo, que carreguei em meus ombros por nove meses, se desfazendo. Alguma coisa em mim já começava a esboçar o maior sorriso de alívio do universo e eu já pensava no que faria logo a seguir. Deveria abraçá-la? Será que se eu chorasse de felicidade em finalmente dizer tudo o que eu queria, seria legal? Ou ela se assustaria? Será que eu deveria simplesmente tomar um copo d'água já que aquele sol e a subida naquela ladeira sem árvore alguma, ao meio dia, estavam me derretendo e acabando com a minha roupa limpa e meu cabelo recém lavado?
Eu já podia vê-la ali de longe, já estava falando em voz alta as três palavras que ela esperou tanto para ouvir.
Já estávamos de frente um para o outro. Finalmente. Ela mexia em seu bolso, impacientemente, esperando me ouvir dizer aquela verdade reservada e protegida por tanto tempo. Precisei de alguns segundos, precisei respirar fundo. Quando terminei de inspirar, surpresa! Senti um leve gosto de ferro e tudo ficou preto. Não sei dizer o que era, foi tudo muito rápido. Algo muito estranho bateu em minha boca em frações de segundos.
Legal.
Eu só queria dizer "Eu te amo".
Eu costumava dizer sempre as coisas que eu sentia. Não gostava de guardar nada pra mim. O mais importante sempre foi ser sincero comigo e, por isso, eu mantinha a verdade sempre fora de mim. Como eu poderia me envolver com as pessoas, conhecer pessoas, fazer amigos e afins sem lhes contar verdades?
O que eu sentia, meus defeitos, meus sonhos, tudo saía de mim do jeitinho que havia entrado.
Guardei apenas uma coisa. Uma coisinha só. Eu pensava que seria melhor guardar isso para mim, já que era algo que me tornava vulnerável demais. Então guardei.
Não era algo ruim, era algo muito bom. Me fazia mal no começo, porque eu afirmava a mim mesmo que era mentira e pensar assim contradizia o que eu mais prezava em mim. A verdade parecia um câncer entupindo meu corpo. Um câncer entupindo a minha alma.
No primeiro mês me doía, no segundo também. No terceiro eu quase me convenci de que era verdade e no quarto me convenci. No quinto fingi que era mentira de novo. No sexto, sétimo e oitavo continuei teimando.
Ainda não havia chegado o nono mês quando me convenci de vez e resolvi parar de ser teimoso. Já era hora de colocar isso pra fora. Era hora de contar a todo mundo o que eu sentia e, hoje, eu tenho certeza que todos já sabiam. Tenha certeza também que todos já sabiam dessa minha luta em negar as coisas, aceitá-las, escondê-las e por fim, confirmá-las.
Decidi então que eu deveria contar mesmo. Me muni com todas as energias que eu tinha e que não tinha. Peguei meu almoço e corri para onde todos estavam.
Tudo aconteceu num dia muito quente e eu passava muito mal no calor. No horário em que decidi correr para contar o que sentia, estava começando a passar mal, mas eu já tinha me armado com toda a vontade e a determinação do mundo. Parecia que eu cruzava o inferno. Parecia que eu subia o inferno para chegar ao céu de vez. Eu já podia sentir todo o peso do mundo, que carreguei em meus ombros por nove meses, se desfazendo. Alguma coisa em mim já começava a esboçar o maior sorriso de alívio do universo e eu já pensava no que faria logo a seguir. Deveria abraçá-la? Será que se eu chorasse de felicidade em finalmente dizer tudo o que eu queria, seria legal? Ou ela se assustaria? Será que eu deveria simplesmente tomar um copo d'água já que aquele sol e a subida naquela ladeira sem árvore alguma, ao meio dia, estavam me derretendo e acabando com a minha roupa limpa e meu cabelo recém lavado?
Eu já podia vê-la ali de longe, já estava falando em voz alta as três palavras que ela esperou tanto para ouvir.
Já estávamos de frente um para o outro. Finalmente. Ela mexia em seu bolso, impacientemente, esperando me ouvir dizer aquela verdade reservada e protegida por tanto tempo. Precisei de alguns segundos, precisei respirar fundo. Quando terminei de inspirar, surpresa! Senti um leve gosto de ferro e tudo ficou preto. Não sei dizer o que era, foi tudo muito rápido. Algo muito estranho bateu em minha boca em frações de segundos.
Legal.
Eu só queria dizer "Eu te amo".
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Eu como eu sou
Já roubei dinheiro da bolsa de minha mãe, e comprei balas e doces. Já roubei figurinhas, já roubei o direito de amar de meu melhor amigo, já faz tempo que roubei minha humanidade.
Não sei ao certo se os meus pecados, são em parte devido à minha impulsividade, esta que me move enquanto digito as frias teclas de um texto. Tão rapido escrevo, eu apago. Um conflito, um par, ação-reação? Um casal.
No meu mundo a chuva sempre cai, disfarça o choro que deveria cair mas não cai, e o frio que existe mas não sinto. Não que seja quente, nem feliz este mundo no qual eu vivo, mas as vezes me parece oco. Oco como a pele de uma serpente que sob o chão pode até parecer incomum,raro, mas é apenas outra antes de muitas e está atrás de várias outras, um ciclo, um eco uma falha.
No meu mundo as réplicas são constantes. Aton? Não. São mesmo. Pessoas diferentes, são simplesmente iguais, muitas vezes descartáveis e decorativas. O que diferenciaria uma pessoa? Seu corte de cabelo? Gosto musical? As que me interesso muitas vezes tem um olhar diferente, mas não deixam de me entediar, se o tédio é eterno nessa chuva, pelo menos perto delas parte dele é menor, e depois delas? sobra o que? eu? Eu como eu sou. Nada. Pele, rugas, poros. Corpo de homem, casca de homem, nada mais que um delírio de uma mente insana, o êxtase vulgar do criador.
Fomos criados à mesma imagem e semelhança de deus. Pobre deus. Corcunda e careca, louco e tísico, somos criados pelo mesmo impulso que me move. Hoje eu quase fui assaltado, eu queria brigar, ver meu corpo sangrar,sangue quente, vivo, me sentir vivo, minha impulsividade não se mostrou como se mostra agora, escrevendo mais um delírio,nem a do ladrão que desistiu após um seco ''não'', se mostrou fraca, incerta, é claro que se o risco me traz a vida, ele também pode tirá-la, uma aposta, só resta saber se valhe o que se tem em mãos. Provavelmente não, não ainda. Continuo procurando a resposta, em vão obviamente. Não há resposta para a vida, nem tão menos é a vida uma pergunta.
Se você já leu clichê como esse, não se preocupe, meu eu impulsivo não liga pra clichês, ele se importa com o sentimento, palavra estranha, principalmente num texto que era para ter terminado no ultimo paragrafo, na verdade, prova simplesmente o que eu ainda não consigo provar. A arte,pelo menos a minha, se é que se pode chamar esse furûnculo textual de tal é a expressão do agora, do pouco que ainda se sente, do pouco que ainda se vê por de traz da miopia de um mundo virtual, artificial como as jóias, como os joalheiros. Para todas as outras coisas existe mastercard.
Não sei ao certo se os meus pecados, são em parte devido à minha impulsividade, esta que me move enquanto digito as frias teclas de um texto. Tão rapido escrevo, eu apago. Um conflito, um par, ação-reação? Um casal.
No meu mundo a chuva sempre cai, disfarça o choro que deveria cair mas não cai, e o frio que existe mas não sinto. Não que seja quente, nem feliz este mundo no qual eu vivo, mas as vezes me parece oco. Oco como a pele de uma serpente que sob o chão pode até parecer incomum,raro, mas é apenas outra antes de muitas e está atrás de várias outras, um ciclo, um eco uma falha.
No meu mundo as réplicas são constantes. Aton? Não. São mesmo. Pessoas diferentes, são simplesmente iguais, muitas vezes descartáveis e decorativas. O que diferenciaria uma pessoa? Seu corte de cabelo? Gosto musical? As que me interesso muitas vezes tem um olhar diferente, mas não deixam de me entediar, se o tédio é eterno nessa chuva, pelo menos perto delas parte dele é menor, e depois delas? sobra o que? eu? Eu como eu sou. Nada. Pele, rugas, poros. Corpo de homem, casca de homem, nada mais que um delírio de uma mente insana, o êxtase vulgar do criador.
Fomos criados à mesma imagem e semelhança de deus. Pobre deus. Corcunda e careca, louco e tísico, somos criados pelo mesmo impulso que me move. Hoje eu quase fui assaltado, eu queria brigar, ver meu corpo sangrar,sangue quente, vivo, me sentir vivo, minha impulsividade não se mostrou como se mostra agora, escrevendo mais um delírio,nem a do ladrão que desistiu após um seco ''não'', se mostrou fraca, incerta, é claro que se o risco me traz a vida, ele também pode tirá-la, uma aposta, só resta saber se valhe o que se tem em mãos. Provavelmente não, não ainda. Continuo procurando a resposta, em vão obviamente. Não há resposta para a vida, nem tão menos é a vida uma pergunta.
Se você já leu clichê como esse, não se preocupe, meu eu impulsivo não liga pra clichês, ele se importa com o sentimento, palavra estranha, principalmente num texto que era para ter terminado no ultimo paragrafo, na verdade, prova simplesmente o que eu ainda não consigo provar. A arte,pelo menos a minha, se é que se pode chamar esse furûnculo textual de tal é a expressão do agora, do pouco que ainda se sente, do pouco que ainda se vê por de traz da miopia de um mundo virtual, artificial como as jóias, como os joalheiros. Para todas as outras coisas existe mastercard.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
A beleza engana
Anna, era o nome da menina deficiente. Cabelos loiro-dourados que escorriam em leves cachos que ressaltavam seus olhos verdes, hora azuis e hora uma cor que eu não sabia definir ao certo.
Sentava-se ao meu lado mas nunca vi nela uma expressão que lembrasse um sorriso, nem nunca tinha ouvido sua voz.
Apesar disso suas expressões perante as aulas, provavelmente quando não entendia alguma coisa me faziam sorrir, bem de leve, para que não percebesse. Ela tinha um amigo, um índio, que tinha a sorte de falar com ela.
Ninguém comentava sobre a anna, nem falava com ela, era linda, deficiente, e mesmo assim invisível, boatos corriam que ela tinha um namorado mas mesmo assim ela não era motivo de fofoca ou de brincadeiras.
Seus interesses? Dúvido que muitas pessoas saibam alguma coisa, provavelmente ela gostava de literatura, nas terças feiras havia sombra em seus olhos e suas unhas pintadas, anotava tudo que podia e sempre mantinha-se fixa na explicação,carregava sempre em sua mão uma carteira, era engraçada, na forma de um sapo, algum personagem da Monica talvez?
Semana passada, no dia da prova enquanti saia da classe, derrubou seu fichário mas não conseguia alcançá-lo da cadeira de rodas, entreguei-o a ela e com espanto (meu) um fino sorriso, belo, meigo expressou-se na sua face e com mais espanto ainda ouvi um ''obrigado'' numa voz mais grossa que a minha.
Sentava-se ao meu lado mas nunca vi nela uma expressão que lembrasse um sorriso, nem nunca tinha ouvido sua voz.
Apesar disso suas expressões perante as aulas, provavelmente quando não entendia alguma coisa me faziam sorrir, bem de leve, para que não percebesse. Ela tinha um amigo, um índio, que tinha a sorte de falar com ela.
Ninguém comentava sobre a anna, nem falava com ela, era linda, deficiente, e mesmo assim invisível, boatos corriam que ela tinha um namorado mas mesmo assim ela não era motivo de fofoca ou de brincadeiras.
Seus interesses? Dúvido que muitas pessoas saibam alguma coisa, provavelmente ela gostava de literatura, nas terças feiras havia sombra em seus olhos e suas unhas pintadas, anotava tudo que podia e sempre mantinha-se fixa na explicação,carregava sempre em sua mão uma carteira, era engraçada, na forma de um sapo, algum personagem da Monica talvez?
Semana passada, no dia da prova enquanti saia da classe, derrubou seu fichário mas não conseguia alcançá-lo da cadeira de rodas, entreguei-o a ela e com espanto (meu) um fino sorriso, belo, meigo expressou-se na sua face e com mais espanto ainda ouvi um ''obrigado'' numa voz mais grossa que a minha.
