Já roubei dinheiro da bolsa de minha mãe, e comprei balas e doces. Já roubei figurinhas, já roubei o direito de amar de meu melhor amigo, já faz tempo que roubei minha humanidade.
Não sei ao certo se os meus pecados, são em parte devido à minha impulsividade, esta que me move enquanto digito as frias teclas de um texto. Tão rapido escrevo, eu apago. Um conflito, um par, ação-reação? Um casal.
No meu mundo a chuva sempre cai, disfarça o choro que deveria cair mas não cai, e o frio que existe mas não sinto. Não que seja quente, nem feliz este mundo no qual eu vivo, mas as vezes me parece oco. Oco como a pele de uma serpente que sob o chão pode até parecer incomum,raro, mas é apenas outra antes de muitas e está atrás de várias outras, um ciclo, um eco uma falha.
No meu mundo as réplicas são constantes. Aton? Não. São mesmo. Pessoas diferentes, são simplesmente iguais, muitas vezes descartáveis e decorativas. O que diferenciaria uma pessoa? Seu corte de cabelo? Gosto musical? As que me interesso muitas vezes tem um olhar diferente, mas não deixam de me entediar, se o tédio é eterno nessa chuva, pelo menos perto delas parte dele é menor, e depois delas? sobra o que? eu? Eu como eu sou. Nada. Pele, rugas, poros. Corpo de homem, casca de homem, nada mais que um delírio de uma mente insana, o êxtase vulgar do criador.
Fomos criados à mesma imagem e semelhança de deus. Pobre deus. Corcunda e careca, louco e tísico, somos criados pelo mesmo impulso que me move. Hoje eu quase fui assaltado, eu queria brigar, ver meu corpo sangrar,sangue quente, vivo, me sentir vivo, minha impulsividade não se mostrou como se mostra agora, escrevendo mais um delírio,nem a do ladrão que desistiu após um seco ''não'', se mostrou fraca, incerta, é claro que se o risco me traz a vida, ele também pode tirá-la, uma aposta, só resta saber se valhe o que se tem em mãos. Provavelmente não, não ainda. Continuo procurando a resposta, em vão obviamente. Não há resposta para a vida, nem tão menos é a vida uma pergunta.
Se você já leu clichê como esse, não se preocupe, meu eu impulsivo não liga pra clichês, ele se importa com o sentimento, palavra estranha, principalmente num texto que era para ter terminado no ultimo paragrafo, na verdade, prova simplesmente o que eu ainda não consigo provar. A arte,pelo menos a minha, se é que se pode chamar esse furûnculo textual de tal é a expressão do agora, do pouco que ainda se sente, do pouco que ainda se vê por de traz da miopia de um mundo virtual, artificial como as jóias, como os joalheiros. Para todas as outras coisas existe mastercard.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
A beleza engana
Anna, era o nome da menina deficiente. Cabelos loiro-dourados que escorriam em leves cachos que ressaltavam seus olhos verdes, hora azuis e hora uma cor que eu não sabia definir ao certo.
Sentava-se ao meu lado mas nunca vi nela uma expressão que lembrasse um sorriso, nem nunca tinha ouvido sua voz.
Apesar disso suas expressões perante as aulas, provavelmente quando não entendia alguma coisa me faziam sorrir, bem de leve, para que não percebesse. Ela tinha um amigo, um índio, que tinha a sorte de falar com ela.
Ninguém comentava sobre a anna, nem falava com ela, era linda, deficiente, e mesmo assim invisível, boatos corriam que ela tinha um namorado mas mesmo assim ela não era motivo de fofoca ou de brincadeiras.
Seus interesses? Dúvido que muitas pessoas saibam alguma coisa, provavelmente ela gostava de literatura, nas terças feiras havia sombra em seus olhos e suas unhas pintadas, anotava tudo que podia e sempre mantinha-se fixa na explicação,carregava sempre em sua mão uma carteira, era engraçada, na forma de um sapo, algum personagem da Monica talvez?
Semana passada, no dia da prova enquanti saia da classe, derrubou seu fichário mas não conseguia alcançá-lo da cadeira de rodas, entreguei-o a ela e com espanto (meu) um fino sorriso, belo, meigo expressou-se na sua face e com mais espanto ainda ouvi um ''obrigado'' numa voz mais grossa que a minha.
Sentava-se ao meu lado mas nunca vi nela uma expressão que lembrasse um sorriso, nem nunca tinha ouvido sua voz.
Apesar disso suas expressões perante as aulas, provavelmente quando não entendia alguma coisa me faziam sorrir, bem de leve, para que não percebesse. Ela tinha um amigo, um índio, que tinha a sorte de falar com ela.
Ninguém comentava sobre a anna, nem falava com ela, era linda, deficiente, e mesmo assim invisível, boatos corriam que ela tinha um namorado mas mesmo assim ela não era motivo de fofoca ou de brincadeiras.
Seus interesses? Dúvido que muitas pessoas saibam alguma coisa, provavelmente ela gostava de literatura, nas terças feiras havia sombra em seus olhos e suas unhas pintadas, anotava tudo que podia e sempre mantinha-se fixa na explicação,carregava sempre em sua mão uma carteira, era engraçada, na forma de um sapo, algum personagem da Monica talvez?
Semana passada, no dia da prova enquanti saia da classe, derrubou seu fichário mas não conseguia alcançá-lo da cadeira de rodas, entreguei-o a ela e com espanto (meu) um fino sorriso, belo, meigo expressou-se na sua face e com mais espanto ainda ouvi um ''obrigado'' numa voz mais grossa que a minha.
Quelônios I
Suou frio, ainda havia tempo de chegar a tempo, entregar o buquê de flores que ele não lembrava o nome, dizer que havia se perdido, não, que havia ficado preso no trânsito, seria uma boa se tivesse um carro. Sorriu, iria dizer que o ônibus quebrou, o calor desses dias, nem os ônibus aguentam concordando consigo mesmo. Apressadamente abriu a porta, destrancada, para dar-se de encontro com uma cena no mínimo incomum, dúzias de tartarugas enchiam a sala em pequenos exércitos que se moviam em slow motion.
Foi saudado pela mulher, beijou-a e entregou as flores, mas não antes de perguntar incrédulo o que acontecia ''elas iam ser mortas dé, eu tive que trazer elas pra cá, o centro de animais fechou'', ele já namorara mulheres estranhas, até uma que frequentava cultos de bruxaria mas aquela cena bizarra desperatara nele simplesmente o riso, o puro riso animal, que após alguns segundos era ouvido e proferido só por ele e pelos quielônios avantajados que lentamente dominavam a sala e a cozinha, ela encabulada e perguntando o por que das risadas ouviu o seco ''você é louca? Vai fazer o que com isso?'' Ela respondeu sem exitar que cuidaria delas, e que traria a midia a esse escândalo e ofensa à mãe natureza, ele se segurava para não rir enquanto 3 tartarugas troncudas derrubavam o centro de mesa da sala ao fundo da cena, ela era louca, só podia ser. 72 tartarugas disse ela.
...Continua...
