domingo, 24 de janeiro de 2010

A torre

Já estou sendo deportado. Mal cheguei no país, já estou fodido.

Não entendo, meus desfiles noturnos em Campinas sempre deram grana, eu era sempre a melhor mesmo sem a altura desejada pelo público. Lembro-me do show que dei com aquela roupa de grife, a avenida inteira parou para me ver, todos uivavam alucinados, me senti pronta para uma caçada no centro da cidade. Adolescentes lançavam-me caretas, acho que nunca viram a Estrela de tão perto, eu brilhava, adorava aquela roupa.

Foi com ela que um garanhão me agarrou por trás e fez tudo que podia, foi ele que abriu um novo caminho para meus desfiles. Saí da minha agência de meninas para se juntar à agência de meninas importadas dele. Era maravilhosa a chance, saí pela primeira vez do chão para o céu, eu era a Estrela no céu.

Quando cheguei ao chão novamente, nunca vi algo brilhar tanto quanto aquela torre que era o símbolo do país. Eu e as meninas tivemos que trocar de roupa no estúdio. Foi aí que perdi o meu amado conjunto de grife, mas tudo bem, eu estava em um sonho.

Após uma semana de desfile, vi que tinha esquecido algo em Campinas, minha reputação. Fui uma merda, apenas três shows em uma semana e uma carta. A carta que me levaria ao começo, umas pessoas foram me visitar na agência, só entendi quando falaram “Evan Estrela” no sotaque daquela bosta de país, e para que levar algemas?

Que se foda, vou voltar para minha cidade, não há como brilhar tanto quanto brilha essa porra de torre.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Redenção

Anne Frank era assim chamada em homenagem à famosa escritora do Diário de Anne Frank, por vir de uma longa linhagem judaica, sua família achou que seria uma honra chamar a filha do mesmo modo que uma heroína para seu povo. Sua melhor amiga também se chamava Anne, porém todos a chamavam de Annie Hall, porque seu pai era um grande admirador dos filmes de Woody Allen.

Hoje é aniversário de Anne Frank, ela completa seu oitavo ano de vida, e toda a sua família espera uma grande festa, inclusive seu tio Arthur, um grande general que atualmente está aposentado.

Na verdade, tio Arthur foi forçado a se aposentar do exército, pois era extremamente cruel com seus prisioneiros de guerra, e muitos de seus crimes haviam vazado para a imprensa. Mais importante que isso, Arthur era rico, e toda criança espera um grande presente de parentes ricos.

Recentemente foi publicado que na verdade o General pode ter sido retirado por outro motivo. Um senador havia pedido que ele matasse a família de um adversário político, incluindo a sua filha pequena. Embora nunca tenha tido problemas com relação a tirar a vida de outro ser humano, tio Arthur não conseguiu matar a pequena garota que encarava ele com grandes olhos castanhos. Por isso, o senador cobrou alguns favores e conseguiu tirar o general do exército, antes que o seu pedido fosse exposto aos jornais.

Já de noite, os convidados chegavam para festa, e Anne brincava com Annie na sala, até a hora que tio Arthur chegou. Antes que começassem as perguntas embaraçosas, o general prometeu que o seu presente seria entregue depois que o bolo fosse cortado, e nenhum minuto antes. O mais curioso, entretanto, foi o olhar que tio Arthur lançava para o pai de Annie Hall. Era o atual senador, e junto com ele a pequena garota de grandes olhos castanhos que fez com que ele fosse retirado do exército.

General Arthur ficou boa parte da festa falando no telefone. E então, o bolo foi cortado.

Todos se viraram para o general, esperando a grande surpresa. Com olhos vidrados e um estranho sorriso no rosto, tio Arthur disse: Vocês acreditam em redenção?

O relato oficial diz que naquela noite seis tiros foram ouvidos na casa de Anne Frank, e dois corpos foram achados. Um era de uma pequena garota de olhos castanhos, o outro completaria oito anos de vida, se tivesse vivido mais cinco minutos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Covardia

Vi sua foto sem querer ontem lá no mural de recados de uma amiga minha. Eu tinha um recado para ela, por isso fui até o mural.

