"Ali, debaixo daquela banca". A chuva não parava. Nos cercava, nos obrigando a ficar ali, com o som das gotas batendo no metal. Eu evitava seu olhar e ele o meu. Há um tempo estávamos estranhos um com o outro. E pelo visto não era só comigo. Antes uma pessoa tão falante, e hoje ele não retornava ligações, não saía. Mas eu sabia.
Ficamos ali, tirando água dos guarda-chuvas, das roupas. Sempre fitando o chão, evitando a conversa. Às vezes os olhares se encontravam e vinha o sorriso educado, que era o bastante para justificar a falta de conversa. Ele estava com uma aparência patética, realmente. Desgraçada a hora em que fui encontrá-lo na rua e tivemos que nos forçar a almoçar juntos. Ele também deve ter amaldiçoado o momento. Eu sabia.
Não aguentei. Tirei os olhos das revistas de culinária que me fitavam. "Eu já sei de tudo. Não precisamos ficar nesse silêncio". Ele me encarou, sério. "A chuva parou. Vamos?", disse, com o mesmo sorriso educado. Sim, vamos. Sim, precisávamos do silêncio. O câncer vai consumí-lo daqui uns 3 meses. Sorte a nossa que a chuva acabou. O nosso constrangimento era sincero. A provável conversa não seria.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
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