Foi saudado pela mulher, beijou-a e entregou as flores, mas não antes de perguntar incrédulo o que acontecia ''elas iam ser mortas dé, eu tive que trazer elas pra cá, o centro de animais fechou'', ele já namorara mulheres estranhas, até uma que frequentava cultos de bruxaria mas aquela cena bizarra desperatara nele simplesmente o riso, o puro riso animal, que após alguns segundos era ouvido e proferido só por ele e pelos quielônios avantajados que lentamente dominavam a sala e a cozinha, ela encabulada e perguntando o por que das risadas ouviu o seco ''você é louca? Vai fazer o que com isso?'' Ela respondeu sem exitar que cuidaria delas, e que traria a midia a esse escândalo e ofensa à mãe natureza, ele se segurava para não rir enquanto 3 tartarugas troncudas derrubavam o centro de mesa da sala ao fundo da cena, ela era louca, só podia ser. 72 tartarugas disse ela.
...Continua...
domingo, 22 de novembro de 2009
Comédia romântica
O aroma de café da minha mesa, tem o sentido mais óbvio, me deixar acordado. Algumas pessoas não conseguem dormir, tem insônia, eu queria poder viver acordado, escapar desse tormento que me persegue, pelo menos acordado eu consigo evitar meus pensamentos.
O sonho se repete, e a agonia também, eu achava que tinha honra. Agora sei que sou mais humano do que me imaginava, infelizmente. Mas já são 7 da manhã, e o trabalho me espera, meu salário também, os devaneios cesam na mesa do bar e recomeçam com a primeira tragada de whisky aparentemente a única coisa boa que meu salário me proporciona, escolho uma das dançarinas e acordo com o mesmo sonho, e com uma mesma estranha, sozinho.
O suor frio escoria no meu rosto, e eu me perguntei mesmo que por fração de segundo se minha vida valia o tormento, a resposta óbvia, era não. Mas meu lado humano, sádico, riu do autoflagelamento, escovou os dentes e saiu para o trabalho. Recebi um sms, um convite para uma festa, dentre tudo aquilo que me dava prazer no momento, uma festa à fantasia não estava nem perto do top 10, mas o convite viera nada mais, nada menos, que dela.
Comprei um terno novo, vesti a mascara que de falsa, era menos que meu rosto e lá estava ela, acenou, beijei-a no rosto e dançamos.Ela me abraçava,até que agarrou meu pescoço, fechou os olhos e beijou-me e eu desejei que aquilo fosse um sonho, levou-me para um quarto, tive a melhor noite em tempos da minha vida.Quem acordou sozinho, pelo menos na cama, foi ela, o sol não nasceu na janela, meu corpo enforcado impedia o sol.
O sonho se repete, e a agonia também, eu achava que tinha honra. Agora sei que sou mais humano do que me imaginava, infelizmente. Mas já são 7 da manhã, e o trabalho me espera, meu salário também, os devaneios cesam na mesa do bar e recomeçam com a primeira tragada de whisky aparentemente a única coisa boa que meu salário me proporciona, escolho uma das dançarinas e acordo com o mesmo sonho, e com uma mesma estranha, sozinho.
O suor frio escoria no meu rosto, e eu me perguntei mesmo que por fração de segundo se minha vida valia o tormento, a resposta óbvia, era não. Mas meu lado humano, sádico, riu do autoflagelamento, escovou os dentes e saiu para o trabalho. Recebi um sms, um convite para uma festa, dentre tudo aquilo que me dava prazer no momento, uma festa à fantasia não estava nem perto do top 10, mas o convite viera nada mais, nada menos, que dela.
Comprei um terno novo, vesti a mascara que de falsa, era menos que meu rosto e lá estava ela, acenou, beijei-a no rosto e dançamos.Ela me abraçava,até que agarrou meu pescoço, fechou os olhos e beijou-me e eu desejei que aquilo fosse um sonho, levou-me para um quarto, tive a melhor noite em tempos da minha vida.Quem acordou sozinho, pelo menos na cama, foi ela, o sol não nasceu na janela, meu corpo enforcado impedia o sol.
Coluna de Água
Eu estava sentado com o olhor focado em nada em particular. Uma gota caiu na minha frente. Isso me despertou. Essa gota pareceu se multiplicar, e várias gotas caiam em todos os lados. Eu estava completamente desperto, parecia estar conectado ao mundo que me rodeava por uma força maior. Essas gotas aumentavam, e logo que caiam eram substituídas. Não eram mais gotas, eram colunas de água. A água fria me tocava, me amava, me controlava. Eu vi que perto dos meus pés ela escorria pela terra fazendo uma trilha marrom. Era estranho, mas o marrom parecia vermelho. Aquela coluna que me possuia também possuia a terra aonde eu pisava, o barro nos meus pés é a prova disso. Eu olhei ao redor. A casa pegava fogo. Como podia pegar fogo com tanta chuva caindo diretamente sobre ela? Eu não sei, nunca soube. Ela ainda estava lá dentro. Pra ser honesto, ela ainda está lá dentro. Ficou impossível dizer o que era madeira e o que era uma pessoa em meio das cinzas. Mas eu calculo que quando o fogo já estava incontrolável ela ainda estava desacordada, portanto não havia mais nada a ser feito. Ela queimava, eu amava. Amava a água que era mais poderosa do que eu, a água que chorou a sua morte enquanto eu só pude esperar que ela morresse tomada pela febre. Eu queria ser uma coluna de água, para poder levar aquele fogo como a água levava a terra. Como eu queria que aquela chuva levasse embora as lágrimas que queimavam meu rosto. Nunca mais fui o mesmo depois de ver meu mundo pegar fogo, depois de ver o fogo da febre queimar o fogo da minha paixão, e o calor do fogo queimar a chama da minha existência. Sempre me senti culpado, andando com o remorso nas minhas costas. Até que não pude mais aguentar isso. Agora estou aqui, numa noite que promete uma boa chuva, com dois litros de gasolina e um isqueiro de prata. A gasolina não é como a água, ela não toca o meu corpo lavando os meus pecados. Queima a minha pele incendiando os meus erros. Os dois litros estão agora espalhados pelo meu corpo todo, exceto por minha mão direita. Ela vai garantir que eu queime a mim mesmo, não que seja apenas um erro depois de uma encenação de suicídio. O fogo está aceso. A chuva começa a cair por sobre a terra. Eu toquei no meu peito com o isqueiro. Foi instantâneo. Enquanto agonizava ajoelhado, queimando com meus pecados, a chuva me olhava. Me olhava, e me molhava. As gotas que caiam eram indiferentes aos dois litros de gasolina que ardiam em meu corpo. Naquela noite eu era um ponto vermelho na escuridão, nada mais. Não havia mais o peso da culpa. Eu estava em equilíbrio com o mundo enquando queimava do mesmo jeito que meu amor queimou. E do mesmo jeito que eu estava na chuva naquele dia, eu sei que hoje ela está nessas gotas que eu mal sinto. Mas naqueles que pensei serem os últimos segundos de minha vida, algo parecia errado. Não sei dizer o que era, talvez fosse apenas a gasolina queimando. Mas a gasolina não queimava mais. Eu estava enrolado em uma manta e uma ambulância estava do meu lado. Um homem dizia para eu não desistir, que não era tarde demais para conseguir viver ainda. O equilíbrio estava quebrado. Achei que o momento do incêndio até minha tentativa de suicídio tinha sido ruim, mas agora estava no inferno. Queimei toda a pele do meu corpo, estou preso em uma cama, vigiado 24h por dia para não tentar me matar mordendo minha lingua ou algo do tipo. Eu sou a quebra do sistema, mas dessa vez o sistema foi o mundo. Eu tentei corrigir o erro que cometi no passado e fui impedido. Estou em desiquilíbrio com o universo, não posso descansar em paz. Minha única sorte foi que depois de uma semana, um residente colocou o soro em algum ponto que não devia e morri por hemorragia. O engraçado, é que por final, a água me matou, e não o fogo.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Vida de Peixe
Cheiro de peixe no ar... Olhei ao redor, barracas, vendedores velhos, frutas podres, pastéis malcheirosos.