Faz alguns bons meses que não vejo seu sorriso. O sorriso mais lindo que eu já tive. Ontem quando vi aquele brilho, recuei. Amassei meu recado e saí de lá correndo com um peso enorme no peito.

Voltei para a minha sala, sentei novamente em frente ao meu computador e respirei fundo várias vezes para ver se a dor passava. Eu chorei. Uma lágrima só, mas chorei. E aí doeu de novo, como quando respondi o último recado que você deixou em meu mural.

Que idiotice essa coisa de mural de recados. Se eu tivesse mandado uma mensagem para o celular da minha amiga, não teria visto sua foto. Não estaria me sentindo assim. Não sei nem o motivo de me sentir assim já que tenho feito tantas coisas e me curtido tanto daquele jeito que aprendemos a nos curtir depois que perdemos alguém e superamos.

"É, parece que não superei". Juro que pensei nisso e hoje quis te ver de novo para dizer o quanto tem sido difícil não viver contigo, mas parece que isso é coisa de gente covarde. E covarde, eu não sou.

Fui deixar um recado para a minha amiga de novo. Fui tentar mais uma vez e consegui. Já haviam tantos recados novos lá que o seu não era visível, então foi bem fácil e confortante poder fazer o que eu tinha que fazer sem ter que encarar seu sorriso estampado ali, me enfrentando e ironizando a minha cara.

Foi tão confortante que acreditei ter te superado mais uma vez. Senti uma segurança e uma força interna enorme. Parecia que ver sua foto de novo não me faria nenhum mal, então fui testar. Levantei todos os recados e cheguei no seu.

Lá estava aquele seu sorriso. Não estremeci, me desafiei a ler suas palavras:

"Blá blá blá. Saudade. Beijo"

Por algumas várias horas eu fiquei feliz. Até agora. Acabei de perceber que li como se fosse para mim aquele seu recado. Acreditei por alguns momentos que era minha a saudade que você sentia. Covarde.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Chego e parto

Seu dia já estava terminando. Era hora de se sentar e ler os textos e as notícias que haviam se acumulado durante o dia que ela passou fora de seu quarto, ouvindo músicas e se lamentando por ter permitido a entrada e a saída de todas as pessoas que haviam deixado profundas cicatrizes no amago de sua alma, ou daquilo que ela acreditava ser a tal "alma" que todos diziam ter.

Não soa como um bom dia e nem como pensamentos bons, não é? Ligar seu computador também não lhe trouxe coisas boas. Notícias sobre tragédias, políticos, esportistas e seus escandalos... Nada de útil. Nada de agradável.

- As notícias podiam ser todas felizes, como escreveu uma vez aquele cronista. Eu gostaria de ler que o marido de uma mulher triste trouxe flores à ela depois voltar do trabalho ou que o filho mais novo daquele casal aprendeu a ler alguma palavra nova e difícil...

Talvez abrir o blog daquele artista famoso, que despertava toda a admiração que ela poderia ter por alguém, lhe traria boas palavras. Palavras de conforto que valessem o dia perdido.

Eu sou um aeroporto. Na verdade, todos nós. (...) Eu sou um aeroporto. Chegadas e partidas são a única certeza na minha vida. (...) E você, aeroporto em greve, tá esperando o quê, olhando pra cima?

- Que confortante.

Sentiu como se somente ele, o escritor, a entendesse de verdade. Leu o texto mais algumas vezes e sentiu uma enorme pena de si mesma por se sentir estagnada como um aeroporto.

Algumas boas semanas depois, a menina continuava se sentindo como naquele dia em que leu o texto sobre sermos como aeroportos, mas não estava pelas bandas daquele site. Estava no Orkut vendo quem havia lhe visitado. Eu sou um aeroporto. Chegadas e partidas são a única certeza na minha vida.

- De novo essa frase?

Já era hora de dormir. Sua cota de pensamentos já havia se esgotado, mas algo lá no fundo de sua cabeça lhe pedia para ler mais uma vez aquele texto e pensar mais um pouco.

