sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

vida a dois

Já fazia um tempo que ela queria engravidar. Ou pelo menos dava a entender isso. Queria sexo a toda hora. E sempre sem proteção. Ficava toda manhosa, e insistindo sempre pra que eu terminar dentro dela. É irresistível uma mulher te pedindo isso. Prova maior de amor não existe. Mas eu sou paranóico, tenho problemas o suficiente com pessoas para não desejar mais um ser na minha vida. Apesar de nunca termos falado abertamente sobre isso, tudo me dizia que esse era só mais um passo na nossa vida juntos. Ela já lavava as calcinhas no meu banheiro. É um sinal forte.

Mas você sabe. Já não era igual. Eu pensava que talvez esse filho fosse pra tentar amarrar mais as coisas entre nós. Mas ela não era assim. Depois pensava em interesse. A não ser que ela se interessasse por dívidas, também descartava essa possibilidade. Mas dizem, né, que as mulheres têm essa hora que sentem o desejo materno. Não sei como funciona, mas era o único motivo que eu encontrava. Então um dia ela me chamou para conversar. Disse que era assunto sério. Fingi não me preocupar, indiferença era minha especialidade. Falou de irmos numa praça ali perto, era mais sossegado. Era daquelas pracinhas de bairro, com velhinhos cagados andando pra lá e pra cá, camisinhas jogadas embaixo dos bancos e merda de cachorro na grama. Bem aconchegante.

Arrastando-a pela mão, fui em direção aos bancos de cimento, mas ela me segurou e disse para sentarmos perto das árvores. Tudo bem. Ela me olhou de um jeito estranho, de quem sente que a notícia não vai ser bem recebida. "Não acha lindo? Esse mato, essas árvores? Esse pequeno espacinho natural que temos aqui perto do apartamento?" Ela disse "o espacinho que temos.". Vai querer uma cópia da chave logo. Isso não pode ser bom. E se por espaço natural ela pensa nesses velhos tarados que logo serão adubos dessa pracinha porca, tudo bem. Mas essas árvores acabadas e essa terra batida não caracterizam o meu ideal de "espacinho natural". "O ar daqui é tão bom. Mesmo depois da chuva, o cheiro da terra entrando pelas narinas é delicioso, né?". Que merda de conversa séria é essa? Veio aqui pra me ensinar o cheiro da terra? Ela tá enrolando.

"E as pessoas? Isso aqui faz um bem tão grande pra elas. As crianças ali no parquinho, por exemplo. Aposto que aqui é um dos únicos lugares em que elas podem ter esse contato com o verde. Me sinto tão conectada.". Merda. Crianças. Lá vem o assunto sério. Só me falta ela estar grávida. Ficou parada, encarando as crianças. O pior de tudo é que era mesmo um olhar de...mãe. Maldita. Ela suspirou. "Bom, eu te trouxe aqui exatamente pra te perguntar: o que acha de a gente adotar?". Pior que estar grávida, é ela querer adotar. Porque ela vai saber que eu não quero. Gravidez seria uma desculpa ainda. Eu poderia chamá-la de aproveitadora, pelo menos, e ir embora. Mas agora me deixou encurralado. Respirei fundo e fui. "Elisa, olha, eu gosto muito de você. Muito mesmo. A gente se dá bem e mesmo depois de todo esse tempo que estamos juntos ainda gosto da tua companhia e das nossas conversas. Mas tô achando tudo isso muito apressado. Você quer vir morar comigo, deixa tuas coisas no meu apartamento. Sai pendurando calcinha, usando minhas camisas, deixando louça pra lavar. Te respeito muito, mas não dá. Preciso do meu espaço. E agora vem com essa história de adoção. Olha nossa idade. Adotar uma criança agora seria no mínimo irresponsável e...".

"Você tem merda na cabeça?", ela perguntou. Conseguia me surpreender a cada frase. "Merda?". "É, merda.". "Por quê?". "Que porra é essa de adoção?". "Você acabou de falar em adotar.". "Você tem merda na cabeça.". "Você acabou de falar em adotar uma criança.". "Que criança?". "Criança. Uma criança como essas daí que você fica olhando.". "Quem falou em criança?". "Se não quer adotar criança, que merda você quer adotar?". "A praça.".

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