Quelônios I
Suou frio, ainda havia tempo de chegar a tempo, entregar o buquê de flores que ele não lembrava o nome, dizer que havia se perdido, não, que havia ficado preso no trânsito, seria uma boa se tivesse um carro. Sorriu, iria dizer que o ônibus quebrou, o calor desses dias, nem os ônibus aguentam concordando consigo mesmo. Apressadamente abriu a porta, destrancada, para dar-se de encontro com uma cena no mínimo incomum, dúzias de tartarugas enchiam a sala em pequenos exércitos que se moviam em slow motion.
Foi saudado pela mulher, beijou-a e entregou as flores, mas não antes de perguntar incrédulo o que acontecia ''elas iam ser mortas dé, eu tive que trazer elas pra cá, o centro de animais fechou'', ele já namorara mulheres estranhas, até uma que frequentava cultos de bruxaria mas aquela cena bizarra desperatara nele simplesmente o riso, o puro riso animal, que após alguns segundos era ouvido e proferido só por ele e pelos quielônios avantajados que lentamente dominavam a sala e a cozinha, ela encabulada e perguntando o por que das risadas ouviu o seco ''você é louca? Vai fazer o que com isso?'' Ela respondeu sem exitar que cuidaria delas, e que traria a midia a esse escândalo e ofensa à mãe natureza, ele se segurava para não rir enquanto 3 tartarugas troncudas derrubavam o centro de mesa da sala ao fundo da cena, ela era louca, só podia ser. 72 tartarugas disse ela.
...Continua...
Foi saudado pela mulher, beijou-a e entregou as flores, mas não antes de perguntar incrédulo o que acontecia ''elas iam ser mortas dé, eu tive que trazer elas pra cá, o centro de animais fechou'', ele já namorara mulheres estranhas, até uma que frequentava cultos de bruxaria mas aquela cena bizarra desperatara nele simplesmente o riso, o puro riso animal, que após alguns segundos era ouvido e proferido só por ele e pelos quielônios avantajados que lentamente dominavam a sala e a cozinha, ela encabulada e perguntando o por que das risadas ouviu o seco ''você é louca? Vai fazer o que com isso?'' Ela respondeu sem exitar que cuidaria delas, e que traria a midia a esse escândalo e ofensa à mãe natureza, ele se segurava para não rir enquanto 3 tartarugas troncudas derrubavam o centro de mesa da sala ao fundo da cena, ela era louca, só podia ser. 72 tartarugas disse ela.
...Continua...
domingo, 22 de novembro de 2009
Comédia romântica
O aroma de café da minha mesa, tem o sentido mais óbvio, me deixar acordado. Algumas pessoas não conseguem dormir, tem insônia, eu queria poder viver acordado, escapar desse tormento que me persegue, pelo menos acordado eu consigo evitar meus pensamentos.
O sonho se repete, e a agonia também, eu achava que tinha honra. Agora sei que sou mais humano do que me imaginava, infelizmente. Mas já são 7 da manhã, e o trabalho me espera, meu salário também, os devaneios cesam na mesa do bar e recomeçam com a primeira tragada de whisky aparentemente a única coisa boa que meu salário me proporciona, escolho uma das dançarinas e acordo com o mesmo sonho, e com uma mesma estranha, sozinho.
O suor frio escoria no meu rosto, e eu me perguntei mesmo que por fração de segundo se minha vida valia o tormento, a resposta óbvia, era não. Mas meu lado humano, sádico, riu do autoflagelamento, escovou os dentes e saiu para o trabalho. Recebi um sms, um convite para uma festa, dentre tudo aquilo que me dava prazer no momento, uma festa à fantasia não estava nem perto do top 10, mas o convite viera nada mais, nada menos, que dela.
Comprei um terno novo, vesti a mascara que de falsa, era menos que meu rosto e lá estava ela, acenou, beijei-a no rosto e dançamos.Ela me abraçava,até que agarrou meu pescoço, fechou os olhos e beijou-me e eu desejei que aquilo fosse um sonho, levou-me para um quarto, tive a melhor noite em tempos da minha vida.Quem acordou sozinho, pelo menos na cama, foi ela, o sol não nasceu na janela, meu corpo enforcado impedia o sol.
O sonho se repete, e a agonia também, eu achava que tinha honra. Agora sei que sou mais humano do que me imaginava, infelizmente. Mas já são 7 da manhã, e o trabalho me espera, meu salário também, os devaneios cesam na mesa do bar e recomeçam com a primeira tragada de whisky aparentemente a única coisa boa que meu salário me proporciona, escolho uma das dançarinas e acordo com o mesmo sonho, e com uma mesma estranha, sozinho.
O suor frio escoria no meu rosto, e eu me perguntei mesmo que por fração de segundo se minha vida valia o tormento, a resposta óbvia, era não. Mas meu lado humano, sádico, riu do autoflagelamento, escovou os dentes e saiu para o trabalho. Recebi um sms, um convite para uma festa, dentre tudo aquilo que me dava prazer no momento, uma festa à fantasia não estava nem perto do top 10, mas o convite viera nada mais, nada menos, que dela.
Comprei um terno novo, vesti a mascara que de falsa, era menos que meu rosto e lá estava ela, acenou, beijei-a no rosto e dançamos.Ela me abraçava,até que agarrou meu pescoço, fechou os olhos e beijou-me e eu desejei que aquilo fosse um sonho, levou-me para um quarto, tive a melhor noite em tempos da minha vida.Quem acordou sozinho, pelo menos na cama, foi ela, o sol não nasceu na janela, meu corpo enforcado impedia o sol.
Coluna de Água
Eu estava sentado com o olhor focado em nada em particular. Uma gota caiu na minha frente. Isso me despertou. Essa gota pareceu se multiplicar, e várias gotas caiam em todos os lados. Eu estava completamente desperto, parecia estar conectado ao mundo que me rodeava por uma força maior. Essas gotas aumentavam, e logo que caiam eram substituídas. Não eram mais gotas, eram colunas de água. A água fria me tocava, me amava, me controlava. Eu vi que perto dos meus pés ela escorria pela terra fazendo uma trilha marrom. Era estranho, mas o marrom parecia vermelho. Aquela coluna que me possuia também possuia a terra aonde eu pisava, o barro nos meus pés é a prova disso. Eu olhei ao redor. A casa pegava fogo. Como podia pegar fogo com tanta chuva caindo diretamente sobre ela? Eu não sei, nunca soube. Ela ainda estava lá dentro. Pra ser honesto, ela ainda está lá dentro. Ficou impossível dizer o que era madeira e o que era uma pessoa em meio das cinzas. Mas eu calculo que quando o fogo já estava incontrolável ela ainda estava desacordada, portanto não havia mais nada a ser feito. Ela queimava, eu amava. Amava a água que era mais poderosa do que eu, a água que chorou a sua morte enquanto eu só pude esperar que ela morresse tomada pela febre. Eu queria ser uma coluna de água, para poder levar aquele fogo como a água levava a terra. Como eu queria que aquela chuva levasse embora as lágrimas que queimavam meu rosto. Nunca mais fui o mesmo depois de ver meu mundo pegar fogo, depois de ver o fogo da febre queimar o fogo da minha paixão, e o calor do fogo queimar a chama da minha existência. Sempre me senti culpado, andando com o remorso nas minhas costas. Até que não pude mais aguentar isso. Agora estou aqui, numa noite que promete uma boa chuva, com dois litros de gasolina e um isqueiro de prata. A gasolina não é como a água, ela não toca o meu corpo lavando os meus pecados. Queima a minha pele incendiando os meus erros. Os dois litros estão agora espalhados pelo meu corpo todo, exceto por minha mão direita. Ela vai garantir que eu queime a mim mesmo, não que seja apenas um erro depois de uma encenação de suicídio. O fogo está aceso. A chuva começa a cair por sobre a terra. Eu toquei no meu peito com o isqueiro. Foi instantâneo. Enquanto agonizava ajoelhado, queimando com meus pecados, a chuva me olhava. Me olhava, e me molhava. As gotas que caiam eram indiferentes aos dois litros de gasolina que ardiam em meu corpo. Naquela noite eu era um ponto vermelho na escuridão, nada mais. Não havia mais o peso da culpa. Eu estava em equilíbrio com o mundo enquando queimava do mesmo jeito que meu amor queimou. E do mesmo jeito que eu estava na chuva naquele dia, eu sei que hoje ela está nessas gotas que eu mal sinto. Mas naqueles que pensei serem os últimos segundos de minha vida, algo parecia errado. Não sei dizer o que era, talvez fosse apenas a gasolina queimando. Mas a gasolina não queimava mais. Eu estava enrolado em uma manta e uma ambulância estava do meu lado. Um homem dizia para eu não desistir, que não era tarde demais para conseguir viver ainda. O equilíbrio estava quebrado. Achei que o momento do incêndio até minha tentativa de suicídio tinha sido ruim, mas agora estava no inferno. Queimei toda a pele do meu corpo, estou preso em uma cama, vigiado 24h por dia para não tentar me matar mordendo minha lingua ou algo do tipo. Eu sou a quebra do sistema, mas dessa vez o sistema foi o mundo. Eu tentei corrigir o erro que cometi no passado e fui impedido. Estou em desiquilíbrio com o universo, não posso descansar em paz. Minha única sorte foi que depois de uma semana, um residente colocou o soro em algum ponto que não devia e morri por hemorragia. O engraçado, é que por final, a água me matou, e não o fogo.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Vida de Peixe
Cheiro de peixe no ar... Olhei ao redor, barracas, vendedores velhos, frutas podres, pastéis malcheirosos.
Foi quando me toquei que eu era mais uma sardinha empilhada em uma das tendas que me circundavam. Entrei em pânico e logo percebi quão ínfimo isso era, eu era um peixe, um peixe morto.
Bem, a última coisa de que me lembrava além do porre da última noite era eu acompanhando um cara que conheci no bar até o seu carro. Abaixei-me para pegar alguma coisa e a cena acabava. Qualquer tentativa de avançá-la era seguida por um torpor tão forte em meus olhos de peixe que desisti. O sonho estava divertido e a feira movimentada, apesar do odor de podridão que eu exalava. Uma figura estranha deparou-se sobre a tenda: luvas, calça social e um rosto comum. Ele pediu alguns peixes e logo eu estava emabalado e não muito depois prostado sob uma tábua de carne.
Deixou-me sozinho por alguns minutos e pelo meu ângulo de visão observei parte da cozinha: utensílios de cozinha, fogão, faca ensanguentada, jornal repousado sobre a mesa e as chaves de seu carro, braço humano fatiado ao lado da faca. Exaltei-me, aquilo não era comum era? Mesmo num sonho, antes que eu pudesse terminar minha tese sobre a aleatoriedade dos sonhos ele usou da mesma faca para me fatiar. Eu era agora um guizado que flutuava na água quente. Colocou-me no prato numa porção ousada, e agora com uma nova vista, deparei-me com um homem, ou algo parecido com um homem, embalado por sacos plásticos. Ele era definitivamente eu. Quando havia me abaixado para pegar as chaves dele, me sequestrou. Me estuprou. roubou meu orgulho, minha vida, e me comeu duas vezes.
Merda de vida.
Foi quando me toquei que eu era mais uma sardinha empilhada em uma das tendas que me circundavam. Entrei em pânico e logo percebi quão ínfimo isso era, eu era um peixe, um peixe morto.
Bem, a última coisa de que me lembrava além do porre da última noite era eu acompanhando um cara que conheci no bar até o seu carro. Abaixei-me para pegar alguma coisa e a cena acabava. Qualquer tentativa de avançá-la era seguida por um torpor tão forte em meus olhos de peixe que desisti. O sonho estava divertido e a feira movimentada, apesar do odor de podridão que eu exalava. Uma figura estranha deparou-se sobre a tenda: luvas, calça social e um rosto comum. Ele pediu alguns peixes e logo eu estava emabalado e não muito depois prostado sob uma tábua de carne.
Deixou-me sozinho por alguns minutos e pelo meu ângulo de visão observei parte da cozinha: utensílios de cozinha, fogão, faca ensanguentada, jornal repousado sobre a mesa e as chaves de seu carro, braço humano fatiado ao lado da faca. Exaltei-me, aquilo não era comum era? Mesmo num sonho, antes que eu pudesse terminar minha tese sobre a aleatoriedade dos sonhos ele usou da mesma faca para me fatiar. Eu era agora um guizado que flutuava na água quente. Colocou-me no prato numa porção ousada, e agora com uma nova vista, deparei-me com um homem, ou algo parecido com um homem, embalado por sacos plásticos. Ele era definitivamente eu. Quando havia me abaixado para pegar as chaves dele, me sequestrou. Me estuprou. roubou meu orgulho, minha vida, e me comeu duas vezes.