Foi quando me toquei que eu era mais uma sardinha empilhada em uma das tendas que me circundavam. Entrei em pânico e logo percebi quão ínfimo isso era, eu era um peixe, um peixe morto.
Bem, a última coisa de que me lembrava além do porre da última noite era eu acompanhando um cara que conheci no bar até o seu carro. Abaixei-me para pegar alguma coisa e a cena acabava. Qualquer tentativa de avançá-la era seguida por um torpor tão forte em meus olhos de peixe que desisti. O sonho estava divertido e a feira movimentada, apesar do odor de podridão que eu exalava. Uma figura estranha deparou-se sobre a tenda: luvas, calça social e um rosto comum. Ele pediu alguns peixes e logo eu estava emabalado e não muito depois prostado sob uma tábua de carne.
Deixou-me sozinho por alguns minutos e pelo meu ângulo de visão observei parte da cozinha: utensílios de cozinha, fogão, faca ensanguentada, jornal repousado sobre a mesa e as chaves de seu carro, braço humano fatiado ao lado da faca. Exaltei-me, aquilo não era comum era? Mesmo num sonho, antes que eu pudesse terminar minha tese sobre a aleatoriedade dos sonhos ele usou da mesma faca para me fatiar. Eu era agora um guizado que flutuava na água quente. Colocou-me no prato numa porção ousada, e agora com uma nova vista, deparei-me com um homem, ou algo parecido com um homem, embalado por sacos plásticos. Ele era definitivamente eu. Quando havia me abaixado para pegar as chaves dele, me sequestrou. Me estuprou. roubou meu orgulho, minha vida, e me comeu duas vezes.
Merda de vida.
Foi quando me toquei que eu era mais uma sardinha empilhada em uma das tendas que me circundavam. Entrei em pânico e logo percebi quão ínfimo isso era, eu era um peixe, um peixe morto.
Bem, a última coisa de que me lembrava além do porre da última noite era eu acompanhando um cara que conheci no bar até o seu carro. Abaixei-me para pegar alguma coisa e a cena acabava. Qualquer tentativa de avançá-la era seguida por um torpor tão forte em meus olhos de peixe que desisti. O sonho estava divertido e a feira movimentada, apesar do odor de podridão que eu exalava. Uma figura estranha deparou-se sobre a tenda: luvas, calça social e um rosto comum. Ele pediu alguns peixes e logo eu estava emabalado e não muito depois prostado sob uma tábua de carne.
Deixou-me sozinho por alguns minutos e pelo meu ângulo de visão observei parte da cozinha: utensílios de cozinha, fogão, faca ensanguentada, jornal repousado sobre a mesa e as chaves de seu carro, braço humano fatiado ao lado da faca. Exaltei-me, aquilo não era comum era? Mesmo num sonho, antes que eu pudesse terminar minha tese sobre a aleatoriedade dos sonhos ele usou da mesma faca para me fatiar. Eu era agora um guizado que flutuava na água quente. Colocou-me no prato numa porção ousada, e agora com uma nova vista, deparei-me com um homem, ou algo parecido com um homem, embalado por sacos plásticos. Ele era definitivamente eu. Quando havia me abaixado para pegar as chaves dele, me sequestrou. Me estuprou. roubou meu orgulho, minha vida, e me comeu duas vezes.
Merda de vida.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
questão de gosto
Eu precisava de um café. Tomei coragem e fui até a cozinha gelada, que por ironia eu tinha mandado entupir de pisos frios até nas paredes, pra ficar mais “fresquinha”. Idiota. Peguei uma panela qualquer e enchi de água. Esperava pelas pequenas bolhas que se desprendem do metal e começam a subir à superfície – o que identifica o ponto certo da água pra um bom café – quando pensei que precisava mesmo é de um banho. Ainda poderia aproveitar a água, mas não nessa temperatura. Aumentei a intensidade do fogo e aguardei até que as bolhas gigantes estourassem, espirrando água fervente pelo chão.
Aos cuidados de um pano, levei meu pequeno vaporizador metálico para o banheiro, tomando cuidado para não derramar nada. Fechei a porta e depositei a panela em cima da pia. Meus olhos me fitavam do espelho. Eram lindos. Dançando, o vapor da água ainda esperava alguma atitude minha. Sedutor. Liguei o chuveiro. Água quente também saía dele. O pano de lado e minha mão no metal. O ardor inicial era agradável, mas depois a pele dos meus dedos fritou. Retirei a mão, vermelha, deixando alguns pedaços mínimos dela no metal em ebulição. Com meus dedos ainda latejando de dor, despejei o caldo infernal. Sobre mim. Me envolveu feito um cobertor, até eu olhar novamente para o espelho e me ver inteira, em chamas. Meu rosto escarlate começava a formar bolhas. Elas foram crescendo e estourando, misturando sangue e água, que escorriam pelos meus seios e terminavam no chão. Meu olho direito quase não conseguia enxergar-se novamente no espelho. A água deve ter passeado mais por aquele lado e a cegueira começava. Parte do meu couro cabeludo já não existia. As queimaduras eram para sempre. Minha beleza estava destruída, incompleta. E por fim, perfeita.
Aos cuidados de um pano, levei meu pequeno vaporizador metálico para o banheiro, tomando cuidado para não derramar nada. Fechei a porta e depositei a panela em cima da pia. Meus olhos me fitavam do espelho. Eram lindos. Dançando, o vapor da água ainda esperava alguma atitude minha. Sedutor. Liguei o chuveiro. Água quente também saía dele. O pano de lado e minha mão no metal. O ardor inicial era agradável, mas depois a pele dos meus dedos fritou. Retirei a mão, vermelha, deixando alguns pedaços mínimos dela no metal em ebulição. Com meus dedos ainda latejando de dor, despejei o caldo infernal. Sobre mim. Me envolveu feito um cobertor, até eu olhar novamente para o espelho e me ver inteira, em chamas. Meu rosto escarlate começava a formar bolhas. Elas foram crescendo e estourando, misturando sangue e água, que escorriam pelos meus seios e terminavam no chão. Meu olho direito quase não conseguia enxergar-se novamente no espelho. A água deve ter passeado mais por aquele lado e a cegueira começava. Parte do meu couro cabeludo já não existia. As queimaduras eram para sempre. Minha beleza estava destruída, incompleta. E por fim, perfeita.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Hoje
Hoje é dia de acordar uma hora mais cedo, me arrumar e preparar seu café com leite. É dia de trocar os papéis e te acordar. Eu faria igual a você, entraria em seu quarto gritando o horário bem adiantado e arrancaria seu lençol da cama.
