quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Retrato

Hoje eu desenhei um retrato sem rosto. Quero dizer, ele devia ter um rosto, mas a face no papel continuava branca-virgem. O desenho era de uma mulher em um parque. Ela era ruiva (falso, não que isso mude alguma coisa no quadro, mas era cabelo tingido) e usava um vestido amarelo. A mulher olhava para o céu azul e para as nuvens brancas como a neve, o que ela pensava eu não sei. Nunca soube. Nunca saberei. E isso me mata por dentro cada vez que eu olho para esse maldito retrato sem rosto. Deve ser por não saber o que ela pensava que eu não consiga desenhar o rosto dela. Como você pode passar para o papel alguma coisa que não pode explicar? Talvez com palavras inexatas perdidas numa frase sem sentido seja possível explicar. Agora o retrato está riscado, arruinado. Gastei um tempo que nunca poderei recuperar desenhando o que eu achei que seria a perfeição, mas só encontrei erros. Erros meus. Quando paro para pensar, percebo que aquele retrato não era sobre a mulher ruiva, era sobre mim. E eu não consegui me completar, eu não sei como. Depois de hoje eu nunca mais vou desenhar, ou pelo menos até saber quem eu sou, mas é mais otimista dizer que será nunca mais. O retrato está amassado, no lixo. Não preciso de um lembrete para tentar me encontrar. Basta um espelho, e olhar para o vazio dentro dele.

Minha certeza é o ódio que carrego pela falsa ruiva que vadiava em um parque e me fez repensar toda a minha vida.

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