Merda de vida.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
questão de gosto
Eu precisava de um café. Tomei coragem e fui até a cozinha gelada, que por ironia eu tinha mandado entupir de pisos frios até nas paredes, pra ficar mais “fresquinha”. Idiota. Peguei uma panela qualquer e enchi de água. Esperava pelas pequenas bolhas que se desprendem do metal e começam a subir à superfície – o que identifica o ponto certo da água pra um bom café – quando pensei que precisava mesmo é de um banho. Ainda poderia aproveitar a água, mas não nessa temperatura. Aumentei a intensidade do fogo e aguardei até que as bolhas gigantes estourassem, espirrando água fervente pelo chão.
Aos cuidados de um pano, levei meu pequeno vaporizador metálico para o banheiro, tomando cuidado para não derramar nada. Fechei a porta e depositei a panela em cima da pia. Meus olhos me fitavam do espelho. Eram lindos. Dançando, o vapor da água ainda esperava alguma atitude minha. Sedutor. Liguei o chuveiro. Água quente também saía dele. O pano de lado e minha mão no metal. O ardor inicial era agradável, mas depois a pele dos meus dedos fritou. Retirei a mão, vermelha, deixando alguns pedaços mínimos dela no metal em ebulição. Com meus dedos ainda latejando de dor, despejei o caldo infernal. Sobre mim. Me envolveu feito um cobertor, até eu olhar novamente para o espelho e me ver inteira, em chamas. Meu rosto escarlate começava a formar bolhas. Elas foram crescendo e estourando, misturando sangue e água, que escorriam pelos meus seios e terminavam no chão. Meu olho direito quase não conseguia enxergar-se novamente no espelho. A água deve ter passeado mais por aquele lado e a cegueira começava. Parte do meu couro cabeludo já não existia. As queimaduras eram para sempre. Minha beleza estava destruída, incompleta. E por fim, perfeita.
Aos cuidados de um pano, levei meu pequeno vaporizador metálico para o banheiro, tomando cuidado para não derramar nada. Fechei a porta e depositei a panela em cima da pia. Meus olhos me fitavam do espelho. Eram lindos. Dançando, o vapor da água ainda esperava alguma atitude minha. Sedutor. Liguei o chuveiro. Água quente também saía dele. O pano de lado e minha mão no metal. O ardor inicial era agradável, mas depois a pele dos meus dedos fritou. Retirei a mão, vermelha, deixando alguns pedaços mínimos dela no metal em ebulição. Com meus dedos ainda latejando de dor, despejei o caldo infernal. Sobre mim. Me envolveu feito um cobertor, até eu olhar novamente para o espelho e me ver inteira, em chamas. Meu rosto escarlate começava a formar bolhas. Elas foram crescendo e estourando, misturando sangue e água, que escorriam pelos meus seios e terminavam no chão. Meu olho direito quase não conseguia enxergar-se novamente no espelho. A água deve ter passeado mais por aquele lado e a cegueira começava. Parte do meu couro cabeludo já não existia. As queimaduras eram para sempre. Minha beleza estava destruída, incompleta. E por fim, perfeita.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Hoje
Hoje é dia de acordar uma hora mais cedo, me arrumar e preparar seu café com leite. É dia de trocar os papéis e te acordar. Eu faria igual a você, entraria em seu quarto gritando o horário bem adiantado e arrancaria seu lençol da cama.
Nós podemos almoçar juntos quando eu sair da aula. Podemos ir ao japonês ou ao seu restaurante mesmo, não importa.
Se eu estivesse trabalhando, poderia te comprar um presente diferente. Nunca te comprei um presente, sempre fiz algumas tranqueiras com as nossas fotos ou só com algumas frases clichês de “parabéns, eu te amo”. Ou algum desenho, mas faz quase 10 anos que não desenho nada.
Há um tempo, pensei em gravar minha versão daquela música que cantei em meu aniversário e você chorou, lembra? Eu estava com tanta vergonha que só conseguia olhar para o microfone, mas eu te vi lá no fundo emocionado. Até hoje quando a mamãe ouve aquela música, ela se lembra do meu aniversário e da cena toda.
Semana passada, te procurei na sala lá de casa. Às vezes te procuro pelo quintal, você nem ficou aqui para ver como a mamãe redesenhou todo o lugar que você deixou.
Acho que sou a única pessoa que consegue olhar para o novo e reposicionar todas as coisas do jeitinho que elas eram quando você estava por aqui.
De lá até aqui me meti em tantos problemas, me machuquei tanto, caí tanto. Descobri que não sei esquecer as pessoas que amo, nem as que não amo e nem as que me fizeram mal. Acho que você era assim também.
Se você estivesse aqui hoje, eu não escreveria nada disso; também não estaria acordada agora. Estaria na hora de te acordar, mas já faz três anos que não te vejo em seu aniversário. Tudo bem, pai, o dia não terminará agora para mim e nem para você. Hoje farei minha primeira tatuagem e é você quem vai assiná-la. Até mais.
Marina Bellini
Nós podemos almoçar juntos quando eu sair da aula. Podemos ir ao japonês ou ao seu restaurante mesmo, não importa.
Se eu estivesse trabalhando, poderia te comprar um presente diferente. Nunca te comprei um presente, sempre fiz algumas tranqueiras com as nossas fotos ou só com algumas frases clichês de “parabéns, eu te amo”. Ou algum desenho, mas faz quase 10 anos que não desenho nada.
Há um tempo, pensei em gravar minha versão daquela música que cantei em meu aniversário e você chorou, lembra? Eu estava com tanta vergonha que só conseguia olhar para o microfone, mas eu te vi lá no fundo emocionado. Até hoje quando a mamãe ouve aquela música, ela se lembra do meu aniversário e da cena toda.
Semana passada, te procurei na sala lá de casa. Às vezes te procuro pelo quintal, você nem ficou aqui para ver como a mamãe redesenhou todo o lugar que você deixou.
Acho que sou a única pessoa que consegue olhar para o novo e reposicionar todas as coisas do jeitinho que elas eram quando você estava por aqui.
De lá até aqui me meti em tantos problemas, me machuquei tanto, caí tanto. Descobri que não sei esquecer as pessoas que amo, nem as que não amo e nem as que me fizeram mal. Acho que você era assim também.
Se você estivesse aqui hoje, eu não escreveria nada disso; também não estaria acordada agora. Estaria na hora de te acordar, mas já faz três anos que não te vejo em seu aniversário. Tudo bem, pai, o dia não terminará agora para mim e nem para você. Hoje farei minha primeira tatuagem e é você quem vai assiná-la. Até mais.
Marina Bellini
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Nó na gravata
Eu tinha uma entrevista de emprego, precisava estar bem arrumado. Aluguei um terno quase-decente, aos olhos de um leigo certamente parece um terno ridiculamente caro. Quando me arrumava para a entrevista, reparei que a gravata não estava amarrada. Eu havia pedido especificamente um gravata amarrada, eu não sei dar nó em gravata, é algo que todo homem deveria saber, mas eu não sei. Fiquei tentando dar o nó na gravata por quase uma hora até conseguir uma coisa parecida com um nó. Sai correndo, estava atrasado para a entrevista. Não tranquei o apartamento, e quando cheguei no final do corredor, o elevador tinha acabado de se fechar. Corri pelas escadas, quase caindo a cada curva. Quando eu saia esbarrei em um cara que levava uma tv para seu apartamento, parecia ser o cara esquisito que nunca fala com ninguem do 303 mas não olhei duas vezes, continuei correndo. Quando tava quase chegando em um sinaleiro, o sinal fechou e uma fila de carros me bloqueou. Olhei para a esquina mais perto. Minha noiva estava beijando um cara em plena calçada, sem nenhuma idéia de que eu estava por perto. E eu tive que ver aquilo, preso no trânsito, atrasado para uma entrevista. num calor infernal. Mas achei melhor ignorar aquilo, eu fui embora. Cheguei atrasado demais, perdi a entrevista. Quando voltava para casa passei em um cruzamento exatamente na hora que uma vadia tentava manobrar o carro do marrido, amassou a lateral inteira do carro. Enquanto subo a escada, penso que nada podia dar mais errado nesse dia, então eu chego no meu andar. O esquisito do 303 está lá me esperando, acho melhor eu ir me desculpar com ele. Quando ele me ve, puxa um revolver e atira três vezes no meu peito. Agora, enquanto caio quase sem vida no chão eu penso que se aquele filho da puta do vendedor tivesse dado o maldito nó na porra da gravata, eu poderia estar em casa, com um emprego, uma namorada e um carro intacto na garagem do prédio, mas não. To aqui, morrendo.
Ressonância
Ressonância
Em Física, Ressonância é a tendência de um sistema a oscilar em máxima amplitude em certas frequências, conhecido como 'frequências ressonantes'. Nessas frequências, até mesmo forças periódicas pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, pois o sistema armazena energia vibracional. Quando o amortecimento é pequeno, a frequência de ressonância é aproximadamente igual a frequência natural do sistema, o que é a frequência de vibrações livres.
Eu sentia que algo se mexia logo acima de mim, e não se mexia aleatoriamente. Algo se mexia dentro de mim, e isso controlava a oscilação que eu sentia. Eu controlava algo, pela primeira vez na minha vida. Sinto como se pudesse quebrar toda a lógica de Sartre, a minha liberdade não tem limite. Ela começa na minha vontade e termina em algum lugar ao infinito. O único problema, é que não sei aonde estou.
Eu estava sentado em um banco de concreto. Há pessoas demais por perto, todas parecem tristes. Olhando melhor o cenário, eu acho que eu estou em um funeral. Definitivamente, é um funeral. Mas eu não me lembro de ninguém ter morrido. Talvez seja melhor ver a quem eu supostamente estou prestando homenagem. Enquanto vou em direção a um caixão aberto, vejo vários conhecidos. Há conhecidos demais, alguém próximo deve estar naquela caixa de madeira. Eu parei no meio do caminho. Eu olhei para quem eu conhecia, e relembrei das coisas que aconteceram na minha vida. Olhei para minha antiga namorada e lembrei de fugir das aulas teóricas para ficar com ela em algum lugar isolado onde só existiamos nós dois. Até que tudo terminou, e nada mais foi o mesmo na nossa amizade. Vejo os meus amigos e lembro das conversas que tivemos, tudo o que já discutimos e questionamos nessa vida. E realmente, foram vária conversas. Me perdi em meus pensamentos, quando me dei conta, o caixão estava prestes a ser enterrado. Me dirigi à cova aberta, e enquanto dei a primeira olhada no caixão, uma gota de chuva atingiu-me no rosto. E tudo ficou esclarecido.
Eu me vi vestido em caro terno preto, com uma camisa cor vermelho-sangue -uma escolha meio irônica para um morto- deitado dentro do caixão de forro de cetim-preto.
Como eu não percebi antes? A liberdade nunca poderia ser infinita, a ressonância precisa de uma força para começar, mas eventualmente ela acabará.
Em Física, Ressonância é a tendência de um sistema a oscilar em máxima amplitude em certas frequências, conhecido como 'frequências ressonantes'. Nessas frequências, até mesmo forças periódicas pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, pois o sistema armazena energia vibracional. Quando o amortecimento é pequeno, a frequência de ressonância é aproximadamente igual a frequência natural do sistema, o que é a frequência de vibrações livres.
Eu sentia que algo se mexia logo acima de mim, e não se mexia aleatoriamente. Algo se mexia dentro de mim, e isso controlava a oscilação que eu sentia. Eu controlava algo, pela primeira vez na minha vida. Sinto como se pudesse quebrar toda a lógica de Sartre, a minha liberdade não tem limite. Ela começa na minha vontade e termina em algum lugar ao infinito. O único problema, é que não sei aonde estou.
