quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Adeus ano velho

Os fogos de artifício irritavam seu cachorro, que assustado escondeu-se sob o sofá onde o dono se sentava. O copo de whisky dava lugar ao de champagne, e a solidão à familia. Não estava mais sóbrio e tudo que podia pensar era como aquela festa ao lado de sua casa atrapalhou seus estudos, ele estava bêbado, mas isso não o impedia de querer estudar na virada do ano, impedia? Pelo menos não totalmente.
Faltavam dois dias para a última prova que ele teria que enfrentar na vida, se deus, Buda ou Alá quisessem. Sua mente não raciocinava direito há mais de uma semana, mas com o álcool e toda ocasião importante isso não parecia importar-lhe, terminou todos os exercícios que tinha prometido a si mesmo terminar e largara-se sobre o sofá que seu cachorro procurara abrigo. O tempo rastejava pelo relógio de pulso e o ano e aquela alegria que não o contagiava recusavam-se ao término.
Abriu mais uma garrafa de whisky e vencido pela comoção alheia abriu as cortinas de sua sala, bêbado, sozinho, digo, acomponhado pelo seu fiel companheiro, mas sem compainha humana e apreciou aquele fim de ano que por mais depressivo que sôe na história tinha sido um bom ano, não melhor que o próximo, caso ele passase, mas um bom ano sem dúvida. Feliz ano novo!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Disseram por aí

Fiquei sabendo que na minha terra, os policiais são treinados para não bater nos “caba safado”. São treinados para defender os pais de família daqui e para fazer com que os vagabundos fiquem espertos e virem trabalhadores honestos de uma vez.
Uma vez mesmo, me contaram, que a polícia daqui anda tão esperta que conseguiu prender um grupo que estava planejando um assalto. “Pla – ne – jan – do”, o taxista que me contou repetiu isso umas oito vezes. “Os cabra não tinham nem feito nada!” incrível.
Descobri também que um dos ‘prestatenção’ mais comuns que os policiais dão nesses vagabundos é o truque do jabá. Jabá é carne de sol, mas muito mais salgada. Fiquei sabendo que os policiais faziam os vagabundos comerem um montão de jabá e aí, quando eles ficavam com muita sede, colocavam uma jarra de água bem gelada na frente de cada safado e só os deixavam beber quando todos prometessem que não iriam mais atrapalhar os homens de bem.
Se fosse onde eu vivo, os trombadinhas fariam o mesmo, mas depois de serem soltos, voltariam a assaltar as pessoas. Aqui, na minha terra, isso não acontece. Os homens daqui têm palavra.
Me contaram que das poucas vezes que uns ‘cabas safados’ não honraram sua palavra, os policiais os levaram para dar um passeio. Os vagabundos foram colocados em um barco e passearam por mais de três horas para longe das praias daqui, para longe do alto mar daqui. Os passeios terminavam ali, por Recife, nas águas dominadas por seus tubarões. É, estes cabas nunca mais foram vistos na minha terra.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

vida a dois

Já fazia um tempo que ela queria engravidar. Ou pelo menos dava a entender isso. Queria sexo a toda hora. E sempre sem proteção. Ficava toda manhosa, e insistindo sempre pra que eu terminar dentro dela. É irresistível uma mulher te pedindo isso. Prova maior de amor não existe. Mas eu sou paranóico, tenho problemas o suficiente com pessoas para não desejar mais um ser na minha vida. Apesar de nunca termos falado abertamente sobre isso, tudo me dizia que esse era só mais um passo na nossa vida juntos. Ela já lavava as calcinhas no meu banheiro. É um sinal forte.

Mas você sabe. Já não era igual. Eu pensava que talvez esse filho fosse pra tentar amarrar mais as coisas entre nós. Mas ela não era assim. Depois pensava em interesse. A não ser que ela se interessasse por dívidas, também descartava essa possibilidade. Mas dizem, né, que as mulheres têm essa hora que sentem o desejo materno. Não sei como funciona, mas era o único motivo que eu encontrava. Então um dia ela me chamou para conversar. Disse que era assunto sério. Fingi não me preocupar, indiferença era minha especialidade. Falou de irmos numa praça ali perto, era mais sossegado. Era daquelas pracinhas de bairro, com velhinhos cagados andando pra lá e pra cá, camisinhas jogadas embaixo dos bancos e merda de cachorro na grama. Bem aconchegante.

Arrastando-a pela mão, fui em direção aos bancos de cimento, mas ela me segurou e disse para sentarmos perto das árvores. Tudo bem. Ela me olhou de um jeito estranho, de quem sente que a notícia não vai ser bem recebida. "Não acha lindo? Esse mato, essas árvores? Esse pequeno espacinho natural que temos aqui perto do apartamento?" Ela disse "o espacinho que temos.". Vai querer uma cópia da chave logo. Isso não pode ser bom. E se por espaço natural ela pensa nesses velhos tarados que logo serão adubos dessa pracinha porca, tudo bem. Mas essas árvores acabadas e essa terra batida não caracterizam o meu ideal de "espacinho natural". "O ar daqui é tão bom. Mesmo depois da chuva, o cheiro da terra entrando pelas narinas é delicioso, né?". Que merda de conversa séria é essa? Veio aqui pra me ensinar o cheiro da terra? Ela tá enrolando.

