- Já era.
- Já era?!
- Sim, já era. Fim. Acabou, mas nós podemos ser amigos.
O que as pessoas querem dizer com "podemos ser amigos" ao final de um relacionamento?
Nós nunca fomos amigos, não tivemos tempo para construir essa base no namoro que tínhamos. Fomos muito afobados.
- Sempre te quis.
- Eu também.
Quando nossos olhos se cruzaram aquele dia, ambos se atraíram. Ambos se quiseram com todo o fogo que queimou nosso amor depois de alguns meses. Foi muito fogo. O incêndio, ao fim, foi imensurável também.
Terminar com um "podemos ser amigos" me pareceu com um daqueles "aviões pipa" que despejam toneladas de água em incêndios florestais no Canadá ou na Austrália. Aqueles fogareiros que acabam com a floresta e, incontentados, invadem as cidades.
Como poderíamos ser amigos se nunca fomos puramente amigos? Aqueles casais que terminam e continuam sendo melhores amigos com certeza foram amigos antes de namorar. Com certeza nunca tiveram o fogo que nós (e os casais que começam do NOSSO jeito) tivemos.
- Podemos ser amigos?
- Sim, nós podemos.
Será que manter uma amizade assim seria legal? Quem sabe... Por tudo o que sentimos, seria como não esquecer da nossa história. Acho que se nós fôssemos amigos, não jogaríamos fora todos os acres que consumimos ao longo do nosso fogaréu.
Nós não começamos amigos, nós não construímos essa base. Não dá. Ex namorados amigos nunca incendiaram tudo o que nós incendiamos. Prefiro esquecer, prefiro jogar fora mesmo. Não é possível manter uma amizade sob as condições invisíveis que impusemos a nós dois agora, no fim.
Ex casais que são amigos nunca tiveram o fogo que tivemos, nunca foram felizes como nós. Nunca tiveram nossa intensidade. Nunca incendiaram tudo.
- Não quero sua amizade.
- Como assim?
- Não quero e vou embora.
Não há mais nada por aqui, nós destruímos tudo. Fomos felizes, muito felizes, mas matamos tudo. Matamos nossos lugares, nossos amigos e nossas memórias.
- Podemos ser amigos.
Nós nos matamos também.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Nossa Senhora do Prédio
Não dizem isso por aí, mas dia desses eu pensei que para ser um "contador de histórias" as pessoas deveriam ter um olhar curioso. Um olhar daqueles que os turistas têm quando visitam um lugar que querem muito conhecer e extrair cada informação possível de tudo.
Me lembrei que escrevo e que gosto de contar histórias, então eu deveria exercitar esse olhar curioso no meu dia a dia e resolvi começar.
Pensei que ter concluído isso agora e começar meus exercícios seria bem fácil já que acabei de me mudar, então comecei a ver e ouvir tudo com mais intensidade ainda. Antes eu olhava para não me perder, não me dar mal, agora comecei a olhar e memorizar. Comecei a conhecer as coisas mais profundamente.
Meu primeiro relato destes exercícios foi montado no elevador, voltando para casa.
Quando cheguei da faculdade, vi que havia uma capelinha branca, com a imagem da Nossa Senhora em cima da mesa do porteiro. Olhei de novo e percebi que haviam diversos papéis, de diversas cores e todos eles tinham anotações.
- O que é essa Nossa Senhora aí? Perguntei.
- É dos moradores. Já já alguém passa aqui e pega.
Resumindo o diálogo, descobri que a capelinha com a Nossa Senhora passa por diversos apartamentos no prédio. Um dos bilhetes tinha recomendações sobre o uso da capelinha:
"(...)24 horas é pouco tempo para ser abençoado, mas é o bastante para que todos de sua casa sejam agraciados. (...)"
Em um dos outros papéis haviam nomes. Era a ordem das casas que poderiam ficar com a capelinha. Quem quiser ficar com a Nossa Senhora por um dia em casa, tem que colocar seu nome no fim da listinha.
Fiquei com vontade de colocar meu nome na listinha, só pra receber a visita mesmo. Por alguns segundos quis fazer parte dessa corrente, mas meu elevador chegou bem nessa hora e eu mudei de idéia.
Me lembrei que escrevo e que gosto de contar histórias, então eu deveria exercitar esse olhar curioso no meu dia a dia e resolvi começar.
Pensei que ter concluído isso agora e começar meus exercícios seria bem fácil já que acabei de me mudar, então comecei a ver e ouvir tudo com mais intensidade ainda. Antes eu olhava para não me perder, não me dar mal, agora comecei a olhar e memorizar. Comecei a conhecer as coisas mais profundamente.
Meu primeiro relato destes exercícios foi montado no elevador, voltando para casa.
Quando cheguei da faculdade, vi que havia uma capelinha branca, com a imagem da Nossa Senhora em cima da mesa do porteiro. Olhei de novo e percebi que haviam diversos papéis, de diversas cores e todos eles tinham anotações.
- O que é essa Nossa Senhora aí? Perguntei.
- É dos moradores. Já já alguém passa aqui e pega.
Resumindo o diálogo, descobri que a capelinha com a Nossa Senhora passa por diversos apartamentos no prédio. Um dos bilhetes tinha recomendações sobre o uso da capelinha:
"(...)24 horas é pouco tempo para ser abençoado, mas é o bastante para que todos de sua casa sejam agraciados. (...)"
Em um dos outros papéis haviam nomes. Era a ordem das casas que poderiam ficar com a capelinha. Quem quiser ficar com a Nossa Senhora por um dia em casa, tem que colocar seu nome no fim da listinha.
Fiquei com vontade de colocar meu nome na listinha, só pra receber a visita mesmo. Por alguns segundos quis fazer parte dessa corrente, mas meu elevador chegou bem nessa hora e eu mudei de idéia.
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