É difícil conviver com as coisas que guardamos, né?
Eu costumava dizer sempre as coisas que eu sentia. Não gostava de guardar nada pra mim. O mais importante sempre foi ser sincero comigo e, por isso, eu mantinha a verdade sempre fora de mim. Como eu poderia me envolver com as pessoas, conhecer pessoas, fazer amigos e afins sem lhes contar verdades?
O que eu sentia, meus defeitos, meus sonhos, tudo saía de mim do jeitinho que havia entrado.
Guardei apenas uma coisa. Uma coisinha só. Eu pensava que seria melhor guardar isso para mim, já que era algo que me tornava vulnerável demais. Então guardei.
Não era algo ruim, era algo muito bom. Me fazia mal no começo, porque eu afirmava a mim mesmo que era mentira e pensar assim contradizia o que eu mais prezava em mim. A verdade parecia um câncer entupindo meu corpo. Um câncer entupindo a minha alma.
No primeiro mês me doía, no segundo também. No terceiro eu quase me convenci de que era verdade e no quarto me convenci. No quinto fingi que era mentira de novo. No sexto, sétimo e oitavo continuei teimando.
Ainda não havia chegado o nono mês quando me convenci de vez e resolvi parar de ser teimoso. Já era hora de colocar isso pra fora. Era hora de contar a todo mundo o que eu sentia e, hoje, eu tenho certeza que todos já sabiam. Tenha certeza também que todos já sabiam dessa minha luta em negar as coisas, aceitá-las, escondê-las e por fim, confirmá-las.
Decidi então que eu deveria contar mesmo. Me muni com todas as energias que eu tinha e que não tinha. Peguei meu almoço e corri para onde todos estavam.
Tudo aconteceu num dia muito quente e eu passava muito mal no calor. No horário em que decidi correr para contar o que sentia, estava começando a passar mal, mas eu já tinha me armado com toda a vontade e a determinação do mundo. Parecia que eu cruzava o inferno. Parecia que eu subia o inferno para chegar ao céu de vez. Eu já podia sentir todo o peso do mundo, que carreguei em meus ombros por nove meses, se desfazendo. Alguma coisa em mim já começava a esboçar o maior sorriso de alívio do universo e eu já pensava no que faria logo a seguir. Deveria abraçá-la? Será que se eu chorasse de felicidade em finalmente dizer tudo o que eu queria, seria legal? Ou ela se assustaria? Será que eu deveria simplesmente tomar um copo d'água já que aquele sol e a subida naquela ladeira sem árvore alguma, ao meio dia, estavam me derretendo e acabando com a minha roupa limpa e meu cabelo recém lavado?
Eu já podia vê-la ali de longe, já estava falando em voz alta as três palavras que ela esperou tanto para ouvir.
Já estávamos de frente um para o outro. Finalmente. Ela mexia em seu bolso, impacientemente, esperando me ouvir dizer aquela verdade reservada e protegida por tanto tempo. Precisei de alguns segundos, precisei respirar fundo. Quando terminei de inspirar, surpresa! Senti um leve gosto de ferro e tudo ficou preto. Não sei dizer o que era, foi tudo muito rápido. Algo muito estranho bateu em minha boca em frações de segundos.
Legal.
Eu só queria dizer "Eu te amo".
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
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