terça-feira, 8 de setembro de 2009

doce ilusão

Isso parece um hospital. As pessoas ansiosas, esperando por qualquer notícia recente. Que caminham silenciosas, deixando transparecer os sinais de cansaço e preocupação pela demora. O chão frio faz parte da caminhada, pareando com as cadeiras enfileiradas, cinzas e mórbidas. Infelizmente é um aeroporto, e o vôo está atrasado. A mulher da voz biônica e sedutora então se prepara para falar. "Atenção...". Todos paralizados. Desapontamento geral quando ela só faz um simples merchandising.

Estranho imaginar a vida de uma pessoa que exerce um papel tão mínimo na vida de outras. É o caso da mulher do aeroporto; do especialista em qualquer coisa; do crítico. Ninguém liga pra presença deles, mas eles ganham algum dinheiro sendo "nadas". Interessante. A voz então recomeça. Dá para sentir a tensão presente entre os que esperam. Enfim, o vôo.

Me dirijo até a área de desembarque. Como sempre, famílias esperando que cada som de rodinhas contra o chão seja a vez delas de gritarem "Bingo!". O orgulho de ter um conhecido voltando ao lar é o máximo que consigo compreender do termo "sentir saudades". Flores para receber quem chega também é um lugar-comum desses momentos. Como quem recebe um soldado vindo da guerra, as pessoas que esperam ali devem presentear os passageiros por terem sobrevivido a uma possível queda de avião, imagino. É o mesmo motivo para se desejar parabéns a alguém que faz aniversário. Mesma lógica. "Parabéns por ter sobrevivido mais um ano, porque nesses tempos nunca se sabe." Não? A única coisa que tenho em mãos é o recibo do café que comprei há pouco.

Será que olhei o número errado? Todos os passageiros saíram, menos ela. O papel no meu bolso diz que estou certo, é esse o vôo. O saguão está quase vazio quando ouço vozes alteradas, vindas lá de dentro. Típico. É ela, esbravejando contra algum atendente. Finalmente aparece. Os pequenos fios de cabelo que se rebelam contra um penteado elegante fixam-se lindos em sua testa. Sempre sua quando fica brava. Parece esquecer a raiva por um momento quando procura alguém pelo saguão, como um filho procura por sua mãe quando se perde. Ela me vê. Sorri. E vem. O barulho que os saltos do sapato fazem consegue reprimir o som perturbador das rodinhas. Meu coração acelera. Sou eu quem suo. Ela pára. Deixa sua pasta e casaco em cima da mala. Nos encaramos. Agora me abraçará de um jeito único, para compensar todo esse tempo fora. Doce ilusão. Ela estende o braço. "Onde estão os últimos relatórios?", "Aqui, chefe. Bem-vinda de volta."

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