quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Retrato

Hoje eu desenhei um retrato sem rosto. Quero dizer, ele devia ter um rosto, mas a face no papel continuava branca-virgem. O desenho era de uma mulher em um parque. Ela era ruiva (falso, não que isso mude alguma coisa no quadro, mas era cabelo tingido) e usava um vestido amarelo. A mulher olhava para o céu azul e para as nuvens brancas como a neve, o que ela pensava eu não sei. Nunca soube. Nunca saberei. E isso me mata por dentro cada vez que eu olho para esse maldito retrato sem rosto. Deve ser por não saber o que ela pensava que eu não consiga desenhar o rosto dela. Como você pode passar para o papel alguma coisa que não pode explicar? Talvez com palavras inexatas perdidas numa frase sem sentido seja possível explicar. Agora o retrato está riscado, arruinado. Gastei um tempo que nunca poderei recuperar desenhando o que eu achei que seria a perfeição, mas só encontrei erros. Erros meus. Quando paro para pensar, percebo que aquele retrato não era sobre a mulher ruiva, era sobre mim. E eu não consegui me completar, eu não sei como. Depois de hoje eu nunca mais vou desenhar, ou pelo menos até saber quem eu sou, mas é mais otimista dizer que será nunca mais. O retrato está amassado, no lixo. Não preciso de um lembrete para tentar me encontrar. Basta um espelho, e olhar para o vazio dentro dele.

Minha certeza é o ódio que carrego pela falsa ruiva que vadiava em um parque e me fez repensar toda a minha vida.

domingo, 20 de setembro de 2009

Fogo

O fogo da cana no homem. Lúcio estava embriagado, seu rosto estava vermelho como se estivesse em chamas. Cambaleava para andar e sua fala estava enrolada. Francisco estava com Maria perto do canavial. Lúcio amava Maria, Francisco sabia disso e por isso odiava Lúcio com todo o seu coração. Francisco e Maria se conheciam há anos, e se casariam no próximo verão, herdariam todas as terras à leste do rio. Lúcio sabia que naquela noite o casal estaria perto do canavial, e depois de "tomar coragem" foi para lá, ele começou um incêndio. Era o fogo do homem na cana. Francisco queimava, devia sentir dor como nunca sentira antes. Lúcio queimava, não devia sentir nada, havia desmaido antes do fogo começar a se descontrolar. Maria estava viva e via o seu amor queimar. Queimava, ardia e não podia ser apagado. Era a chama da vida, sendo consumida pela chama do ódio. Ela correu para o canavial e nunca mais foi vista. Era o fogo do amor.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

doce ilusão

Isso parece um hospital. As pessoas ansiosas, esperando por qualquer notícia recente. Que caminham silenciosas, deixando transparecer os sinais de cansaço e preocupação pela demora. O chão frio faz parte da caminhada, pareando com as cadeiras enfileiradas, cinzas e mórbidas. Infelizmente é um aeroporto, e o vôo está atrasado. A mulher da voz biônica e sedutora então se prepara para falar. "Atenção...". Todos paralizados. Desapontamento geral quando ela só faz um simples merchandising.

Estranho imaginar a vida de uma pessoa que exerce um papel tão mínimo na vida de outras. É o caso da mulher do aeroporto; do especialista em qualquer coisa; do crítico. Ninguém liga pra presença deles, mas eles ganham algum dinheiro sendo "nadas". Interessante. A voz então recomeça. Dá para sentir a tensão presente entre os que esperam. Enfim, o vôo.

Me dirijo até a área de desembarque. Como sempre, famílias esperando que cada som de rodinhas contra o chão seja a vez delas de gritarem "Bingo!". O orgulho de ter um conhecido voltando ao lar é o máximo que consigo compreender do termo "sentir saudades". Flores para receber quem chega também é um lugar-comum desses momentos. Como quem recebe um soldado vindo da guerra, as pessoas que esperam ali devem presentear os passageiros por terem sobrevivido a uma possível queda de avião, imagino. É o mesmo motivo para se desejar parabéns a alguém que faz aniversário. Mesma lógica. "Parabéns por ter sobrevivido mais um ano, porque nesses tempos nunca se sabe." Não? A única coisa que tenho em mãos é o recibo do café que comprei há pouco.

Será que olhei o número errado? Todos os passageiros saíram, menos ela. O papel no meu bolso diz que estou certo, é esse o vôo. O saguão está quase vazio quando ouço vozes alteradas, vindas lá de dentro. Típico. É ela, esbravejando contra algum atendente. Finalmente aparece. Os pequenos fios de cabelo que se rebelam contra um penteado elegante fixam-se lindos em sua testa. Sempre sua quando fica brava. Parece esquecer a raiva por um momento quando procura alguém pelo saguão, como um filho procura por sua mãe quando se perde. Ela me vê. Sorri. E vem. O barulho que os saltos do sapato fazem consegue reprimir o som perturbador das rodinhas. Meu coração acelera. Sou eu quem suo. Ela pára. Deixa sua pasta e casaco em cima da mala. Nos encaramos. Agora me abraçará de um jeito único, para compensar todo esse tempo fora. Doce ilusão. Ela estende o braço. "Onde estão os últimos relatórios?", "Aqui, chefe. Bem-vinda de volta."

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Espelho da liberdade

Eu andava pela rua, era noite. De tarde tinha chovido, mas agora já não chovia, haviam pequenas poças de água pela rua. Enquanto descia a rua eu cruzei com um vira-lata, não era um cachorro feio, era definitivamente um cachorro de rua, isso podia-se dizer só de olhar pra ele, mas um dia com certeza pertenceu a alguém, e então o cachorro virou um inconveniente e um dia "acidentalmente" o portão ficou aberto e ele fugiu. Mas de quem era o cachorro não muda em nada o que eu quero dizer. Eu descia a rua e ele subia, uns dois metros na minha frente ele parou e começou a mijar. Ele simplesmente se abaixou e mijou. E o mijo dele virou uma poça que se misturou com as poças de chuva, tudo isso dando um volume razoável para uma nova poça. E quando eu passei pelo vira-lata eu percebi que ele não tinha reparado que eu estava por perto, e continuou não ligando para nenhum presença exterior. Ele fazia o que tinha vontade, na hora em que tinha vontade. Nunca na vida tinha invejado tanto um vira-lata.