Eu estava sentado em um banco de concreto. Há pessoas demais por perto, todas parecem tristes. Olhando melhor o cenário, eu acho que eu estou em um funeral. Definitivamente, é um funeral. Mas eu não me lembro de ninguém ter morrido. Talvez seja melhor ver a quem eu supostamente estou prestando homenagem. Enquanto vou em direção a um caixão aberto, vejo vários conhecidos. Há conhecidos demais, alguém próximo deve estar naquela caixa de madeira. Eu parei no meio do caminho. Eu olhei para quem eu conhecia, e relembrei das coisas que aconteceram na minha vida. Olhei para minha antiga namorada e lembrei de fugir das aulas teóricas para ficar com ela em algum lugar isolado onde só existiamos nós dois. Até que tudo terminou, e nada mais foi o mesmo na nossa amizade. Vejo os meus amigos e lembro das conversas que tivemos, tudo o que já discutimos e questionamos nessa vida. E realmente, foram vária conversas. Me perdi em meus pensamentos, quando me dei conta, o caixão estava prestes a ser enterrado. Me dirigi à cova aberta, e enquanto dei a primeira olhada no caixão, uma gota de chuva atingiu-me no rosto. E tudo ficou esclarecido.
Eu me vi vestido em caro terno preto, com uma camisa cor vermelho-sangue -uma escolha meio irônica para um morto- deitado dentro do caixão de forro de cetim-preto.
Como eu não percebi antes? A liberdade nunca poderia ser infinita, a ressonância precisa de uma força para começar, mas eventualmente ela acabará.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Psicose humana
O suor escorria pelo meu rosto, mais por elegância do que por nervosismo, enquanto eu mantinha a arma apontada para a cabeça dele. Tirar a vida dele, acabar com a existência do que um dia eu já tinha gostado era tudo que ainda parecia são, na minha mente deturpada. Mas o que me daria mais prazer? Sua morte, ou eternizar esse momento de tensão? Vê-lo pálido como um fantasma, implorando pela vida que ele não merecia, implorando pelo amor da vida dele que era meu. O quarto escuro com cheiro de pólvora me fazia querer vomitar, não mais que o rosto ensanguentado do que eu já havia chamado de amigo, mas me fazia querer vomitar. Apesar da naúsea constante, me sentia orgulhoso, mesmo após nossa briga no bar que ferira uma garçonete, conseguira trazê-lo até em casa, ''conversar'' eu disse no telefone para ele enquanto comprava a corda que o prendia à viga de madeira do meu porão.
Resolvi que era hora de agir, removi o esparadrapo que o impedia de falar, filho da puta, ele exclamou até perder o fôlego. Eu calmamente perguntei se ele ainda a amava. Ameaças, era tudo que eu ouvia, eu já havia trocado confissões com ele, viajado pelo mundo e tudo que recebi em troca além da ingratidão foi um amor perdido. Mirei novamente para o seu rosto e em instantes sua raiva tornou-se angústia e não obstante, desespero. Eu disse novamente, você ainda a ama? Ele exaltou-se com um: sim ela sempre me amou, muito mais do que você imagina.
Eu sorri, soltei suas mordaças e sua corda, e disse, vá, você mercece viver Gabriel, ainda mirando a arma em sua cabeça. Ele arrastou-se, tropeçou, fugiu. Exaltei-me numa risada orgasmatica e ainda sem fôlego tirei do bolso o celular dela, e mandei uma mensagem a ele. ''Estou te esperando em casa, aonde vc está?''. coloquei o celular ao lado do vestido ensanguentado que pertencera a ela e deitei-me. Você merece viver..... viver esse inferno que eu fiz só pra voce, pensei e sorri dormindo como um anjo mesmo com as sirenes
Resolvi que era hora de agir, removi o esparadrapo que o impedia de falar, filho da puta, ele exclamou até perder o fôlego. Eu calmamente perguntei se ele ainda a amava. Ameaças, era tudo que eu ouvia, eu já havia trocado confissões com ele, viajado pelo mundo e tudo que recebi em troca além da ingratidão foi um amor perdido. Mirei novamente para o seu rosto e em instantes sua raiva tornou-se angústia e não obstante, desespero. Eu disse novamente, você ainda a ama? Ele exaltou-se com um: sim ela sempre me amou, muito mais do que você imagina.
Eu sorri, soltei suas mordaças e sua corda, e disse, vá, você mercece viver Gabriel, ainda mirando a arma em sua cabeça. Ele arrastou-se, tropeçou, fugiu. Exaltei-me numa risada orgasmatica e ainda sem fôlego tirei do bolso o celular dela, e mandei uma mensagem a ele. ''Estou te esperando em casa, aonde vc está?''. coloquei o celular ao lado do vestido ensanguentado que pertencera a ela e deitei-me. Você merece viver..... viver esse inferno que eu fiz só pra voce, pensei e sorri dormindo como um anjo mesmo com as sirenes
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Luxúria
Olhou-me e tudo que pude sentir foi o peso dos meus pecados.
Ainda podemos ser amigos?, perguntei ironicamente.
Já ciente de que não ouviria resposta, me virei e continuei andando, e senti seus braços ao meu redor. Não falou nada, foram-se algumas segundos naquele corredor de supermercado até receber o convite. Vamos para casa?, ele disse.
Acordei ao lado dele, as suas mãos em meu ombro e um sorriso de prazer estampado em nossos corpos nus.
Me levantei sem ele notar, e enquanto preparava o café, meu celular brilhou com a mensagem. Era ela.
Me vesti e não bebi o café. Ele iria precisar.
Precisava me confessar. Que espécie de homem faria algo daquele tipo? O prazer que era a visita aquela igreja humilde ao lado de minha casa era impagável e muito além do usual. A freira como sempre, me esperava ao lado do altar, o padre não havia chegado.
Levou-me até a sala do confessionário, ela foi minha, carne, sangue e pão naqueles sagrados 5 minutos. Outro sms, "te amo" dizia.
Me confessei, não totalmente é claro. Uma vida dupla, sexualidade dupla mas um único pecado: luxúria.
Ainda podemos ser amigos?, perguntei ironicamente.
Já ciente de que não ouviria resposta, me virei e continuei andando, e senti seus braços ao meu redor. Não falou nada, foram-se algumas segundos naquele corredor de supermercado até receber o convite. Vamos para casa?, ele disse.
Acordei ao lado dele, as suas mãos em meu ombro e um sorriso de prazer estampado em nossos corpos nus.
Me levantei sem ele notar, e enquanto preparava o café, meu celular brilhou com a mensagem. Era ela.
Me vesti e não bebi o café. Ele iria precisar.
Precisava me confessar. Que espécie de homem faria algo daquele tipo? O prazer que era a visita aquela igreja humilde ao lado de minha casa era impagável e muito além do usual. A freira como sempre, me esperava ao lado do altar, o padre não havia chegado.
Levou-me até a sala do confessionário, ela foi minha, carne, sangue e pão naqueles sagrados 5 minutos. Outro sms, "te amo" dizia.
Me confessei, não totalmente é claro. Uma vida dupla, sexualidade dupla mas um único pecado: luxúria.
jornada
A formiga no canto do banheiro. Eu observava esse pequeno ser decidindo algum ponto da sua inimaginável vida naquele cruzamento de chão e parede. O caminho era longo caso ela quisesse subir os infinitos pisos que levavam ao teto. Parecia preocupada o suficiente para manter as duas patas dianteiras eriçadas e as anteninhas epiléticas à frente. Por mais que insetos sejam desprezíveis, sempre tive carinho por alguns deles. Aranhas e formigas, principalmente. Ainda mais por aquela formiguinha, preta, simples. Me comovia o tempo, comparado à mínima duração de sua vida, que ela estava demorando para se decidir entre chão ou parede. Fez então sua decisão. Escolheu pela parede enfim. Ótima escolha. Pra quê continuar de onde estava? Se veio do chão, arrisque-se na parede. Muita bravura.
Após uma lajota de caminhada a formiga parou, hesitante. Por quê? Continue em direção ao teto. Vá ao desconhecido. Ela então voltou seu corpo em direção ao chão e começou a descer. E desceu, chegou ao chão. Caminhou mais alguns centímetros e veio de encontro ao meu dedão. Decepcionante, formiga. Esmaguei-a.
Após uma lajota de caminhada a formiga parou, hesitante. Por quê? Continue em direção ao teto. Vá ao desconhecido. Ela então voltou seu corpo em direção ao chão e começou a descer. E desceu, chegou ao chão. Caminhou mais alguns centímetros e veio de encontro ao meu dedão. Decepcionante, formiga. Esmaguei-a.
conversa de bar
É notável a quantidade de vezes em que os seres-humanos pensam que são realmente semelhantes aos seus iguais. Às vezes percebemos nossas diferenças. E nos damos conta de quem realmente somos. E foi assim que tudo se deu.
- Eu preciso de alguma coisa pra fazer.
- É cara, também acho. Precisa conhecer gente nova. Gente mais intelectualizada, comprometida com alguma coisa.
- Pois é.
- Sabe, tem esse grupo que eu faço parte, é uma ONG. Só gente de nível, que ajuda a comunidade, faz o bem, sabe? Acho a sua cara, ainda mais você, que gosta de ajudar os outros.
- Desde quando eu gosto de ajudar os outros?
- Como assim? Não gosta?
- Não.
- Impossível não gostar. E a sensação de bem-estar que te dá? Isso não é bom?
- Prazer por prazer, prefiro pagar uma puta pra isso. Mais barato e rápido.
- Não fala besteira, cara.
- É tudo questão de auto-satisfação. Não existe isso de altruísmo no mundo. Tudo tem seu fim egoísta.
- Falou besteira.
- Me diz aí alguma ação humanitária que te digo o fundo real dela.
- Ajudar os pobres, que tal?
- Deixando de lado as crenças religiosas?
- É.
- Limpeza de consciência. Aumentar auto-estima. Achar seu valor no mundo. Só escolher um. E depois dizem que não dá pra estimar o valor de nós, humanos, né?
- E por que você vive então?
- Vivo pra mim e pra quem eu gosto. E pro que eu gosto. Se eu quiser ajudar as baleias, ajudo. Mas não vou me sentir melhor por isso. Só ajudei. Foda-se o que elas vão pensar de mim, se ficarão gratas. Ajudei pra passar o tempo. Como passo o tempo aqui com você.
- Ah, então agora você fica aqui comigo, bebendo, só pra passar o tempo?
- Lá vem. Sabia que ia dar nisso. Você não entende como eu funciono. Eu te curto pra caramba. Beber cerveja com você e ouvir seus papos sobre igreja é muito bom. E pra passar o tempo. Não é isso que a gente faz a vida toda: espera o tempo passar? Colocar em palavras acaba com a magia da coisa, não é?
- Então se não surgir nada mais interessante, eu sou sua única opção?
- Eu não disse isso. Mas sim. Considere um elogio ou não, mas você é a coisa mais interessante que eu tenho pra fazer agora. E não estou dando valores nem fazendo comparações.
- É, cara. Bem que me disseram que você não era boa companhia.
- Ah, é?
- É. Que você era estranho e tal. Por isso não tem amigos.
- Poxa. Fico sentido.
- Tira esse seu sorrisinho da cara. Não precisa fingir que não se importa.
- Tá certo. Eu me importo. Me importo tanto que vou pedir outra garrafa pra gente. Pode ser?
- Tá.
- E você? Vive pra quê?
- Vivo pela vida, amigo.
- E eu não?
- Eu vivo para fazer a diferença. Eu vivo para tornar o mundo um lugar melhor para os que virão. Quero fazer minha parte.
- Desperdício de tempo.
- Mas você poderia fazer isso. Como você disse, só para passar o tempo.
- Tem razão. Começarei amanhã a dar a minha comida aos pobres. Mas primeiro, me deixa acabar essa cerveja.
- Não precisa zoar, eu sei que você não liga pra isso. Mas me diz aí, por que tanta falta de humanidade? É algum trauma?
- Além dos seus papos sobre deus agora vai dar uma de psicanalista? Não fode.
- É, bem que eu sabia que essa pós em psicologia não ia dar em nada.
- Mas voltando ao que perguntou, não é que eu não tenha esse espírito humanitário. Eu gosto de tratar outros seres-humanos do mesmo jeito que eu me vejo e vejo a todos nós: com desprezo. Somos a podridão do mundo. Aqueles que fodem tudo e depois querem consertar. Os que se iludem acreditando numa vida pós-vida e deixam isso reger suas experiências nesse planeta. Eu pouco me importo se vamos morrer e virar adubo ou se viraremos anjinhos gorduchos. O fato é que somos podres. Nossas emoções são mascaradas e conseguimos ser mais patéticos do que seríamos caso esse contrato social não existisse.