Nós podemos almoçar juntos quando eu sair da aula. Podemos ir ao japonês ou ao seu restaurante mesmo, não importa.
Se eu estivesse trabalhando, poderia te comprar um presente diferente. Nunca te comprei um presente, sempre fiz algumas tranqueiras com as nossas fotos ou só com algumas frases clichês de “parabéns, eu te amo”. Ou algum desenho, mas faz quase 10 anos que não desenho nada.
Há um tempo, pensei em gravar minha versão daquela música que cantei em meu aniversário e você chorou, lembra? Eu estava com tanta vergonha que só conseguia olhar para o microfone, mas eu te vi lá no fundo emocionado. Até hoje quando a mamãe ouve aquela música, ela se lembra do meu aniversário e da cena toda.
Semana passada, te procurei na sala lá de casa. Às vezes te procuro pelo quintal, você nem ficou aqui para ver como a mamãe redesenhou todo o lugar que você deixou.
Acho que sou a única pessoa que consegue olhar para o novo e reposicionar todas as coisas do jeitinho que elas eram quando você estava por aqui.
De lá até aqui me meti em tantos problemas, me machuquei tanto, caí tanto. Descobri que não sei esquecer as pessoas que amo, nem as que não amo e nem as que me fizeram mal. Acho que você era assim também.
Se você estivesse aqui hoje, eu não escreveria nada disso; também não estaria acordada agora. Estaria na hora de te acordar, mas já faz três anos que não te vejo em seu aniversário. Tudo bem, pai, o dia não terminará agora para mim e nem para você. Hoje farei minha primeira tatuagem e é você quem vai assiná-la. Até mais.
Marina Bellini
Nós podemos almoçar juntos quando eu sair da aula. Podemos ir ao japonês ou ao seu restaurante mesmo, não importa.
Se eu estivesse trabalhando, poderia te comprar um presente diferente. Nunca te comprei um presente, sempre fiz algumas tranqueiras com as nossas fotos ou só com algumas frases clichês de “parabéns, eu te amo”. Ou algum desenho, mas faz quase 10 anos que não desenho nada.
Há um tempo, pensei em gravar minha versão daquela música que cantei em meu aniversário e você chorou, lembra? Eu estava com tanta vergonha que só conseguia olhar para o microfone, mas eu te vi lá no fundo emocionado. Até hoje quando a mamãe ouve aquela música, ela se lembra do meu aniversário e da cena toda.
Semana passada, te procurei na sala lá de casa. Às vezes te procuro pelo quintal, você nem ficou aqui para ver como a mamãe redesenhou todo o lugar que você deixou.
Acho que sou a única pessoa que consegue olhar para o novo e reposicionar todas as coisas do jeitinho que elas eram quando você estava por aqui.
De lá até aqui me meti em tantos problemas, me machuquei tanto, caí tanto. Descobri que não sei esquecer as pessoas que amo, nem as que não amo e nem as que me fizeram mal. Acho que você era assim também.
Se você estivesse aqui hoje, eu não escreveria nada disso; também não estaria acordada agora. Estaria na hora de te acordar, mas já faz três anos que não te vejo em seu aniversário. Tudo bem, pai, o dia não terminará agora para mim e nem para você. Hoje farei minha primeira tatuagem e é você quem vai assiná-la. Até mais.
Marina Bellini
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Nó na gravata
Eu tinha uma entrevista de emprego, precisava estar bem arrumado. Aluguei um terno quase-decente, aos olhos de um leigo certamente parece um terno ridiculamente caro. Quando me arrumava para a entrevista, reparei que a gravata não estava amarrada. Eu havia pedido especificamente um gravata amarrada, eu não sei dar nó em gravata, é algo que todo homem deveria saber, mas eu não sei. Fiquei tentando dar o nó na gravata por quase uma hora até conseguir uma coisa parecida com um nó. Sai correndo, estava atrasado para a entrevista. Não tranquei o apartamento, e quando cheguei no final do corredor, o elevador tinha acabado de se fechar. Corri pelas escadas, quase caindo a cada curva. Quando eu saia esbarrei em um cara que levava uma tv para seu apartamento, parecia ser o cara esquisito que nunca fala com ninguem do 303 mas não olhei duas vezes, continuei correndo. Quando tava quase chegando em um sinaleiro, o sinal fechou e uma fila de carros me bloqueou. Olhei para a esquina mais perto. Minha noiva estava beijando um cara em plena calçada, sem nenhuma idéia de que eu estava por perto. E eu tive que ver aquilo, preso no trânsito, atrasado para uma entrevista. num calor infernal. Mas achei melhor ignorar aquilo, eu fui embora. Cheguei atrasado demais, perdi a entrevista. Quando voltava para casa passei em um cruzamento exatamente na hora que uma vadia tentava manobrar o carro do marrido, amassou a lateral inteira do carro. Enquanto subo a escada, penso que nada podia dar mais errado nesse dia, então eu chego no meu andar. O esquisito do 303 está lá me esperando, acho melhor eu ir me desculpar com ele. Quando ele me ve, puxa um revolver e atira três vezes no meu peito. Agora, enquanto caio quase sem vida no chão eu penso que se aquele filho da puta do vendedor tivesse dado o maldito nó na porra da gravata, eu poderia estar em casa, com um emprego, uma namorada e um carro intacto na garagem do prédio, mas não. To aqui, morrendo.
Ressonância
Ressonância
Em Física, Ressonância é a tendência de um sistema a oscilar em máxima amplitude em certas frequências, conhecido como 'frequências ressonantes'. Nessas frequências, até mesmo forças periódicas pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, pois o sistema armazena energia vibracional. Quando o amortecimento é pequeno, a frequência de ressonância é aproximadamente igual a frequência natural do sistema, o que é a frequência de vibrações livres.
Eu sentia que algo se mexia logo acima de mim, e não se mexia aleatoriamente. Algo se mexia dentro de mim, e isso controlava a oscilação que eu sentia. Eu controlava algo, pela primeira vez na minha vida. Sinto como se pudesse quebrar toda a lógica de Sartre, a minha liberdade não tem limite. Ela começa na minha vontade e termina em algum lugar ao infinito. O único problema, é que não sei aonde estou.
Eu estava sentado em um banco de concreto. Há pessoas demais por perto, todas parecem tristes. Olhando melhor o cenário, eu acho que eu estou em um funeral. Definitivamente, é um funeral. Mas eu não me lembro de ninguém ter morrido. Talvez seja melhor ver a quem eu supostamente estou prestando homenagem. Enquanto vou em direção a um caixão aberto, vejo vários conhecidos. Há conhecidos demais, alguém próximo deve estar naquela caixa de madeira. Eu parei no meio do caminho. Eu olhei para quem eu conhecia, e relembrei das coisas que aconteceram na minha vida. Olhei para minha antiga namorada e lembrei de fugir das aulas teóricas para ficar com ela em algum lugar isolado onde só existiamos nós dois. Até que tudo terminou, e nada mais foi o mesmo na nossa amizade. Vejo os meus amigos e lembro das conversas que tivemos, tudo o que já discutimos e questionamos nessa vida. E realmente, foram vária conversas. Me perdi em meus pensamentos, quando me dei conta, o caixão estava prestes a ser enterrado. Me dirigi à cova aberta, e enquanto dei a primeira olhada no caixão, uma gota de chuva atingiu-me no rosto. E tudo ficou esclarecido.