Eu sou um aeroporto.

- Aeroportos não são pessoas, são lugares. Nós não podemos ser aeroportos, aeroportos são lugares, são parados e só assistem as coisas acontecendo.
Eu não posso ser um aeroporto, parado. Eu não sou parada. Eu sou um avião. Todos nós somos aviões. Aeroporto é apenas um cenário. Ele até pode ser a vida, mas não as pessoas.

E você, aeroporto em greve, tá esperando o quê, olhando pra cima?

Aeroportos não olham pra cima. Aviões sim.

- Como posso ser um aeroporto que olha pra cima? Eu sou mesmo é um avião, apontado para cima. Não preciso mais olhar, posso tentar chegar lá em cima.

Um aeroporto não nota a diferença do começo e nem do fim de um dia.

- É. Sou mesmo um avião. Pouso no aeroporto, marco meus pneus em suas pistas. Marco meu trajeto no céu. Todos me marcam, mas eu não preciso ficar parada como um aeroporto. Posso crescer com as marcas e apontar cada vez mais o meu nariz pra cima. Um aeroporto não.

Seu dia começara agora.

sábado, 9 de janeiro de 2010

o amor tem dessas

Depois dessa idade o tempo desacelera. Os 40 e os 60 se igualam. As experiências não são de acelerar o coração e as decepções não fazem mais você ter vontade de se atirar pela janela. E eu tinha ela. É. Tinha. Eu não a amava e nem ela a mim. Nós nos possuíamos. Sabíamos disso. Mas ela era daquelas débeis que procuram aventuras para se destruírem aos poucos. E eu era cansado. Se ela procurava por destruição, tinha vindo ao lugar certo.

Viver a dois era difícil. O desejo vinha só do meu lado. Mas era gracioso o modo como ela se despia às escondidas e vinha ao meu encontro já nua. Uma consideração tamanha fazer isso por um velho como eu. Depois tirava as minhas roupas e me deitava na cama - atualmente era o único lugar no qual minha coluna não rejeitava o sexo. E eu ia por cima dela. Me acolhia, ajudando com os movimentos. Seu olhar alternava entre o teto e minha boca, sempre vazio. Eu suava. Esbaforava feito um cachorro velho enquanto ela ficava com olhos carinhosos para mim. Era uma santa. A piedade presente naquele quarto grudava nas paredes. Sexo por pena. Parecia sexo com a minha mãe quando ela me ajudava a desengasgar após um tropeço da minha respiração descompassada. Eu não aguentava. Perdia o tesão ao pensar na minha sofrida mãe. Era sempre a mesma história. Mesmo assim ela me consolava, passando as mãos pela pele enrugada das minhas costas. Uma guerreira misericordiosa. Eu me sentia um derrotado em meu próprio campo de batalha.

Mas nós sempre tentávamos novamente. Não havia intimidade, nem coragem o suficiente para pedir que ela não fosse tão maternal. Eu sabia que esse era o único jeito de ela suportar esse velho. Uma noite, então, eu me segurei. Tentei não resgatar memórias da infância. Mas toda vez que abria os olhos podia vê-la ali. E me sentia sujo. Voltava a fechá-los, fazendo esforço para manter o fluxo de sangue no lugar devido e afastando os pensamentos nojentos da minha frente. Meus músculos do rosto contraíam-se a ponto de darem a luz a novas rugas. Meu corpo travava uma luta insana entre prazer e aversão. Só pude ouvir, ao longe um "Algo errado, querido?" antes de vomitar no rosto dela.

Desencaixei nossos corpos e sentei ao pé da cama, como qualquer marido impotente faria, envergonhado. Dessa vez suas mãos não vieram ao meu encontro, com suas palavras confortantes. O silêncio doeu por alguns longos segundos. Apenas uma pergunta o quebrou: "Faz de novo?". Me puxou para junto dela. Com olhos curiosos, foi invadindo minha boca aos poucos com seus dedos, chegando ao fundo da minha garganta. Senti minhas costelas contraídas e a água nos olhos enquanto despejava sobre ela todo o meu carinho. Desde então, sou eu quem lhe tiro as roupas.