- Até que enfim você mostrou alguma emoção, amigo.
- É. Só isso consegue me alterar.
- Então você gosta de viver o momento? É como aquela corrente filosófica...
- Epicurismo. Não. Epicuro se achava rebelde. Fazia orgias e pensava ir contra as regras. Ele era só mais um dentre os outros. Também passava a vida procurando alguma coisa, assim como você quer “fazer a diferença”. Eu não. Só vivo. Faço o que me der vontade. Não necessariamente busco a felicidade, como fazia o filósofo. Não ligo de viver na tristeza. Não fujo dela.
- Se é assim, por que você não mata pessoas? Não estupra mulheres pelas quais sente desejo?
- Porque tenho ética. Não sou um animal irracional. Como humano carrego o fardo de ter consciência do que é certo ou errado, pelo menos pra mim.
- Não sei. Acho essa sua conversa mais aparência do que realidade. De se achar diferente, só isso.
- Não é.
- Então, de acordo com seu modo de vida, eu poderia fazer o que bem entender e você acharia normal.
- Não só normal. Acharia correto.
- Supondo que essa conversa esteja me irritando. Que você esteja me irritando e fazendo eu te achar um babaca, então eu poderia pegar essa cadeira em que estou sentado e acertá-la na sua cara?
- É um motivo.
- Então farei isso.
- Vá em frente.
Bebi um último gole amargo da cerveja, que nesse momento já estava quente. Ele tomava coragem, incrédulo quanto a minha passividade no momento. As pessoas do bar ao qual pertencia a mesa na calçada ainda não percebiam o que estava por vir. Tentei debochar da situação. Meu sorriso sarcástico foi interrompido por um pedaço de madeira mais consistente do que eu esperava. A pele do meu rosto dançou pelo ar, acompanhada dos respingos vermelhos que eram expulsos da minha têmpora. Gravidade zero. É assim. Meu corpo, então, jogado contra o asfalto. A parede como meu chão. Depois falam que descobrimos o verdadeiro sentimento humano quando ajudamos os necessitados. Quem nunca levou uma cadeira na cabeça não pode saber como é se sentir humano. Enfim um pouco de realidade.
(...)
- Ó meu deus, o que eu fiz?
Ele parecia desesperado.
- Libertador, não?
O sangue é salgado.
- Eu preciso de alguma coisa pra fazer.
- É cara, também acho. Precisa conhecer gente nova. Gente mais intelectualizada, comprometida com alguma coisa.
- Pois é.
- Sabe, tem esse grupo que eu faço parte, é uma ONG. Só gente de nível, que ajuda a comunidade, faz o bem, sabe? Acho a sua cara, ainda mais você, que gosta de ajudar os outros.
- Desde quando eu gosto de ajudar os outros?
- Como assim? Não gosta?
- Não.
- Impossível não gostar. E a sensação de bem-estar que te dá? Isso não é bom?
- Prazer por prazer, prefiro pagar uma puta pra isso. Mais barato e rápido.
- Não fala besteira, cara.
- É tudo questão de auto-satisfação. Não existe isso de altruísmo no mundo. Tudo tem seu fim egoísta.
- Falou besteira.
- Me diz aí alguma ação humanitária que te digo o fundo real dela.
- Ajudar os pobres, que tal?
- Deixando de lado as crenças religiosas?
- É.
- Limpeza de consciência. Aumentar auto-estima. Achar seu valor no mundo. Só escolher um. E depois dizem que não dá pra estimar o valor de nós, humanos, né?
- E por que você vive então?
- Vivo pra mim e pra quem eu gosto. E pro que eu gosto. Se eu quiser ajudar as baleias, ajudo. Mas não vou me sentir melhor por isso. Só ajudei. Foda-se o que elas vão pensar de mim, se ficarão gratas. Ajudei pra passar o tempo. Como passo o tempo aqui com você.
- Ah, então agora você fica aqui comigo, bebendo, só pra passar o tempo?
- Lá vem. Sabia que ia dar nisso. Você não entende como eu funciono. Eu te curto pra caramba. Beber cerveja com você e ouvir seus papos sobre igreja é muito bom. E pra passar o tempo. Não é isso que a gente faz a vida toda: espera o tempo passar? Colocar em palavras acaba com a magia da coisa, não é?
- Então se não surgir nada mais interessante, eu sou sua única opção?
- Eu não disse isso. Mas sim. Considere um elogio ou não, mas você é a coisa mais interessante que eu tenho pra fazer agora. E não estou dando valores nem fazendo comparações.
- É, cara. Bem que me disseram que você não era boa companhia.
- Ah, é?
- É. Que você era estranho e tal. Por isso não tem amigos.
- Poxa. Fico sentido.
- Tira esse seu sorrisinho da cara. Não precisa fingir que não se importa.
- Tá certo. Eu me importo. Me importo tanto que vou pedir outra garrafa pra gente. Pode ser?
- Tá.
- E você? Vive pra quê?
- Vivo pela vida, amigo.
- E eu não?
- Eu vivo para fazer a diferença. Eu vivo para tornar o mundo um lugar melhor para os que virão. Quero fazer minha parte.
- Desperdício de tempo.
- Mas você poderia fazer isso. Como você disse, só para passar o tempo.
- Tem razão. Começarei amanhã a dar a minha comida aos pobres. Mas primeiro, me deixa acabar essa cerveja.
- Não precisa zoar, eu sei que você não liga pra isso. Mas me diz aí, por que tanta falta de humanidade? É algum trauma?
- Além dos seus papos sobre deus agora vai dar uma de psicanalista? Não fode.
- É, bem que eu sabia que essa pós em psicologia não ia dar em nada.
- Mas voltando ao que perguntou, não é que eu não tenha esse espírito humanitário. Eu gosto de tratar outros seres-humanos do mesmo jeito que eu me vejo e vejo a todos nós: com desprezo. Somos a podridão do mundo. Aqueles que fodem tudo e depois querem consertar. Os que se iludem acreditando numa vida pós-vida e deixam isso reger suas experiências nesse planeta. Eu pouco me importo se vamos morrer e virar adubo ou se viraremos anjinhos gorduchos. O fato é que somos podres. Nossas emoções são mascaradas e conseguimos ser mais patéticos do que seríamos caso esse contrato social não existisse.
- Até que enfim você mostrou alguma emoção, amigo.
- É. Só isso consegue me alterar.
- Então você gosta de viver o momento? É como aquela corrente filosófica...
- Epicurismo. Não. Epicuro se achava rebelde. Fazia orgias e pensava ir contra as regras. Ele era só mais um dentre os outros. Também passava a vida procurando alguma coisa, assim como você quer “fazer a diferença”. Eu não. Só vivo. Faço o que me der vontade. Não necessariamente busco a felicidade, como fazia o filósofo. Não ligo de viver na tristeza. Não fujo dela.
- Se é assim, por que você não mata pessoas? Não estupra mulheres pelas quais sente desejo?
- Porque tenho ética. Não sou um animal irracional. Como humano carrego o fardo de ter consciência do que é certo ou errado, pelo menos pra mim.
- Não sei. Acho essa sua conversa mais aparência do que realidade. De se achar diferente, só isso.
- Não é.
- Então, de acordo com seu modo de vida, eu poderia fazer o que bem entender e você acharia normal.
- Não só normal. Acharia correto.
- Supondo que essa conversa esteja me irritando. Que você esteja me irritando e fazendo eu te achar um babaca, então eu poderia pegar essa cadeira em que estou sentado e acertá-la na sua cara?
- É um motivo.
- Então farei isso.
- Vá em frente.
Bebi um último gole amargo da cerveja, que nesse momento já estava quente. Ele tomava coragem, incrédulo quanto a minha passividade no momento. As pessoas do bar ao qual pertencia a mesa na calçada ainda não percebiam o que estava por vir. Tentei debochar da situação. Meu sorriso sarcástico foi interrompido por um pedaço de madeira mais consistente do que eu esperava. A pele do meu rosto dançou pelo ar, acompanhada dos respingos vermelhos que eram expulsos da minha têmpora. Gravidade zero. É assim. Meu corpo, então, jogado contra o asfalto. A parede como meu chão. Depois falam que descobrimos o verdadeiro sentimento humano quando ajudamos os necessitados. Quem nunca levou uma cadeira na cabeça não pode saber como é se sentir humano. Enfim um pouco de realidade.
(...)
- Ó meu deus, o que eu fiz?
Ele parecia desesperado.
- Libertador, não?
O sangue é salgado.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
recompensa
Então é isso. Eu e você. No fim do seu tempo, sou a única pessoa que lhe resta. Sempre esperei o momento em que poderia te dizer tudo. Em que minhas frustrações e revoltas fossem direcionadas para a pessoa que foi a causadora das mesmas. Desde a minha primeira memória de consciência, eu lembro de você. Lembro de como mandava em mim. De como eu era sua propriedade. Mas eu sempre me perguntei "Desde quando?" Quem disse que sou seu? Deus? Justiça? E por que esse deus ou essa justiça nunca me perguntaram sobre os meus direitos? Somos livres, certo? E por que sempre fui seu?
Agora estamos aqui. Você dependente de mim. O papel inverso. É estranho te imaginar não me dando aquelas ordens, me dizendo o que eu tinha que fazer e dando sempre o argumento de que eu tinha que fazer porque você é o que você é. Patético. Quando íamos caçar, minha mão tremia de ansiedade pra que eu, sem-querer, acertasse sua cabeça com uma bala. Mas não podia, claro. Havia ela. Sua tão amada esposa. Passiva. Não digo que era pela religião, já que você era muito mais crente nessas besteiras do que ela. Ela era um doce, claro que era. Esposa e filha de Deus. Quem poderia desejar algo melhor? Eu poderia. Eu desejei. Todas as vezes em que os olhos lacrimejados me fitavam enquanto você me repreendia. Fosse com as palavras, fosse com as mãos. Ela sabia que você estava errado. Eu via isso.
Ao menos pude me desfazer de vocês quando ela se foi. Confesso que fiquei com pena quando te trocou por um frentista de posto. Não por ser frentista. Por ser outro homem que não você. Mas eu dava razão a ela. Se eu não te aguentava nas poucas horas em que te via, imagino ela, que tinha que deitar em você e satisfazer a cama.
Mas chegou a hora, pai. Ou você, ou eu. Aprendi a não buscar vingança. Não guardo rancor por ninguém depois disso. O problema é que meu ódio por você vem de antes. Você pede por uma exceção. Imagino que você não esteja ouvindo. Imagino que queira ir lá fora, queira brincar com seus colegas, queira viver. Queira ter tudo que eu não tive. Quer liberdade, não? Pois essa é minha vingança. Sempre achei que o desumano seria o contrário. Desligar os aparelhos pelos quais o fio da esperança está conectado. Espero que esteja me ouvindo, mesmo no seu estado quase vegetativo. Não pai. Você não pode brincar onde quer que seja. Você não pode se libertar. Os aparelhos continuarão ligados. Quer saber o motivo? Simples. Uso o mesmo argumento que sempre usou. Porque sou seu filho.
Agora estamos aqui. Você dependente de mim. O papel inverso. É estranho te imaginar não me dando aquelas ordens, me dizendo o que eu tinha que fazer e dando sempre o argumento de que eu tinha que fazer porque você é o que você é. Patético. Quando íamos caçar, minha mão tremia de ansiedade pra que eu, sem-querer, acertasse sua cabeça com uma bala. Mas não podia, claro. Havia ela. Sua tão amada esposa. Passiva. Não digo que era pela religião, já que você era muito mais crente nessas besteiras do que ela. Ela era um doce, claro que era. Esposa e filha de Deus. Quem poderia desejar algo melhor? Eu poderia. Eu desejei. Todas as vezes em que os olhos lacrimejados me fitavam enquanto você me repreendia. Fosse com as palavras, fosse com as mãos. Ela sabia que você estava errado. Eu via isso.
Ao menos pude me desfazer de vocês quando ela se foi. Confesso que fiquei com pena quando te trocou por um frentista de posto. Não por ser frentista. Por ser outro homem que não você. Mas eu dava razão a ela. Se eu não te aguentava nas poucas horas em que te via, imagino ela, que tinha que deitar em você e satisfazer a cama.