Eu me vi vestido em caro terno preto, com uma camisa cor vermelho-sangue -uma escolha meio irônica para um morto- deitado dentro do caixão de forro de cetim-preto.
Como eu não percebi antes? A liberdade nunca poderia ser infinita, a ressonância precisa de uma força para começar, mas eventualmente ela acabará.
Em Física, Ressonância é a tendência de um sistema a oscilar em máxima amplitude em certas frequências, conhecido como 'frequências ressonantes'. Nessas frequências, até mesmo forças periódicas pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, pois o sistema armazena energia vibracional. Quando o amortecimento é pequeno, a frequência de ressonância é aproximadamente igual a frequência natural do sistema, o que é a frequência de vibrações livres.
Eu sentia que algo se mexia logo acima de mim, e não se mexia aleatoriamente. Algo se mexia dentro de mim, e isso controlava a oscilação que eu sentia. Eu controlava algo, pela primeira vez na minha vida. Sinto como se pudesse quebrar toda a lógica de Sartre, a minha liberdade não tem limite. Ela começa na minha vontade e termina em algum lugar ao infinito. O único problema, é que não sei aonde estou.
Eu estava sentado em um banco de concreto. Há pessoas demais por perto, todas parecem tristes. Olhando melhor o cenário, eu acho que eu estou em um funeral. Definitivamente, é um funeral. Mas eu não me lembro de ninguém ter morrido. Talvez seja melhor ver a quem eu supostamente estou prestando homenagem. Enquanto vou em direção a um caixão aberto, vejo vários conhecidos. Há conhecidos demais, alguém próximo deve estar naquela caixa de madeira. Eu parei no meio do caminho. Eu olhei para quem eu conhecia, e relembrei das coisas que aconteceram na minha vida. Olhei para minha antiga namorada e lembrei de fugir das aulas teóricas para ficar com ela em algum lugar isolado onde só existiamos nós dois. Até que tudo terminou, e nada mais foi o mesmo na nossa amizade. Vejo os meus amigos e lembro das conversas que tivemos, tudo o que já discutimos e questionamos nessa vida. E realmente, foram vária conversas. Me perdi em meus pensamentos, quando me dei conta, o caixão estava prestes a ser enterrado. Me dirigi à cova aberta, e enquanto dei a primeira olhada no caixão, uma gota de chuva atingiu-me no rosto. E tudo ficou esclarecido.
Eu me vi vestido em caro terno preto, com uma camisa cor vermelho-sangue -uma escolha meio irônica para um morto- deitado dentro do caixão de forro de cetim-preto.
Como eu não percebi antes? A liberdade nunca poderia ser infinita, a ressonância precisa de uma força para começar, mas eventualmente ela acabará.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Psicose humana
O suor escorria pelo meu rosto, mais por elegância do que por nervosismo, enquanto eu mantinha a arma apontada para a cabeça dele. Tirar a vida dele, acabar com a existência do que um dia eu já tinha gostado era tudo que ainda parecia são, na minha mente deturpada. Mas o que me daria mais prazer? Sua morte, ou eternizar esse momento de tensão? Vê-lo pálido como um fantasma, implorando pela vida que ele não merecia, implorando pelo amor da vida dele que era meu. O quarto escuro com cheiro de pólvora me fazia querer vomitar, não mais que o rosto ensanguentado do que eu já havia chamado de amigo, mas me fazia querer vomitar. Apesar da naúsea constante, me sentia orgulhoso, mesmo após nossa briga no bar que ferira uma garçonete, conseguira trazê-lo até em casa, ''conversar'' eu disse no telefone para ele enquanto comprava a corda que o prendia à viga de madeira do meu porão.
Resolvi que era hora de agir, removi o esparadrapo que o impedia de falar, filho da puta, ele exclamou até perder o fôlego. Eu calmamente perguntei se ele ainda a amava. Ameaças, era tudo que eu ouvia, eu já havia trocado confissões com ele, viajado pelo mundo e tudo que recebi em troca além da ingratidão foi um amor perdido. Mirei novamente para o seu rosto e em instantes sua raiva tornou-se angústia e não obstante, desespero. Eu disse novamente, você ainda a ama? Ele exaltou-se com um: sim ela sempre me amou, muito mais do que você imagina.
Eu sorri, soltei suas mordaças e sua corda, e disse, vá, você mercece viver Gabriel, ainda mirando a arma em sua cabeça. Ele arrastou-se, tropeçou, fugiu. Exaltei-me numa risada orgasmatica e ainda sem fôlego tirei do bolso o celular dela, e mandei uma mensagem a ele. ''Estou te esperando em casa, aonde vc está?''. coloquei o celular ao lado do vestido ensanguentado que pertencera a ela e deitei-me. Você merece viver..... viver esse inferno que eu fiz só pra voce, pensei e sorri dormindo como um anjo mesmo com as sirenes
Resolvi que era hora de agir, removi o esparadrapo que o impedia de falar, filho da puta, ele exclamou até perder o fôlego. Eu calmamente perguntei se ele ainda a amava. Ameaças, era tudo que eu ouvia, eu já havia trocado confissões com ele, viajado pelo mundo e tudo que recebi em troca além da ingratidão foi um amor perdido. Mirei novamente para o seu rosto e em instantes sua raiva tornou-se angústia e não obstante, desespero. Eu disse novamente, você ainda a ama? Ele exaltou-se com um: sim ela sempre me amou, muito mais do que você imagina.
Eu sorri, soltei suas mordaças e sua corda, e disse, vá, você mercece viver Gabriel, ainda mirando a arma em sua cabeça. Ele arrastou-se, tropeçou, fugiu. Exaltei-me numa risada orgasmatica e ainda sem fôlego tirei do bolso o celular dela, e mandei uma mensagem a ele. ''Estou te esperando em casa, aonde vc está?''. coloquei o celular ao lado do vestido ensanguentado que pertencera a ela e deitei-me. Você merece viver..... viver esse inferno que eu fiz só pra voce, pensei e sorri dormindo como um anjo mesmo com as sirenes
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Luxúria
Olhou-me e tudo que pude sentir foi o peso dos meus pecados.
Ainda podemos ser amigos?, perguntei ironicamente.
Já ciente de que não ouviria resposta, me virei e continuei andando, e senti seus braços ao meu redor. Não falou nada, foram-se algumas segundos naquele corredor de supermercado até receber o convite. Vamos para casa?, ele disse.
Acordei ao lado dele, as suas mãos em meu ombro e um sorriso de prazer estampado em nossos corpos nus.
Me levantei sem ele notar, e enquanto preparava o café, meu celular brilhou com a mensagem. Era ela.
Me vesti e não bebi o café. Ele iria precisar.
Precisava me confessar. Que espécie de homem faria algo daquele tipo? O prazer que era a visita aquela igreja humilde ao lado de minha casa era impagável e muito além do usual. A freira como sempre, me esperava ao lado do altar, o padre não havia chegado.