"E as pessoas? Isso aqui faz um bem tão grande pra elas. As crianças ali no parquinho, por exemplo. Aposto que aqui é um dos únicos lugares em que elas podem ter esse contato com o verde. Me sinto tão conectada.". Merda. Crianças. Lá vem o assunto sério. Só me falta ela estar grávida. Ficou parada, encarando as crianças. O pior de tudo é que era mesmo um olhar de...mãe. Maldita. Ela suspirou. "Bom, eu te trouxe aqui exatamente pra te perguntar: o que acha de a gente adotar?". Pior que estar grávida, é ela querer adotar. Porque ela vai saber que eu não quero. Gravidez seria uma desculpa ainda. Eu poderia chamá-la de aproveitadora, pelo menos, e ir embora. Mas agora me deixou encurralado. Respirei fundo e fui. "Elisa, olha, eu gosto muito de você. Muito mesmo. A gente se dá bem e mesmo depois de todo esse tempo que estamos juntos ainda gosto da tua companhia e das nossas conversas. Mas tô achando tudo isso muito apressado. Você quer vir morar comigo, deixa tuas coisas no meu apartamento. Sai pendurando calcinha, usando minhas camisas, deixando louça pra lavar. Te respeito muito, mas não dá. Preciso do meu espaço. E agora vem com essa história de adoção. Olha nossa idade. Adotar uma criança agora seria no mínimo irresponsável e...".

"Você tem merda na cabeça?", ela perguntou. Conseguia me surpreender a cada frase. "Merda?". "É, merda.". "Por quê?". "Que porra é essa de adoção?". "Você acabou de falar em adotar.". "Você tem merda na cabeça.". "Você acabou de falar em adotar uma criança.". "Que criança?". "Criança. Uma criança como essas daí que você fica olhando.". "Quem falou em criança?". "Se não quer adotar criança, que merda você quer adotar?". "A praça.".

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A sete chaves

É difícil conviver com as coisas que guardamos, né?

Eu costumava dizer sempre as coisas que eu sentia. Não gostava de guardar nada pra mim. O mais importante sempre foi ser sincero comigo e, por isso, eu mantinha a verdade sempre fora de mim. Como eu poderia me envolver com as pessoas, conhecer pessoas, fazer amigos e afins sem lhes contar verdades?

O que eu sentia, meus defeitos, meus sonhos, tudo saía de mim do jeitinho que havia entrado.

Guardei apenas uma coisa. Uma coisinha só. Eu pensava que seria melhor guardar isso para mim, já que era algo que me tornava vulnerável demais. Então guardei.

Não era algo ruim, era algo muito bom. Me fazia mal no começo, porque eu afirmava a mim mesmo que era mentira e pensar assim contradizia o que eu mais prezava em mim. A verdade parecia um câncer entupindo meu corpo. Um câncer entupindo a minha alma.

No primeiro mês me doía, no segundo também. No terceiro eu quase me convenci de que era verdade e no quarto me convenci. No quinto fingi que era mentira de novo. No sexto, sétimo e oitavo continuei teimando.

Ainda não havia chegado o nono mês quando me convenci de vez e resolvi parar de ser teimoso. Já era hora de colocar isso pra fora. Era hora de contar a todo mundo o que eu sentia e, hoje, eu tenho certeza que todos já sabiam. Tenha certeza também que todos já sabiam dessa minha luta em negar as coisas, aceitá-las, escondê-las e por fim, confirmá-las.

Decidi então que eu deveria contar mesmo. Me muni com todas as energias que eu tinha e que não tinha. Peguei meu almoço e corri para onde todos estavam.

Tudo aconteceu num dia muito quente e eu passava muito mal no calor. No horário em que decidi correr para contar o que sentia, estava começando a passar mal, mas eu já tinha me armado com toda a vontade e a determinação do mundo. Parecia que eu cruzava o inferno. Parecia que eu subia o inferno para chegar ao céu de vez. Eu já podia sentir todo o peso do mundo, que carreguei em meus ombros por nove meses, se desfazendo. Alguma coisa em mim já começava a esboçar o maior sorriso de alívio do universo e eu já pensava no que faria logo a seguir. Deveria abraçá-la? Será que se eu chorasse de felicidade em finalmente dizer tudo o que eu queria, seria legal? Ou ela se assustaria? Será que eu deveria simplesmente tomar um copo d'água já que aquele sol e a subida naquela ladeira sem árvore alguma, ao meio dia, estavam me derretendo e acabando com a minha roupa limpa e meu cabelo recém lavado?

Eu já podia vê-la ali de longe, já estava falando em voz alta as três palavras que ela esperou tanto para ouvir.

Já estávamos de frente um para o outro. Finalmente. Ela mexia em seu bolso, impacientemente, esperando me ouvir dizer aquela verdade reservada e protegida por tanto tempo. Precisei de alguns segundos, precisei respirar fundo. Quando terminei de inspirar, surpresa! Senti um leve gosto de ferro e tudo ficou preto. Não sei dizer o que era, foi tudo muito rápido. Algo muito estranho bateu em minha boca em frações de segundos.


Legal.


Eu só queria dizer "Eu te amo".