quarta-feira, 4 de novembro de 2009

recompensa

Então é isso. Eu e você. No fim do seu tempo, sou a única pessoa que lhe resta. Sempre esperei o momento em que poderia te dizer tudo. Em que minhas frustrações e revoltas fossem direcionadas para a pessoa que foi a causadora das mesmas. Desde a minha primeira memória de consciência, eu lembro de você. Lembro de como mandava em mim. De como eu era sua propriedade. Mas eu sempre me perguntei "Desde quando?" Quem disse que sou seu? Deus? Justiça? E por que esse deus ou essa justiça nunca me perguntaram sobre os meus direitos? Somos livres, certo? E por que sempre fui seu?

Agora estamos aqui. Você dependente de mim. O papel inverso. É estranho te imaginar não me dando aquelas ordens, me dizendo o que eu tinha que fazer e dando sempre o argumento de que eu tinha que fazer porque você é o que você é. Patético. Quando íamos caçar, minha mão tremia de ansiedade pra que eu, sem-querer, acertasse sua cabeça com uma bala. Mas não podia, claro. Havia ela. Sua tão amada esposa. Passiva. Não digo que era pela religião, já que você era muito mais crente nessas besteiras do que ela. Ela era um doce, claro que era. Esposa e filha de Deus. Quem poderia desejar algo melhor? Eu poderia. Eu desejei. Todas as vezes em que os olhos lacrimejados me fitavam enquanto você me repreendia. Fosse com as palavras, fosse com as mãos. Ela sabia que você estava errado. Eu via isso.

Ao menos pude me desfazer de vocês quando ela se foi. Confesso que fiquei com pena quando te trocou por um frentista de posto. Não por ser frentista. Por ser outro homem que não você. Mas eu dava razão a ela. Se eu não te aguentava nas poucas horas em que te via, imagino ela, que tinha que deitar em você e satisfazer a cama.

Mas chegou a hora, pai. Ou você, ou eu. Aprendi a não buscar vingança. Não guardo rancor por ninguém depois disso. O problema é que meu ódio por você vem de antes. Você pede por uma exceção. Imagino que você não esteja ouvindo. Imagino que queira ir lá fora, queira brincar com seus colegas, queira viver. Queira ter tudo que eu não tive. Quer liberdade, não? Pois essa é minha vingança. Sempre achei que o desumano seria o contrário. Desligar os aparelhos pelos quais o fio da esperança está conectado. Espero que esteja me ouvindo, mesmo no seu estado quase vegetativo. Não pai. Você não pode brincar onde quer que seja. Você não pode se libertar. Os aparelhos continuarão ligados. Quer saber o motivo? Simples. Uso o mesmo argumento que sempre usou. Porque sou seu filho.

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