Levou-me até a sala do confessionário, ela foi minha, carne, sangue e pão naqueles sagrados 5 minutos. Outro sms, "te amo" dizia.
Me confessei, não totalmente é claro. Uma vida dupla, sexualidade dupla mas um único pecado: luxúria.
Ainda podemos ser amigos?, perguntei ironicamente.
Já ciente de que não ouviria resposta, me virei e continuei andando, e senti seus braços ao meu redor. Não falou nada, foram-se algumas segundos naquele corredor de supermercado até receber o convite. Vamos para casa?, ele disse.
Acordei ao lado dele, as suas mãos em meu ombro e um sorriso de prazer estampado em nossos corpos nus.
Me levantei sem ele notar, e enquanto preparava o café, meu celular brilhou com a mensagem. Era ela.
Me vesti e não bebi o café. Ele iria precisar.
Precisava me confessar. Que espécie de homem faria algo daquele tipo? O prazer que era a visita aquela igreja humilde ao lado de minha casa era impagável e muito além do usual. A freira como sempre, me esperava ao lado do altar, o padre não havia chegado.
Levou-me até a sala do confessionário, ela foi minha, carne, sangue e pão naqueles sagrados 5 minutos. Outro sms, "te amo" dizia.
Me confessei, não totalmente é claro. Uma vida dupla, sexualidade dupla mas um único pecado: luxúria.
jornada
A formiga no canto do banheiro. Eu observava esse pequeno ser decidindo algum ponto da sua inimaginável vida naquele cruzamento de chão e parede. O caminho era longo caso ela quisesse subir os infinitos pisos que levavam ao teto. Parecia preocupada o suficiente para manter as duas patas dianteiras eriçadas e as anteninhas epiléticas à frente. Por mais que insetos sejam desprezíveis, sempre tive carinho por alguns deles. Aranhas e formigas, principalmente. Ainda mais por aquela formiguinha, preta, simples. Me comovia o tempo, comparado à mínima duração de sua vida, que ela estava demorando para se decidir entre chão ou parede. Fez então sua decisão. Escolheu pela parede enfim. Ótima escolha. Pra quê continuar de onde estava? Se veio do chão, arrisque-se na parede. Muita bravura.
Após uma lajota de caminhada a formiga parou, hesitante. Por quê? Continue em direção ao teto. Vá ao desconhecido. Ela então voltou seu corpo em direção ao chão e começou a descer. E desceu, chegou ao chão. Caminhou mais alguns centímetros e veio de encontro ao meu dedão. Decepcionante, formiga. Esmaguei-a.
Após uma lajota de caminhada a formiga parou, hesitante. Por quê? Continue em direção ao teto. Vá ao desconhecido. Ela então voltou seu corpo em direção ao chão e começou a descer. E desceu, chegou ao chão. Caminhou mais alguns centímetros e veio de encontro ao meu dedão. Decepcionante, formiga. Esmaguei-a.
conversa de bar
É notável a quantidade de vezes em que os seres-humanos pensam que são realmente semelhantes aos seus iguais. Às vezes percebemos nossas diferenças. E nos damos conta de quem realmente somos. E foi assim que tudo se deu.
- Eu preciso de alguma coisa pra fazer.
- É cara, também acho. Precisa conhecer gente nova. Gente mais intelectualizada, comprometida com alguma coisa.
- Pois é.
- Sabe, tem esse grupo que eu faço parte, é uma ONG. Só gente de nível, que ajuda a comunidade, faz o bem, sabe? Acho a sua cara, ainda mais você, que gosta de ajudar os outros.
- Desde quando eu gosto de ajudar os outros?
- Como assim? Não gosta?
- Não.
- Impossível não gostar. E a sensação de bem-estar que te dá? Isso não é bom?
- Prazer por prazer, prefiro pagar uma puta pra isso. Mais barato e rápido.
- Não fala besteira, cara.
- É tudo questão de auto-satisfação. Não existe isso de altruísmo no mundo. Tudo tem seu fim egoísta.
- Falou besteira.
- Me diz aí alguma ação humanitária que te digo o fundo real dela.
- Ajudar os pobres, que tal?
- Deixando de lado as crenças religiosas?
- É.
- Limpeza de consciência. Aumentar auto-estima. Achar seu valor no mundo. Só escolher um. E depois dizem que não dá pra estimar o valor de nós, humanos, né?
- E por que você vive então?
- Vivo pra mim e pra quem eu gosto. E pro que eu gosto. Se eu quiser ajudar as baleias, ajudo. Mas não vou me sentir melhor por isso. Só ajudei. Foda-se o que elas vão pensar de mim, se ficarão gratas. Ajudei pra passar o tempo. Como passo o tempo aqui com você.
- Ah, então agora você fica aqui comigo, bebendo, só pra passar o tempo?
- Lá vem. Sabia que ia dar nisso. Você não entende como eu funciono. Eu te curto pra caramba. Beber cerveja com você e ouvir seus papos sobre igreja é muito bom. E pra passar o tempo. Não é isso que a gente faz a vida toda: espera o tempo passar? Colocar em palavras acaba com a magia da coisa, não é?
- Então se não surgir nada mais interessante, eu sou sua única opção?
- Eu não disse isso. Mas sim. Considere um elogio ou não, mas você é a coisa mais interessante que eu tenho pra fazer agora. E não estou dando valores nem fazendo comparações.
- É, cara. Bem que me disseram que você não era boa companhia.
- Ah, é?
- É. Que você era estranho e tal. Por isso não tem amigos.
- Poxa. Fico sentido.
- Tira esse seu sorrisinho da cara. Não precisa fingir que não se importa.
- Tá certo. Eu me importo. Me importo tanto que vou pedir outra garrafa pra gente. Pode ser?
- Tá.
- E você? Vive pra quê?
- Vivo pela vida, amigo.
- E eu não?
- Eu vivo para fazer a diferença. Eu vivo para tornar o mundo um lugar melhor para os que virão. Quero fazer minha parte.
- Desperdício de tempo.
- Mas você poderia fazer isso. Como você disse, só para passar o tempo.
- Tem razão. Começarei amanhã a dar a minha comida aos pobres. Mas primeiro, me deixa acabar essa cerveja.
- Não precisa zoar, eu sei que você não liga pra isso. Mas me diz aí, por que tanta falta de humanidade? É algum trauma?
- Além dos seus papos sobre deus agora vai dar uma de psicanalista? Não fode.
- É, bem que eu sabia que essa pós em psicologia não ia dar em nada.
- Mas voltando ao que perguntou, não é que eu não tenha esse espírito humanitário. Eu gosto de tratar outros seres-humanos do mesmo jeito que eu me vejo e vejo a todos nós: com desprezo. Somos a podridão do mundo. Aqueles que fodem tudo e depois querem consertar. Os que se iludem acreditando numa vida pós-vida e deixam isso reger suas experiências nesse planeta. Eu pouco me importo se vamos morrer e virar adubo ou se viraremos anjinhos gorduchos. O fato é que somos podres. Nossas emoções são mascaradas e conseguimos ser mais patéticos do que seríamos caso esse contrato social não existisse.
- Até que enfim você mostrou alguma emoção, amigo.
- É. Só isso consegue me alterar.
