As nuvens como torneiras pingando. A típica atmosfera fúnebre. A chuva quase não nos molha. Só está aqui para o cenário. E é tão irritante quanto uma torneira pingando no metal. O som baixo, mas presente. Contei umas vinte pessoas, um pouco mais. São abutres, corpos revestidos de luto.
O preto, a cor padrão, a cor da morte. Não era pesar que ele representava. Era confusão. Qual será a dose de tristeza necessária que precisava ser percebida? Choro ou quietude? Lágrimas e soluços seriam suficientes? Imagino que era o que pensava esse bloco negro. Óculos escuros, lenços em mãos, rostos mórbidos. Não sei por que insistiam em se parecer com o morto.
A procissão continuava a passos lentos. Os saltos de sapatos sendo retirados bruscamente dos paralelepípedos, as fotos amareladas de outros moradores do local, fincadas em pingentes, assistiam ao teatro. O som de sapatos de homens que celebram enterros e casamentos com as mesmas roupas deslizando nas pedras. Estranho. Chegamos enfim ao túmulo da família.
Um alvoroço se estendeu à minha frente. Abrindo caminho pelo povaréu, cheguei ao tumulto. O túmulo estava violado. Segui um rastro de terra que parecia ser perceptível só a mim. Ele se estendia até as passarelas de outros túmulos. "Aqui", eu gritei. Aos meus pés estava a ex-mulher do defunto, morta meses antes. Seu vestido estava levantado até a altura da cintura, as pernas estiradas em direções opostas. As pessoas se aglomeravam aos poucos, todas perplexas.
Meu olhar se encontrou com o do um dos filhos dos mortos. Veio correndo até o local. O único problema é que ele era um dos quatro que estavam segurando o caixão do defunto fresco. Assim, o objeto fúnebre perdeu o equilíbrio dos pedestais humanos restantes. O morto rolou. A chuva já estava mais forte. O rosto lívido estava cheio de lama, com fios de cabelo grudados na testa. Agora ele sorria.
domingo, 26 de julho de 2009
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