Presente

Eu comprei um colar de prata, com um pingente de rubi hoje, nunca comprei nada mais
caro em toda a minha vida. Mas valeu a pena, era o presente que eu tinha prometido para ela durante toda a nossa relação. O sorriso no rosto dela ao ver o colar valeu o preço, e a noite repleta de carícias e afins valeu ainda mais. Conversamos bastante aquela noite, sobre eu, sobre ela, sobre nós, sobre tudo o mais em que pensamos, e depois novamente nos amamos. Eu estava exausto, só conseguia pensar em ficar deitado e respirar. Enquanto eu estava deitado do lado dela eu não tinha nada no que pensar. Era o nirvana. Era uma sensação intensa, inebriante, intoxicante e acima de tudo muito viciante. É como se fosse as asas de Ícaro, você só percebe que está muito perto do sol quando se queima, e no caso do êxtase você só percebe como ele é profundo quando ele acaba. Há alguns minutos tem um agradável silencio no ar, não há necessidade de palavras quando pode se mostrar com gestos. Ela me olhava direto nos olhos, mas eu estava distraído, eu queria voltar ao nirvana. Até que de repente, como um impulso nervoso ao acordei novamente, mas agora ela já dormia. Dormia com as costas viradas para cima, e a cabeça próxima ao meu ombro direito. Agora eu que olho fixamente para ela, não consigo acreditar no quanto ela é perfeita, como seus cabelos moldam o seu rosto, como os seus lábios são tão vermelhos e como os seus olhos são tão brilhantes, só depois de alguns minutos olhando para ele é que eu percebi que ela estava acordada. Ela virou novamente, agora estava deitada no meu braço, ela estava tão perto que eu podia ouvir a sua respiração. Eu abri a minha mão, e coloquei no meio do seu torso, logo acima do umbigo, e pude senti-la. Eu podia contar os batimentos de seu coração, estavam quase no mesmo ritmo que o meu. Naquele momento eu tinha tudo. Fomos embora na manhã seguinte, viajar sem destino. Não sei para onde estamos indo nem por onde já passamos, não existimos mais no passado nem no futuro. Apenas no presente com um rubi vermelho-sangue pendurado no pescoço dela.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lábios

Chovia, é a unica coisa que eu consigo lembrar daquela noite que não tenha sido causado ou que não seja uma consequencia da presença dela. Ela usava um vestido branco de alças simples, que acabava na altura dos joelhos, e estava com seus pés descalços. Eu beijava o pescoço dela na varanda enquanto minhas mãos seguravam sua cintura. Quando a chuva parou, uma alça do seu vestido já descia pelo braço. Fomos para o sofa. Ela sentou por cima de minhas pernas enquanto eu estudava o decote de seu vestido. Ela já estava semi-nua agora e eu sentia cada centímetro do corpo dela, seus longos cabelos macios, seus labios vermelhos, os seios redondos e as pernas compridas e torneadas. Por um momento eu relembrei todo o tempo que levamos para chegar até aqui, os meses de enrolação sem saber ao certo o que queriamos, e mais importante se queriamos a mesma coisa. Toda a demora para finalmente estarmos juntos e então o que pareceu a parte mais longa, a espera de finalmente estarmos juntos e a sós. Eventualmente aconteceu, na verdade está acontecendo, mas pareceu demorar para sempre. Nunca havia um lugar em que pudessemos ficar juntos sem que alguém aparecesse. Mas esses pensamentos foram interrompidos bruscamente pelo fato de um par de coxas perfeitas estarem a cinco centimetros do meu rosto e quando finalmente as toquei, já não pensava mais nada. Agora estamos no quarto, e não existe mais nada que separe nos dois, pessoas, paredes ou roupas. Finalmente
podemos ser um e ao pensar nisso beijei-a no único lugar que faltava. Sua boca.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Puta cachorra foda

Os relógios de onde eu moro já marcavam 23h e eu estava me embalando para a tarefa mais chata: limpar o canil.