Mas chegou a hora, pai. Ou você, ou eu. Aprendi a não buscar vingança. Não guardo rancor por ninguém depois disso. O problema é que meu ódio por você vem de antes. Você pede por uma exceção. Imagino que você não esteja ouvindo. Imagino que queira ir lá fora, queira brincar com seus colegas, queira viver. Queira ter tudo que eu não tive. Quer liberdade, não? Pois essa é minha vingança. Sempre achei que o desumano seria o contrário. Desligar os aparelhos pelos quais o fio da esperança está conectado. Espero que esteja me ouvindo, mesmo no seu estado quase vegetativo. Não pai. Você não pode brincar onde quer que seja. Você não pode se libertar. Os aparelhos continuarão ligados. Quer saber o motivo? Simples. Uso o mesmo argumento que sempre usou. Porque sou seu filho.
no calor do momento
Do calor que me envolve, só aprecio a cor. O brilho quente
existente tanto no ensolarado quanto no nublado ou chuvoso.
No calor o tempo pára. O ar em blocos me sufoca. Enquanto o
espírito do país se alegra com a sensualidade do momento, meu
corpo o repele.
As atividades mais nojentas do corpo tornam-se incabíveis. O
tecido mais leve parece uma camisa de força; a água que
escorre na pele só molha. Enquanto no frio tudo é triste,
no calor tudo é morto. O contato humano é insuportável.
Ficamos sós e quentes. O ardor é nosso algoz.
Antes eu não via problema em ir para o inferno. Nem agora o
vejo. Vou para o inferno contanto que não seja no verão.
existente tanto no ensolarado quanto no nublado ou chuvoso.
No calor o tempo pára. O ar em blocos me sufoca. Enquanto o
espírito do país se alegra com a sensualidade do momento, meu
corpo o repele.
As atividades mais nojentas do corpo tornam-se incabíveis. O
tecido mais leve parece uma camisa de força; a água que
escorre na pele só molha. Enquanto no frio tudo é triste,
no calor tudo é morto. O contato humano é insuportável.
Ficamos sós e quentes. O ardor é nosso algoz.
Antes eu não via problema em ir para o inferno. Nem agora o
vejo. Vou para o inferno contanto que não seja no verão.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Retrato
Hoje eu desenhei um retrato sem rosto. Quero dizer, ele devia ter um rosto, mas a face no papel continuava branca-virgem. O desenho era de uma mulher em um parque. Ela era ruiva (falso, não que isso mude alguma coisa no quadro, mas era cabelo tingido) e usava um vestido amarelo. A mulher olhava para o céu azul e para as nuvens brancas como a neve, o que ela pensava eu não sei. Nunca soube. Nunca saberei. E isso me mata por dentro cada vez que eu olho para esse maldito retrato sem rosto. Deve ser por não saber o que ela pensava que eu não consiga desenhar o rosto dela. Como você pode passar para o papel alguma coisa que não pode explicar? Talvez com palavras inexatas perdidas numa frase sem sentido seja possível explicar. Agora o retrato está riscado, arruinado. Gastei um tempo que nunca poderei recuperar desenhando o que eu achei que seria a perfeição, mas só encontrei erros. Erros meus. Quando paro para pensar, percebo que aquele retrato não era sobre a mulher ruiva, era sobre mim. E eu não consegui me completar, eu não sei como. Depois de hoje eu nunca mais vou desenhar, ou pelo menos até saber quem eu sou, mas é mais otimista dizer que será nunca mais. O retrato está amassado, no lixo. Não preciso de um lembrete para tentar me encontrar. Basta um espelho, e olhar para o vazio dentro dele.
Minha certeza é o ódio que carrego pela falsa ruiva que vadiava em um parque e me fez repensar toda a minha vida.
Minha certeza é o ódio que carrego pela falsa ruiva que vadiava em um parque e me fez repensar toda a minha vida.
domingo, 20 de setembro de 2009
Fogo
O fogo da cana no homem. Lúcio estava embriagado, seu rosto estava vermelho como se estivesse em chamas. Cambaleava para andar e sua fala estava enrolada. Francisco estava com Maria perto do canavial. Lúcio amava Maria, Francisco sabia disso e por isso odiava Lúcio com todo o seu coração. Francisco e Maria se conheciam há anos, e se casariam no próximo verão, herdariam todas as terras à leste do rio. Lúcio sabia que naquela noite o casal estaria perto do canavial, e depois de "tomar coragem" foi para lá, ele começou um incêndio. Era o fogo do homem na cana. Francisco queimava, devia sentir dor como nunca sentira antes. Lúcio queimava, não devia sentir nada, havia desmaido antes do fogo começar a se descontrolar. Maria estava viva e via o seu amor queimar. Queimava, ardia e não podia ser apagado. Era a chama da vida, sendo consumida pela chama do ódio. Ela correu para o canavial e nunca mais foi vista. Era o fogo do amor.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
doce ilusão
Isso parece um hospital. As pessoas ansiosas, esperando por qualquer notícia recente. Que caminham silenciosas, deixando transparecer os sinais de cansaço e preocupação pela demora. O chão frio faz parte da caminhada, pareando com as cadeiras enfileiradas, cinzas e mórbidas. Infelizmente é um aeroporto, e o vôo está atrasado. A mulher da voz biônica e sedutora então se prepara para falar. "Atenção...". Todos paralizados. Desapontamento geral quando ela só faz um simples merchandising.
Estranho imaginar a vida de uma pessoa que exerce um papel tão mínimo na vida de outras. É o caso da mulher do aeroporto; do especialista em qualquer coisa; do crítico. Ninguém liga pra presença deles, mas eles ganham algum dinheiro sendo "nadas". Interessante. A voz então recomeça. Dá para sentir a tensão presente entre os que esperam. Enfim, o vôo.
Me dirijo até a área de desembarque. Como sempre, famílias esperando que cada som de rodinhas contra o chão seja a vez delas de gritarem "Bingo!". O orgulho de ter um conhecido voltando ao lar é o máximo que consigo compreender do termo "sentir saudades". Flores para receber quem chega também é um lugar-comum desses momentos. Como quem recebe um soldado vindo da guerra, as pessoas que esperam ali devem presentear os passageiros por terem sobrevivido a uma possível queda de avião, imagino. É o mesmo motivo para se desejar parabéns a alguém que faz aniversário. Mesma lógica. "Parabéns por ter sobrevivido mais um ano, porque nesses tempos nunca se sabe." Não? A única coisa que tenho em mãos é o recibo do café que comprei há pouco.
Será que olhei o número errado? Todos os passageiros saíram, menos ela. O papel no meu bolso diz que estou certo, é esse o vôo. O saguão está quase vazio quando ouço vozes alteradas, vindas lá de dentro. Típico. É ela, esbravejando contra algum atendente. Finalmente aparece. Os pequenos fios de cabelo que se rebelam contra um penteado elegante fixam-se lindos em sua testa. Sempre sua quando fica brava. Parece esquecer a raiva por um momento quando procura alguém pelo saguão, como um filho procura por sua mãe quando se perde. Ela me vê. Sorri. E vem. O barulho que os saltos do sapato fazem consegue reprimir o som perturbador das rodinhas. Meu coração acelera. Sou eu quem suo. Ela pára. Deixa sua pasta e casaco em cima da mala. Nos encaramos. Agora me abraçará de um jeito único, para compensar todo esse tempo fora. Doce ilusão. Ela estende o braço. "Onde estão os últimos relatórios?", "Aqui, chefe. Bem-vinda de volta."
Estranho imaginar a vida de uma pessoa que exerce um papel tão mínimo na vida de outras. É o caso da mulher do aeroporto; do especialista em qualquer coisa; do crítico. Ninguém liga pra presença deles, mas eles ganham algum dinheiro sendo "nadas". Interessante. A voz então recomeça. Dá para sentir a tensão presente entre os que esperam. Enfim, o vôo.
Me dirijo até a área de desembarque. Como sempre, famílias esperando que cada som de rodinhas contra o chão seja a vez delas de gritarem "Bingo!". O orgulho de ter um conhecido voltando ao lar é o máximo que consigo compreender do termo "sentir saudades". Flores para receber quem chega também é um lugar-comum desses momentos. Como quem recebe um soldado vindo da guerra, as pessoas que esperam ali devem presentear os passageiros por terem sobrevivido a uma possível queda de avião, imagino. É o mesmo motivo para se desejar parabéns a alguém que faz aniversário. Mesma lógica. "Parabéns por ter sobrevivido mais um ano, porque nesses tempos nunca se sabe." Não? A única coisa que tenho em mãos é o recibo do café que comprei há pouco.
Será que olhei o número errado? Todos os passageiros saíram, menos ela. O papel no meu bolso diz que estou certo, é esse o vôo. O saguão está quase vazio quando ouço vozes alteradas, vindas lá de dentro. Típico. É ela, esbravejando contra algum atendente. Finalmente aparece. Os pequenos fios de cabelo que se rebelam contra um penteado elegante fixam-se lindos em sua testa. Sempre sua quando fica brava. Parece esquecer a raiva por um momento quando procura alguém pelo saguão, como um filho procura por sua mãe quando se perde. Ela me vê. Sorri. E vem. O barulho que os saltos do sapato fazem consegue reprimir o som perturbador das rodinhas. Meu coração acelera. Sou eu quem suo. Ela pára. Deixa sua pasta e casaco em cima da mala. Nos encaramos. Agora me abraçará de um jeito único, para compensar todo esse tempo fora. Doce ilusão. Ela estende o braço. "Onde estão os últimos relatórios?", "Aqui, chefe. Bem-vinda de volta."
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Espelho da liberdade
Eu andava pela rua, era noite. De tarde tinha chovido, mas agora já não chovia, haviam pequenas poças de água pela rua. Enquanto descia a rua eu cruzei com um vira-lata, não era um cachorro feio, era definitivamente um cachorro de rua, isso podia-se dizer só de olhar pra ele, mas um dia com certeza pertenceu a alguém, e então o cachorro virou um inconveniente e um dia "acidentalmente" o portão ficou aberto e ele fugiu. Mas de quem era o cachorro não muda em nada o que eu quero dizer. Eu descia a rua e ele subia, uns dois metros na minha frente ele parou e começou a mijar. Ele simplesmente se abaixou e mijou. E o mijo dele virou uma poça que se misturou com as poças de chuva, tudo isso dando um volume razoável para uma nova poça. E quando eu passei pelo vira-lata eu percebi que ele não tinha reparado que eu estava por perto, e continuou não ligando para nenhum presença exterior. Ele fazia o que tinha vontade, na hora em que tinha vontade. Nunca na vida tinha invejado tanto um vira-lata.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
justiça social
Observação: A semelhança com Andrea, do livro Hell (Lolita Pille) é inevitável.
A borracha toca a palma da minha mão. Encaixa perfeitamente. Eu o seguro, praticamente empunhando-o. Foi feito pra mim, eu sinto isso. Forço pra frente. O motor sossega. Tiro a mão do câmbio e retorno ao volante, que é meu principal foco nesse momento. Já passa da hora em que a rua é bonita aos olhos. Agora é o mundo real. Pelo vidro vejo os tipos. Prostitutas, bêbados e outros que encontraram um jeito de viver a vida intensamente são iluminados pelos faróis. Eu viveria como eles. Mas tenho uma reputação a manter.
Diminuo a marcha. Gosto de contemplar a noite. Esse lado da cidade. Esses exemplos vivos do que há de mais podre no ser-humano me fazem bem. Sinto sinceridade exalando de seus corpos imundos. O esfarrapado, com sua barba cheia da saliva que escorre da sua boca a cada vez que balbucia qualquer besteira; a garota que vende o corpo e deve ter mais de um quilo de esperma no estômago; o vendedor de qualquer entorpecente vindo de merda de cachorro; o desespero do comprador, que tem suas veias saltadas, os olhos implorando por mais uma dose. Eles me fascinam.
As luzes da rua ressurgem. Sinto os olhos ardendo. Minha garganta e maxilar se contraem em sincronia. Parece que o álcool das últimas trinta horas encontrou seu caminho. Abro a janela. O atrito entre a borracha e o vidro me arrepia. Minhas costelas agora são puxadas para dentro, meu abdômen rígido. Despejo tudo que estava sujando meu organismo no chão. Até que o retrato ficou bonito para um vômito. Agora vejo que parei ao lado de uma fila. Deve ser uma boate. As pessoas me encaram, comentam. Eu sorrio para elas. Patéticas.
