Observação: A semelhança com Andrea, do livro Hell (Lolita Pille) é inevitável.
A borracha toca a palma da minha mão. Encaixa perfeitamente. Eu o seguro, praticamente empunhando-o. Foi feito pra mim, eu sinto isso. Forço pra frente. O motor sossega. Tiro a mão do câmbio e retorno ao volante, que é meu principal foco nesse momento. Já passa da hora em que a rua é bonita aos olhos. Agora é o mundo real. Pelo vidro vejo os tipos. Prostitutas, bêbados e outros que encontraram um jeito de viver a vida intensamente são iluminados pelos faróis. Eu viveria como eles. Mas tenho uma reputação a manter.
Diminuo a marcha. Gosto de contemplar a noite. Esse lado da cidade. Esses exemplos vivos do que há de mais podre no ser-humano me fazem bem. Sinto sinceridade exalando de seus corpos imundos. O esfarrapado, com sua barba cheia da saliva que escorre da sua boca a cada vez que balbucia qualquer besteira; a garota que vende o corpo e deve ter mais de um quilo de esperma no estômago; o vendedor de qualquer entorpecente vindo de merda de cachorro; o desespero do comprador, que tem suas veias saltadas, os olhos implorando por mais uma dose. Eles me fascinam.
As luzes da rua ressurgem. Sinto os olhos ardendo. Minha garganta e maxilar se contraem em sincronia. Parece que o álcool das últimas trinta horas encontrou seu caminho. Abro a janela. O atrito entre a borracha e o vidro me arrepia. Minhas costelas agora são puxadas para dentro, meu abdômen rígido. Despejo tudo que estava sujando meu organismo no chão. Até que o retrato ficou bonito para um vômito. Agora vejo que parei ao lado de uma fila. Deve ser uma boate. As pessoas me encaram, comentam. Eu sorrio para elas. Patéticas.
Não ligo pro líquido escorrendo pelo meu queixo. Devem me conhecer. O cara que, junto com minha mãe, gerou o espermatozóide que agora é esse cara todo vomitado comanda a maioria das empresas dessa cidade. Hoje ainda é o dia em que essas boates cobram mais barato. Pobres coitados. Aposto que amanhã esse será o assunto entre esses acéfalos. O filho vomitado.
Parecem uns anunciantes de marca de roupa. Esses ingênuos pagam para andar com logotipos por aí, fazendo a publicidade à custa deles mesmos. Aposto que mal têm o que comer em casa. São daqueles que se lamentam quando a família está com dificuldades. Eles deixam de sair uma ou duas semanas. Se entra algum dinheiro, aqui estão eles na fila, de novo. Eu conheço a minha irrelevância na sociedade. Sou um pedaço de merda endinheirado andando por aí. Sei que meu papel é consumir a maior quantidade de substâncias tóxicas que meu corpo aguentar. E só. Eles são menos irrelevantes que eu. Fazem a máquina andar. São o rebanho social.
Devem ser os que acham a política uma merda; que desejam o fim da matança dos animais; que acreditam em governos imperialistas; são contra a violência e à favor da igualdade social. Hipócritas de merda. E continuam na imobilidade, na passividade. Esses bostas nunca fizeram nada para lutar pelo que tanto desejam. Meu sangue borbulha ao pensar nisso. Cuspo o resto amargo que continua se misturando com a minha saliva. Que se fodam.
Dou ré no carro, volto alguns metros. A mão que está na marcha quase treme de ansiedade. Ajeito meu terno feito pelo Lorenzo. A mãe dele era cega e ensinou-o, quando garoto, a costurar. Não me emociona em nada. Grande Lorenzo. Uma bicha que faz ótimas roupas sob medida. O carro agora está de frente para a fila. Eles devem estar achando que vou sair para ir de encontro a eles. De certa forma, sim. Mas não vou sair. Quando vejo, já estou a alguns metros de cinco deles. O parachoque do carro acerta todos. Strike. Pelo desespero dos que sobraram, devem achar que sou um psicopata. É lindo. Saio do carro. A gritaria irrita meus ouvidos. Melhor passar para a parte burocrática. Fazer com que isso não apareça nos noticiários amanhã.
- Alô, pai?
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
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Odiei pq descobri q nao sei fazer narrativa
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