- Então você gosta de viver o momento? É como aquela corrente filosófica...
- Epicurismo. Não. Epicuro se achava rebelde. Fazia orgias e pensava ir contra as regras. Ele era só mais um dentre os outros. Também passava a vida procurando alguma coisa, assim como você quer “fazer a diferença”. Eu não. Só vivo. Faço o que me der vontade. Não necessariamente busco a felicidade, como fazia o filósofo. Não ligo de viver na tristeza. Não fujo dela.
- Se é assim, por que você não mata pessoas? Não estupra mulheres pelas quais sente desejo?
- Porque tenho ética. Não sou um animal irracional. Como humano carrego o fardo de ter consciência do que é certo ou errado, pelo menos pra mim.
- Não sei. Acho essa sua conversa mais aparência do que realidade. De se achar diferente, só isso.
- Não é.
- Então, de acordo com seu modo de vida, eu poderia fazer o que bem entender e você acharia normal.
- Não só normal. Acharia correto.
- Supondo que essa conversa esteja me irritando. Que você esteja me irritando e fazendo eu te achar um babaca, então eu poderia pegar essa cadeira em que estou sentado e acertá-la na sua cara?
- É um motivo.
- Então farei isso.
- Vá em frente.
Bebi um último gole amargo da cerveja, que nesse momento já estava quente. Ele tomava coragem, incrédulo quanto a minha passividade no momento. As pessoas do bar ao qual pertencia a mesa na calçada ainda não percebiam o que estava por vir. Tentei debochar da situação. Meu sorriso sarcástico foi interrompido por um pedaço de madeira mais consistente do que eu esperava. A pele do meu rosto dançou pelo ar, acompanhada dos respingos vermelhos que eram expulsos da minha têmpora. Gravidade zero. É assim. Meu corpo, então, jogado contra o asfalto. A parede como meu chão. Depois falam que descobrimos o verdadeiro sentimento humano quando ajudamos os necessitados. Quem nunca levou uma cadeira na cabeça não pode saber como é se sentir humano. Enfim um pouco de realidade.
(...)
- Ó meu deus, o que eu fiz?
Ele parecia desesperado.
- Libertador, não?
O sangue é salgado.
- Eu preciso de alguma coisa pra fazer.
- É cara, também acho. Precisa conhecer gente nova. Gente mais intelectualizada, comprometida com alguma coisa.
- Pois é.
- Sabe, tem esse grupo que eu faço parte, é uma ONG. Só gente de nível, que ajuda a comunidade, faz o bem, sabe? Acho a sua cara, ainda mais você, que gosta de ajudar os outros.
- Desde quando eu gosto de ajudar os outros?
- Como assim? Não gosta?
- Não.
- Impossível não gostar. E a sensação de bem-estar que te dá? Isso não é bom?
- Prazer por prazer, prefiro pagar uma puta pra isso. Mais barato e rápido.
- Não fala besteira, cara.
- É tudo questão de auto-satisfação. Não existe isso de altruísmo no mundo. Tudo tem seu fim egoísta.
- Falou besteira.
- Me diz aí alguma ação humanitária que te digo o fundo real dela.
- Ajudar os pobres, que tal?
- Deixando de lado as crenças religiosas?
- É.
- Limpeza de consciência. Aumentar auto-estima. Achar seu valor no mundo. Só escolher um. E depois dizem que não dá pra estimar o valor de nós, humanos, né?
- E por que você vive então?
- Vivo pra mim e pra quem eu gosto. E pro que eu gosto. Se eu quiser ajudar as baleias, ajudo. Mas não vou me sentir melhor por isso. Só ajudei. Foda-se o que elas vão pensar de mim, se ficarão gratas. Ajudei pra passar o tempo. Como passo o tempo aqui com você.
- Ah, então agora você fica aqui comigo, bebendo, só pra passar o tempo?
- Lá vem. Sabia que ia dar nisso. Você não entende como eu funciono. Eu te curto pra caramba. Beber cerveja com você e ouvir seus papos sobre igreja é muito bom. E pra passar o tempo. Não é isso que a gente faz a vida toda: espera o tempo passar? Colocar em palavras acaba com a magia da coisa, não é?
- Então se não surgir nada mais interessante, eu sou sua única opção?
- Eu não disse isso. Mas sim. Considere um elogio ou não, mas você é a coisa mais interessante que eu tenho pra fazer agora. E não estou dando valores nem fazendo comparações.
- É, cara. Bem que me disseram que você não era boa companhia.
- Ah, é?
- É. Que você era estranho e tal. Por isso não tem amigos.
- Poxa. Fico sentido.
- Tira esse seu sorrisinho da cara. Não precisa fingir que não se importa.
- Tá certo. Eu me importo. Me importo tanto que vou pedir outra garrafa pra gente. Pode ser?
- Tá.
- E você? Vive pra quê?
- Vivo pela vida, amigo.
- E eu não?
- Eu vivo para fazer a diferença. Eu vivo para tornar o mundo um lugar melhor para os que virão. Quero fazer minha parte.
- Desperdício de tempo.
- Mas você poderia fazer isso. Como você disse, só para passar o tempo.
- Tem razão. Começarei amanhã a dar a minha comida aos pobres. Mas primeiro, me deixa acabar essa cerveja.
- Não precisa zoar, eu sei que você não liga pra isso. Mas me diz aí, por que tanta falta de humanidade? É algum trauma?
- Além dos seus papos sobre deus agora vai dar uma de psicanalista? Não fode.
- É, bem que eu sabia que essa pós em psicologia não ia dar em nada.
- Mas voltando ao que perguntou, não é que eu não tenha esse espírito humanitário. Eu gosto de tratar outros seres-humanos do mesmo jeito que eu me vejo e vejo a todos nós: com desprezo. Somos a podridão do mundo. Aqueles que fodem tudo e depois querem consertar. Os que se iludem acreditando numa vida pós-vida e deixam isso reger suas experiências nesse planeta. Eu pouco me importo se vamos morrer e virar adubo ou se viraremos anjinhos gorduchos. O fato é que somos podres. Nossas emoções são mascaradas e conseguimos ser mais patéticos do que seríamos caso esse contrato social não existisse.
- Até que enfim você mostrou alguma emoção, amigo.
- É. Só isso consegue me alterar.
- Então você gosta de viver o momento? É como aquela corrente filosófica...
- Epicurismo. Não. Epicuro se achava rebelde. Fazia orgias e pensava ir contra as regras. Ele era só mais um dentre os outros. Também passava a vida procurando alguma coisa, assim como você quer “fazer a diferença”. Eu não. Só vivo. Faço o que me der vontade. Não necessariamente busco a felicidade, como fazia o filósofo. Não ligo de viver na tristeza. Não fujo dela.
- Se é assim, por que você não mata pessoas? Não estupra mulheres pelas quais sente desejo?
- Porque tenho ética. Não sou um animal irracional. Como humano carrego o fardo de ter consciência do que é certo ou errado, pelo menos pra mim.
- Não sei. Acho essa sua conversa mais aparência do que realidade. De se achar diferente, só isso.
- Não é.
- Então, de acordo com seu modo de vida, eu poderia fazer o que bem entender e você acharia normal.
- Não só normal. Acharia correto.