Não ligo pro líquido escorrendo pelo meu queixo. Devem me conhecer. O cara que, junto com minha mãe, gerou o espermatozóide que agora é esse cara todo vomitado comanda a maioria das empresas dessa cidade. Hoje ainda é o dia em que essas boates cobram mais barato. Pobres coitados. Aposto que amanhã esse será o assunto entre esses acéfalos. O filho vomitado.
Parecem uns anunciantes de marca de roupa. Esses ingênuos pagam para andar com logotipos por aí, fazendo a publicidade à custa deles mesmos. Aposto que mal têm o que comer em casa. São daqueles que se lamentam quando a família está com dificuldades. Eles deixam de sair uma ou duas semanas. Se entra algum dinheiro, aqui estão eles na fila, de novo. Eu conheço a minha irrelevância na sociedade. Sou um pedaço de merda endinheirado andando por aí. Sei que meu papel é consumir a maior quantidade de substâncias tóxicas que meu corpo aguentar. E só. Eles são menos irrelevantes que eu. Fazem a máquina andar. São o rebanho social.
Devem ser os que acham a política uma merda; que desejam o fim da matança dos animais; que acreditam em governos imperialistas; são contra a violência e à favor da igualdade social. Hipócritas de merda. E continuam na imobilidade, na passividade. Esses bostas nunca fizeram nada para lutar pelo que tanto desejam. Meu sangue borbulha ao pensar nisso. Cuspo o resto amargo que continua se misturando com a minha saliva. Que se fodam.
Dou ré no carro, volto alguns metros. A mão que está na marcha quase treme de ansiedade. Ajeito meu terno feito pelo Lorenzo. A mãe dele era cega e ensinou-o, quando garoto, a costurar. Não me emociona em nada. Grande Lorenzo. Uma bicha que faz ótimas roupas sob medida. O carro agora está de frente para a fila. Eles devem estar achando que vou sair para ir de encontro a eles. De certa forma, sim. Mas não vou sair. Quando vejo, já estou a alguns metros de cinco deles. O parachoque do carro acerta todos. Strike. Pelo desespero dos que sobraram, devem achar que sou um psicopata. É lindo. Saio do carro. A gritaria irrita meus ouvidos. Melhor passar para a parte burocrática. Fazer com que isso não apareça nos noticiários amanhã.
- Alô, pai?
A borracha toca a palma da minha mão. Encaixa perfeitamente. Eu o seguro, praticamente empunhando-o. Foi feito pra mim, eu sinto isso. Forço pra frente. O motor sossega. Tiro a mão do câmbio e retorno ao volante, que é meu principal foco nesse momento. Já passa da hora em que a rua é bonita aos olhos. Agora é o mundo real. Pelo vidro vejo os tipos. Prostitutas, bêbados e outros que encontraram um jeito de viver a vida intensamente são iluminados pelos faróis. Eu viveria como eles. Mas tenho uma reputação a manter.
Diminuo a marcha. Gosto de contemplar a noite. Esse lado da cidade. Esses exemplos vivos do que há de mais podre no ser-humano me fazem bem. Sinto sinceridade exalando de seus corpos imundos. O esfarrapado, com sua barba cheia da saliva que escorre da sua boca a cada vez que balbucia qualquer besteira; a garota que vende o corpo e deve ter mais de um quilo de esperma no estômago; o vendedor de qualquer entorpecente vindo de merda de cachorro; o desespero do comprador, que tem suas veias saltadas, os olhos implorando por mais uma dose. Eles me fascinam.
As luzes da rua ressurgem. Sinto os olhos ardendo. Minha garganta e maxilar se contraem em sincronia. Parece que o álcool das últimas trinta horas encontrou seu caminho. Abro a janela. O atrito entre a borracha e o vidro me arrepia. Minhas costelas agora são puxadas para dentro, meu abdômen rígido. Despejo tudo que estava sujando meu organismo no chão. Até que o retrato ficou bonito para um vômito. Agora vejo que parei ao lado de uma fila. Deve ser uma boate. As pessoas me encaram, comentam. Eu sorrio para elas. Patéticas.
Não ligo pro líquido escorrendo pelo meu queixo. Devem me conhecer. O cara que, junto com minha mãe, gerou o espermatozóide que agora é esse cara todo vomitado comanda a maioria das empresas dessa cidade. Hoje ainda é o dia em que essas boates cobram mais barato. Pobres coitados. Aposto que amanhã esse será o assunto entre esses acéfalos. O filho vomitado.
Parecem uns anunciantes de marca de roupa. Esses ingênuos pagam para andar com logotipos por aí, fazendo a publicidade à custa deles mesmos. Aposto que mal têm o que comer em casa. São daqueles que se lamentam quando a família está com dificuldades. Eles deixam de sair uma ou duas semanas. Se entra algum dinheiro, aqui estão eles na fila, de novo. Eu conheço a minha irrelevância na sociedade. Sou um pedaço de merda endinheirado andando por aí. Sei que meu papel é consumir a maior quantidade de substâncias tóxicas que meu corpo aguentar. E só. Eles são menos irrelevantes que eu. Fazem a máquina andar. São o rebanho social.
Devem ser os que acham a política uma merda; que desejam o fim da matança dos animais; que acreditam em governos imperialistas; são contra a violência e à favor da igualdade social. Hipócritas de merda. E continuam na imobilidade, na passividade. Esses bostas nunca fizeram nada para lutar pelo que tanto desejam. Meu sangue borbulha ao pensar nisso. Cuspo o resto amargo que continua se misturando com a minha saliva. Que se fodam.
Dou ré no carro, volto alguns metros. A mão que está na marcha quase treme de ansiedade. Ajeito meu terno feito pelo Lorenzo. A mãe dele era cega e ensinou-o, quando garoto, a costurar. Não me emociona em nada. Grande Lorenzo. Uma bicha que faz ótimas roupas sob medida. O carro agora está de frente para a fila. Eles devem estar achando que vou sair para ir de encontro a eles. De certa forma, sim. Mas não vou sair. Quando vejo, já estou a alguns metros de cinco deles. O parachoque do carro acerta todos. Strike. Pelo desespero dos que sobraram, devem achar que sou um psicopata. É lindo. Saio do carro. A gritaria irrita meus ouvidos. Melhor passar para a parte burocrática. Fazer com que isso não apareça nos noticiários amanhã.
- Alô, pai?
domingo, 26 de julho de 2009
enterro
As nuvens como torneiras pingando. A típica atmosfera fúnebre. A chuva quase não nos molha. Só está aqui para o cenário. E é tão irritante quanto uma torneira pingando no metal. O som baixo, mas presente. Contei umas vinte pessoas, um pouco mais. São abutres, corpos revestidos de luto.
O preto, a cor padrão, a cor da morte. Não era pesar que ele representava. Era confusão. Qual será a dose de tristeza necessária que precisava ser percebida? Choro ou quietude? Lágrimas e soluços seriam suficientes? Imagino que era o que pensava esse bloco negro. Óculos escuros, lenços em mãos, rostos mórbidos. Não sei por que insistiam em se parecer com o morto.
A procissão continuava a passos lentos. Os saltos de sapatos sendo retirados bruscamente dos paralelepípedos, as fotos amareladas de outros moradores do local, fincadas em pingentes, assistiam ao teatro. O som de sapatos de homens que celebram enterros e casamentos com as mesmas roupas deslizando nas pedras. Estranho. Chegamos enfim ao túmulo da família.
Um alvoroço se estendeu à minha frente. Abrindo caminho pelo povaréu, cheguei ao tumulto. O túmulo estava violado. Segui um rastro de terra que parecia ser perceptível só a mim. Ele se estendia até as passarelas de outros túmulos. "Aqui", eu gritei. Aos meus pés estava a ex-mulher do defunto, morta meses antes. Seu vestido estava levantado até a altura da cintura, as pernas estiradas em direções opostas. As pessoas se aglomeravam aos poucos, todas perplexas.
Meu olhar se encontrou com o do um dos filhos dos mortos. Veio correndo até o local. O único problema é que ele era um dos quatro que estavam segurando o caixão do defunto fresco. Assim, o objeto fúnebre perdeu o equilíbrio dos pedestais humanos restantes. O morto rolou. A chuva já estava mais forte. O rosto lívido estava cheio de lama, com fios de cabelo grudados na testa. Agora ele sorria.
O preto, a cor padrão, a cor da morte. Não era pesar que ele representava. Era confusão. Qual será a dose de tristeza necessária que precisava ser percebida? Choro ou quietude? Lágrimas e soluços seriam suficientes? Imagino que era o que pensava esse bloco negro. Óculos escuros, lenços em mãos, rostos mórbidos. Não sei por que insistiam em se parecer com o morto.
A procissão continuava a passos lentos. Os saltos de sapatos sendo retirados bruscamente dos paralelepípedos, as fotos amareladas de outros moradores do local, fincadas em pingentes, assistiam ao teatro. O som de sapatos de homens que celebram enterros e casamentos com as mesmas roupas deslizando nas pedras. Estranho. Chegamos enfim ao túmulo da família.
Um alvoroço se estendeu à minha frente. Abrindo caminho pelo povaréu, cheguei ao tumulto. O túmulo estava violado. Segui um rastro de terra que parecia ser perceptível só a mim. Ele se estendia até as passarelas de outros túmulos. "Aqui", eu gritei. Aos meus pés estava a ex-mulher do defunto, morta meses antes. Seu vestido estava levantado até a altura da cintura, as pernas estiradas em direções opostas. As pessoas se aglomeravam aos poucos, todas perplexas.
Meu olhar se encontrou com o do um dos filhos dos mortos. Veio correndo até o local. O único problema é que ele era um dos quatro que estavam segurando o caixão do defunto fresco. Assim, o objeto fúnebre perdeu o equilíbrio dos pedestais humanos restantes. O morto rolou. A chuva já estava mais forte. O rosto lívido estava cheio de lama, com fios de cabelo grudados na testa. Agora ele sorria.
sábado, 18 de julho de 2009
O Acordar
Olhei para o horizonte. As nuvens pareciam mais palpáveis, o céu parecia mais limpo. O Sol nascendo me parecia mais puro, mais bonito. As águas pareciam ir e vir num ciclo infinito e perfeito enquanto o azul virava branco e o branco virava amarelo. O orvalho da grama parecia rapidamente aquecer, deixando de ser só um frio úmido, era agora uma relva verde e calorosa. O Cheiro da água salgada nunca me agradara, e não é agora que isso vai mudar. Não pude acreditar na diferança do azul-mar para o azul-céu, ambos eram indescritíveis. Tudo o que eu ouvia era uma voz. Essa voz me chamava, e eu sabia. Mesmo assim não respondi. A voz tornou-se o vento, e o vento cantava. Tudo parecia calma agora, no acordar.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Soul's Fire
My eyes are red
'cause my soul is on fire
and the blood is like gasoline
burning my dreams out
making them real
giving life to my sins
hiding my sorrows
deep into my conscience
'cause my soul is on fire
and the blood is like gasoline
burning my dreams out
making them real
giving life to my sins
hiding my sorrows
deep into my conscience
sexta-feira, 10 de julho de 2009
chuva
"Ali, debaixo daquela banca". A chuva não parava. Nos cercava, nos obrigando a ficar ali, com o som das gotas batendo no metal. Eu evitava seu olhar e ele o meu. Há um tempo estávamos estranhos um com o outro. E pelo visto não era só comigo. Antes uma pessoa tão falante, e hoje ele não retornava ligações, não saía. Mas eu sabia.
Ficamos ali, tirando água dos guarda-chuvas, das roupas. Sempre fitando o chão, evitando a conversa. Às vezes os olhares se encontravam e vinha o sorriso educado, que era o bastante para justificar a falta de conversa. Ele estava com uma aparência patética, realmente. Desgraçada a hora em que fui encontrá-lo na rua e tivemos que nos forçar a almoçar juntos. Ele também deve ter amaldiçoado o momento. Eu sabia.
Não aguentei. Tirei os olhos das revistas de culinária que me fitavam. "Eu já sei de tudo. Não precisamos ficar nesse silêncio". Ele me encarou, sério. "A chuva parou. Vamos?", disse, com o mesmo sorriso educado. Sim, vamos. Sim, precisávamos do silêncio. O câncer vai consumí-lo daqui uns 3 meses. Sorte a nossa que a chuva acabou. O nosso constrangimento era sincero. A provável conversa não seria.