Nós viajamos há alguns dias para passar o ano novo fora daqui e de alguma forma, desde que saímos da cidade, eu me sentia uma nova pessoa. Parecia que a tal da “vida nova” que nasce com todos os anos novos realmente tinha chegado para mim.

Agora, uma semana depois, retornamos para casa. Em alguns momentos da virada do ano, me lembrei da Góya. Coitada, já estava velhinha e quem iria cuidar dela enquanto eu estivesse fora? As pessoas me perguntavam isso desde abril e me confundiam todos os planos. Realmente, quem iria cuidar da minha cachorra?!

Quando chegamos em casa, o tempo perdeu sua linearidade quando vi a Góya caída perto da porta da casinha dela. Saí correndo, pensei que ela tivesse morrido.

Gritei seu nome umas vezes e ela nem se mexeu, então tomei coragem e enfiei a cabeça na casinha. Ela estava meio largada e olhando a parede. O pote de ração estava intacto e o pote de água não estava muito perto dela.

Levei um pote de água perto da cabeça da cachorra e ela se levantou para beber. Nunca vi tantos goles sem intervalos para respirar. Coitada. Devia estar lá há um bom tempo. Chorei um pouco e o corpo dela começou a dar uns estalos, a fazer uns barulhos graves e muito estranhos. Achei que ela fosse devolver a água, então agachei atrás dela e segurei sua cabeça como faço quando alguém está bêbado e vai vomitar.

Fiquei ali um bom tempo pedindo para ela ficar bem e levantar, mas me assustei quando sua respiração mudou. É difícil descrever, mas tudo em seu corpo acelerou e começou a desacelerar gradualmente. Eu não sabia o que fazer, então fiquei ali, passivamente inútil e me sentindo a menor e mais impotente criatura do mundo. Acho que era a hora.

Acompanhei a respiração dela e falei tudo o que eu poderia falar. Fui soltando tudo mesmo, na crença de que ela poderia entender sim as minhas palavras. Alguns segundos depois que eu terminei de falar, ela parou de respirar.

Olhei mais perto a cara dela, pedi para que ela não fosse naquela hora. Ela voltou a respirar algumas várias vezes e quando parou de vez, seu coração ainda batia. Fiquei ali um tempo esperando ela voltar, mas ela não voltou.

Caramba, a Góya esperou a gente voltar para casa e me esperou entrar no canil para se despedir? Será que foi isso? Que puta cachorra foda! Pensei nas histórias dos cães mais famosos do mundo e sabe de uma coisa? “Marley e eu” é o caralho. Sou muito mais a Góya.

Pensar nisso me confortou de alguma forma. Lembrei que não terei que receber esta notícia de ninguém, porque eu estava lá. Lembrei que para mim que ela se despediu. Não foi para outra pessoa. Foi para mim, foi comigo, foi em minhas mãos. Ela me amava e eu era importante. Eu devia ser a pessoa mais importante para ela. Isso é grande demais!

- Preciso fazer algo bom agora, ela merece uma finalização de um adeus bem bonita! – pensei alto – Vou terminar de limpar isso aqui, ela parece um cachorro de mendigo. Vou tirar esses jornais, passar um pano e sei lá, acender um incenso.

Limpei o canil e pedi para a minha mãe encontrar um incenso bem bonito para a Góya. Não vou rezar, não acredito em Deus. Incenso deve ser coisa religiosa também, mas pelo menos é cheiroso e a doutrina de quem usa incenso é mais bonita, então vou acender um incenso mesmo.

- Proteção, parece bom.

Acendi o incenso e o coloquei na casinha, puxei a Góya mais para dentro, apoiei sua cabeça em um pano vermelho e a cobri com um outro xadrez. Agora sim parecia uma cachorra querida!

Dei meu último tchau e fechei a porta. Nada mais me prende por aqui. A Góya, mais uma vez, engoliu todos os meus problemas. Puta cachorra foda!