- Supondo que essa conversa esteja me irritando. Que você esteja me irritando e fazendo eu te achar um babaca, então eu poderia pegar essa cadeira em que estou sentado e acertá-la na sua cara?
- É um motivo.
- Então farei isso.
- Vá em frente.
Bebi um último gole amargo da cerveja, que nesse momento já estava quente. Ele tomava coragem, incrédulo quanto a minha passividade no momento. As pessoas do bar ao qual pertencia a mesa na calçada ainda não percebiam o que estava por vir. Tentei debochar da situação. Meu sorriso sarcástico foi interrompido por um pedaço de madeira mais consistente do que eu esperava. A pele do meu rosto dançou pelo ar, acompanhada dos respingos vermelhos que eram expulsos da minha têmpora. Gravidade zero. É assim. Meu corpo, então, jogado contra o asfalto. A parede como meu chão. Depois falam que descobrimos o verdadeiro sentimento humano quando ajudamos os necessitados. Quem nunca levou uma cadeira na cabeça não pode saber como é se sentir humano. Enfim um pouco de realidade.
(...)
- Ó meu deus, o que eu fiz?
Ele parecia desesperado.
- Libertador, não?
O sangue é salgado.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
recompensa
Então é isso. Eu e você. No fim do seu tempo, sou a única pessoa que lhe resta. Sempre esperei o momento em que poderia te dizer tudo. Em que minhas frustrações e revoltas fossem direcionadas para a pessoa que foi a causadora das mesmas. Desde a minha primeira memória de consciência, eu lembro de você. Lembro de como mandava em mim. De como eu era sua propriedade. Mas eu sempre me perguntei "Desde quando?" Quem disse que sou seu? Deus? Justiça? E por que esse deus ou essa justiça nunca me perguntaram sobre os meus direitos? Somos livres, certo? E por que sempre fui seu?
Agora estamos aqui. Você dependente de mim. O papel inverso. É estranho te imaginar não me dando aquelas ordens, me dizendo o que eu tinha que fazer e dando sempre o argumento de que eu tinha que fazer porque você é o que você é. Patético. Quando íamos caçar, minha mão tremia de ansiedade pra que eu, sem-querer, acertasse sua cabeça com uma bala. Mas não podia, claro. Havia ela. Sua tão amada esposa. Passiva. Não digo que era pela religião, já que você era muito mais crente nessas besteiras do que ela. Ela era um doce, claro que era. Esposa e filha de Deus. Quem poderia desejar algo melhor? Eu poderia. Eu desejei. Todas as vezes em que os olhos lacrimejados me fitavam enquanto você me repreendia. Fosse com as palavras, fosse com as mãos. Ela sabia que você estava errado. Eu via isso.
Ao menos pude me desfazer de vocês quando ela se foi. Confesso que fiquei com pena quando te trocou por um frentista de posto. Não por ser frentista. Por ser outro homem que não você. Mas eu dava razão a ela. Se eu não te aguentava nas poucas horas em que te via, imagino ela, que tinha que deitar em você e satisfazer a cama.
Mas chegou a hora, pai. Ou você, ou eu. Aprendi a não buscar vingança. Não guardo rancor por ninguém depois disso. O problema é que meu ódio por você vem de antes. Você pede por uma exceção. Imagino que você não esteja ouvindo. Imagino que queira ir lá fora, queira brincar com seus colegas, queira viver. Queira ter tudo que eu não tive. Quer liberdade, não? Pois essa é minha vingança. Sempre achei que o desumano seria o contrário. Desligar os aparelhos pelos quais o fio da esperança está conectado. Espero que esteja me ouvindo, mesmo no seu estado quase vegetativo. Não pai. Você não pode brincar onde quer que seja. Você não pode se libertar. Os aparelhos continuarão ligados. Quer saber o motivo? Simples. Uso o mesmo argumento que sempre usou. Porque sou seu filho.
Agora estamos aqui. Você dependente de mim. O papel inverso. É estranho te imaginar não me dando aquelas ordens, me dizendo o que eu tinha que fazer e dando sempre o argumento de que eu tinha que fazer porque você é o que você é. Patético. Quando íamos caçar, minha mão tremia de ansiedade pra que eu, sem-querer, acertasse sua cabeça com uma bala. Mas não podia, claro. Havia ela. Sua tão amada esposa. Passiva. Não digo que era pela religião, já que você era muito mais crente nessas besteiras do que ela. Ela era um doce, claro que era. Esposa e filha de Deus. Quem poderia desejar algo melhor? Eu poderia. Eu desejei. Todas as vezes em que os olhos lacrimejados me fitavam enquanto você me repreendia. Fosse com as palavras, fosse com as mãos. Ela sabia que você estava errado. Eu via isso.
Ao menos pude me desfazer de vocês quando ela se foi. Confesso que fiquei com pena quando te trocou por um frentista de posto. Não por ser frentista. Por ser outro homem que não você. Mas eu dava razão a ela. Se eu não te aguentava nas poucas horas em que te via, imagino ela, que tinha que deitar em você e satisfazer a cama.
Mas chegou a hora, pai. Ou você, ou eu. Aprendi a não buscar vingança. Não guardo rancor por ninguém depois disso. O problema é que meu ódio por você vem de antes. Você pede por uma exceção. Imagino que você não esteja ouvindo. Imagino que queira ir lá fora, queira brincar com seus colegas, queira viver. Queira ter tudo que eu não tive. Quer liberdade, não? Pois essa é minha vingança. Sempre achei que o desumano seria o contrário. Desligar os aparelhos pelos quais o fio da esperança está conectado. Espero que esteja me ouvindo, mesmo no seu estado quase vegetativo. Não pai. Você não pode brincar onde quer que seja. Você não pode se libertar. Os aparelhos continuarão ligados. Quer saber o motivo? Simples. Uso o mesmo argumento que sempre usou. Porque sou seu filho.
no calor do momento
Do calor que me envolve, só aprecio a cor. O brilho quente
existente tanto no ensolarado quanto no nublado ou chuvoso.
No calor o tempo pára. O ar em blocos me sufoca. Enquanto o
espírito do país se alegra com a sensualidade do momento, meu
corpo o repele.
As atividades mais nojentas do corpo tornam-se incabíveis. O
tecido mais leve parece uma camisa de força; a água que
escorre na pele só molha. Enquanto no frio tudo é triste,
no calor tudo é morto. O contato humano é insuportável.
Ficamos sós e quentes. O ardor é nosso algoz.
Antes eu não via problema em ir para o inferno. Nem agora o
vejo. Vou para o inferno contanto que não seja no verão.
existente tanto no ensolarado quanto no nublado ou chuvoso.
No calor o tempo pára. O ar em blocos me sufoca. Enquanto o
espírito do país se alegra com a sensualidade do momento, meu
corpo o repele.
As atividades mais nojentas do corpo tornam-se incabíveis. O
tecido mais leve parece uma camisa de força; a água que
escorre na pele só molha. Enquanto no frio tudo é triste,
no calor tudo é morto. O contato humano é insuportável.
Ficamos sós e quentes. O ardor é nosso algoz.
Antes eu não via problema em ir para o inferno. Nem agora o
vejo. Vou para o inferno contanto que não seja no verão.
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