Ficamos ali, tirando água dos guarda-chuvas, das roupas. Sempre fitando o chão, evitando a conversa. Às vezes os olhares se encontravam e vinha o sorriso educado, que era o bastante para justificar a falta de conversa. Ele estava com uma aparência patética, realmente. Desgraçada a hora em que fui encontrá-lo na rua e tivemos que nos forçar a almoçar juntos. Ele também deve ter amaldiçoado o momento. Eu sabia.
Não aguentei. Tirei os olhos das revistas de culinária que me fitavam. "Eu já sei de tudo. Não precisamos ficar nesse silêncio". Ele me encarou, sério. "A chuva parou. Vamos?", disse, com o mesmo sorriso educado. Sim, vamos. Sim, precisávamos do silêncio. O câncer vai consumí-lo daqui uns 3 meses. Sorte a nossa que a chuva acabou. O nosso constrangimento era sincero. A provável conversa não seria.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
foda
Maldito celular que não toca. Uma barrinha de bateria. E aquela vaca não liga. Fiquei a semana inteira cortejando, pra ter uma foda decente hoje, e nada dela. Contas pra pagar, aquela puta da minha ex me enchendo o saco com pensão. O escroto do meu chefe que só porque tem câncer de próstata acha que pode foder com a vida de todo mundo. E eu aqui, só querendo sexo. Liga logo, porra.
Cinco semanas que ela entrou no escritório, no melhor estilo estagiária gostosa, e todo mundo babando. Fiquei na minha. Nessa época minha punheta diária dava pro gasto. Talvez isso a tenha feito vir até minha mesa, a indiferença. Sei lá. Veio toda carente, falando que tinha terminado com namorado. E na primeira carona que dei, já falou que queria me chupar. Achei estranho, aquilo estava mais pra roteiro de filme pornô do que pra vida real. Mas concordei, não tinha nada a perder. A semana inteira saindo pra tomar um chopp, comer alguma coisa. Tomar café, conversar. Todo aquele cortejo que se faz antes de foder alguém. A não ser que você pague pelo ato, claro. Tocou. Até que enfim. Oi. Tudo e você. Beleza, eu espero. É, vou esperar mais um pouco. Pelo menos ela é gostosa. Aquela vez na sala do café tá valendo a espera. Ela tem umas mãos grandes, o serviço foi bom. Ela chegou, finalmente. Deus existe.
Em motel é sacanagem. Tô sem grana. Não vou pagar por uma trepada que é pra ser de graça. Vamos pra minha casa. Ela já quer ir pro quarto. Ótimo, pelo menos não vou ter que abrir as últimas garrafas de cerveja. Sobram duas pra mim. Ela é mais rápida que eu pra tirar a roupa. Vai tirar a calcinha. Peraí, que merda é essa caindo no meio da perna dela? E esse gogó saltado? Eu que achava que essa voz grossa era de tanta porra que ela devia ter na garganta. Olhou pra mim. Deve ter gostado de ter me feito de otário. Só me faltava essa. Que se foda. Já tô aqui mesmo.
Cinco semanas que ela entrou no escritório, no melhor estilo estagiária gostosa, e todo mundo babando. Fiquei na minha. Nessa época minha punheta diária dava pro gasto. Talvez isso a tenha feito vir até minha mesa, a indiferença. Sei lá. Veio toda carente, falando que tinha terminado com namorado. E na primeira carona que dei, já falou que queria me chupar. Achei estranho, aquilo estava mais pra roteiro de filme pornô do que pra vida real. Mas concordei, não tinha nada a perder. A semana inteira saindo pra tomar um chopp, comer alguma coisa. Tomar café, conversar. Todo aquele cortejo que se faz antes de foder alguém. A não ser que você pague pelo ato, claro. Tocou. Até que enfim. Oi. Tudo e você. Beleza, eu espero. É, vou esperar mais um pouco. Pelo menos ela é gostosa. Aquela vez na sala do café tá valendo a espera. Ela tem umas mãos grandes, o serviço foi bom. Ela chegou, finalmente. Deus existe.
Em motel é sacanagem. Tô sem grana. Não vou pagar por uma trepada que é pra ser de graça. Vamos pra minha casa. Ela já quer ir pro quarto. Ótimo, pelo menos não vou ter que abrir as últimas garrafas de cerveja. Sobram duas pra mim. Ela é mais rápida que eu pra tirar a roupa. Vai tirar a calcinha. Peraí, que merda é essa caindo no meio da perna dela? E esse gogó saltado? Eu que achava que essa voz grossa era de tanta porra que ela devia ter na garganta. Olhou pra mim. Deve ter gostado de ter me feito de otário. Só me faltava essa. Que se foda. Já tô aqui mesmo.
Epiphany
-Hey man.
-Hey.
-Whats up?
-Nothing, ya?
-I met this new chick man.
-How is she?
-She got fire on her lips, and a tattoo on her hips.
-Jackpot, hey, gotta go, see ya later.
-See ya man. – Something like a 3 seconds epiphany - Shit, I need to get outta here. My cigarettes are almost over, why cant my life just end too?
While a man gets out of a filth old bar, a pretty woman walks through a large boulevard, the Sun shines behind the clouds, but nobody cares, and just like this clouds cover this Sun, this woman will cloud this man. Fourteen times, the sunrises were endless, and the nights seems careless. But now, there no Sun, no Moon, no God or Shangri La, there just two people, he and she.
-You had been quiet all night, is something wrong?
-Know, when you can keep a nice time quiet with someone, you just know that it’s the right one, there’s no need of that bullshit of “how its your day?” and those things. The time is just useless.
Kiss.
As time goes by, life just happens. And as life just happens, love just get weaker.
Time.
Life.
Fight.
Life.
-Hey man, how long!
-Hey.
-You look like shit.
-Thanks, I just broke up.
-Sorry about that, but why man?
-I don’t know for sure, but something just feel wrong. One day I just woke up to life again, and I can’t see myself with her.
-But, wasn’t she the right one?
-She is all I ever wanted.
-Then why did you broke up with her?
-We had a good time, know? But she is like one giant epiphany for me, maybe the best thing that ever happened to me
-Jesus Fucking Christ then why did you broke up with her?!
-Look, with her, my life would be complete. There will be nothing new, she will be my life. Then we will be just another fucked up couple watching tv Saturday night and fighting for stupid things like were is the fucking remote! I love her, I really do, but sometimes love is overestimated. Fuck, I really need to find other friends…
-Well, its your life, anyway, gotta go. See ya in the next time you find the girl of your dreams
-Good bye. Hope to never see you again then, motherfucker.
-Hey.
-Whats up?
-Nothing, ya?
-I met this new chick man.
-How is she?
-She got fire on her lips, and a tattoo on her hips.
-Jackpot, hey, gotta go, see ya later.
-See ya man. – Something like a 3 seconds epiphany - Shit, I need to get outta here. My cigarettes are almost over, why cant my life just end too?
While a man gets out of a filth old bar, a pretty woman walks through a large boulevard, the Sun shines behind the clouds, but nobody cares, and just like this clouds cover this Sun, this woman will cloud this man. Fourteen times, the sunrises were endless, and the nights seems careless. But now, there no Sun, no Moon, no God or Shangri La, there just two people, he and she.
-You had been quiet all night, is something wrong?
-Know, when you can keep a nice time quiet with someone, you just know that it’s the right one, there’s no need of that bullshit of “how its your day?” and those things. The time is just useless.
Kiss.
As time goes by, life just happens. And as life just happens, love just get weaker.
Time.
Life.
Fight.
Life.
-Hey man, how long!
-Hey.
-You look like shit.
-Thanks, I just broke up.
-Sorry about that, but why man?
-I don’t know for sure, but something just feel wrong. One day I just woke up to life again, and I can’t see myself with her.
-But, wasn’t she the right one?
-She is all I ever wanted.
-Then why did you broke up with her?
-We had a good time, know? But she is like one giant epiphany for me, maybe the best thing that ever happened to me
-Jesus Fucking Christ then why did you broke up with her?!
-Look, with her, my life would be complete. There will be nothing new, she will be my life. Then we will be just another fucked up couple watching tv Saturday night and fighting for stupid things like were is the fucking remote! I love her, I really do, but sometimes love is overestimated. Fuck, I really need to find other friends…
-Well, its your life, anyway, gotta go. See ya in the next time you find the girl of your dreams
-Good bye. Hope to never see you again then, motherfucker.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Pendulum Pt 1
Sometimes in the twilight
The smell of blood in the rain
Wakes up another side of me
Let my thirsty for blood on
And my sense of wrong off
But sometimes when I see the full Moon
My eyes kind of grown
And my nails always look dirty
Oh my friend, but the most odd thing of all
Is that this isn’t what wake me up in the night
It’s a kind of a poem, always the same
“…you know you’re doomed to death
When you love someone more than yourself
More than the Sun who give life to the day
Than the Moon who give mean to our nights
And this, my dear friend
It will make you die
It will make you kill…”
Now, I really don’t know what to do
‘cause I can’t dream anymore
And without a single dream
What can I, an Escapist to do?
So if you have to take my life
You can have it
Because right now
I’m nothing but a poet
Who failed his best play
The smell of blood in the rain
Wakes up another side of me
Let my thirsty for blood on
And my sense of wrong off
But sometimes when I see the full Moon
My eyes kind of grown
And my nails always look dirty
Oh my friend, but the most odd thing of all
Is that this isn’t what wake me up in the night
It’s a kind of a poem, always the same
“…you know you’re doomed to death
When you love someone more than yourself
More than the Sun who give life to the day
Than the Moon who give mean to our nights
And this, my dear friend
It will make you die
It will make you kill…”
Now, I really don’t know what to do
‘cause I can’t dream anymore
And without a single dream
What can I, an Escapist to do?
So if you have to take my life
You can have it
Because right now
I’m nothing but a poet
Who failed his best play
outdoor
Eu costumava pensar que ela estaria sempre ali, que seria pra sempre. Andávamos de bicicleta pelo parque, depois lanchávamos nas escadarias de algum prédio. O porteiro geralmente ficava esperando a primeira chance de expulsar-nos de lá.
Ela era mais quieta que eu. Às vezes ficava me fitando por muito tempo. Eu também, parava de falar só para admirá-la. Eu sei que muitos passavam pela rua quando estávamos juntos perguntando-se "O que diabos esses dois ficam se encarando?". Mas eu não ligo. Sempre nos encontramos no mesmo lugar, só pra nos olharmos. Eu levo alguns lanches de vez em quando, mas só eu como. Ela diz que tem que ficar em forma, não pode engordar. Mas o corpo dela é perfeito, não há o que melhorar nem piorar.
Mas hoje meu coração quase parou. Cheguei no lugar de costume, e ela não estava lá. Ela sempre está lá. Sentei no banco de sempre e chorei. As pessoas que passavam não entendiam. Então eu olhei para onde ela ficava. Seu rosto estava rasgado, as pernas tinham sumido. No lugar delas, um maldito aparelho celular. Ainda havia partes para colar. Por que aqueles carrascos, com baldes de cola numa mão e papéis na outra demoravam tanto? Me faziam encarar o fim do nosso amor de maneira tão desumana. Eu era obrigado a olhá-la, vendo seu rosto desaparecer aos poucos. E daí que haviam outras dela espalhadas pela cidade? Eles não tinham o direito.
Ela era mais quieta que eu. Às vezes ficava me fitando por muito tempo. Eu também, parava de falar só para admirá-la. Eu sei que muitos passavam pela rua quando estávamos juntos perguntando-se "O que diabos esses dois ficam se encarando?". Mas eu não ligo. Sempre nos encontramos no mesmo lugar, só pra nos olharmos. Eu levo alguns lanches de vez em quando, mas só eu como. Ela diz que tem que ficar em forma, não pode engordar. Mas o corpo dela é perfeito, não há o que melhorar nem piorar.
Mas hoje meu coração quase parou. Cheguei no lugar de costume, e ela não estava lá. Ela sempre está lá. Sentei no banco de sempre e chorei. As pessoas que passavam não entendiam. Então eu olhei para onde ela ficava. Seu rosto estava rasgado, as pernas tinham sumido. No lugar delas, um maldito aparelho celular. Ainda havia partes para colar. Por que aqueles carrascos, com baldes de cola numa mão e papéis na outra demoravam tanto? Me faziam encarar o fim do nosso amor de maneira tão desumana. Eu era obrigado a olhá-la, vendo seu rosto desaparecer aos poucos. E daí que haviam outras dela espalhadas pela cidade? Eles não tinham o direito.
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