Os relógios de onde eu moro já marcavam 23h e eu estava me embalando para a tarefa mais chata: limpar o canil.
Nós viajamos há alguns dias para passar o ano novo fora daqui e de alguma forma, desde que saímos da cidade, eu me sentia uma nova pessoa. Parecia que a tal da “vida nova” que nasce com todos os anos novos realmente tinha chegado para mim.
Agora, uma semana depois, retornamos para casa. Em alguns momentos da virada do ano, me lembrei da Góya. Coitada, já estava velhinha e quem iria cuidar dela enquanto eu estivesse fora? As pessoas me perguntavam isso desde abril e me confundiam todos os planos. Realmente, quem iria cuidar da minha cachorra?!
Quando chegamos em casa, o tempo perdeu sua linearidade quando vi a Góya caída perto da porta da casinha dela. Saí correndo, pensei que ela tivesse morrido.
Gritei seu nome umas vezes e ela nem se mexeu, então tomei coragem e enfiei a cabeça na casinha. Ela estava meio largada e olhando a parede. O pote de ração estava intacto e o pote de água não estava muito perto dela.
Levei um pote de água perto da cabeça da cachorra e ela se levantou para beber. Nunca vi tantos goles sem intervalos para respirar. Coitada. Devia estar lá há um bom tempo. Chorei um pouco e o corpo dela começou a dar uns estalos, a fazer uns barulhos graves e muito estranhos. Achei que ela fosse devolver a água, então agachei atrás dela e segurei sua cabeça como faço quando alguém está bêbado e vai vomitar.
Fiquei ali um bom tempo pedindo para ela ficar bem e levantar, mas me assustei quando sua respiração mudou. É difícil descrever, mas tudo em seu corpo acelerou e começou a desacelerar gradualmente. Eu não sabia o que fazer, então fiquei ali, passivamente inútil e me sentindo a menor e mais impotente criatura do mundo. Acho que era a hora.
Acompanhei a respiração dela e falei tudo o que eu poderia falar. Fui soltando tudo mesmo, na crença de que ela poderia entender sim as minhas palavras. Alguns segundos depois que eu terminei de falar, ela parou de respirar.
Olhei mais perto a cara dela, pedi para que ela não fosse naquela hora. Ela voltou a respirar algumas várias vezes e quando parou de vez, seu coração ainda batia. Fiquei ali um tempo esperando ela voltar, mas ela não voltou.
Caramba, a Góya esperou a gente voltar para casa e me esperou entrar no canil para se despedir? Será que foi isso? Que puta cachorra foda! Pensei nas histórias dos cães mais famosos do mundo e sabe de uma coisa? “Marley e eu” é o caralho. Sou muito mais a Góya.
Pensar nisso me confortou de alguma forma. Lembrei que não terei que receber esta notícia de ninguém, porque eu estava lá. Lembrei que para mim que ela se despediu. Não foi para outra pessoa. Foi para mim, foi comigo, foi em minhas mãos. Ela me amava e eu era importante. Eu devia ser a pessoa mais importante para ela. Isso é grande demais!
- Preciso fazer algo bom agora, ela merece uma finalização de um adeus bem bonita! – pensei alto – Vou terminar de limpar isso aqui, ela parece um cachorro de mendigo. Vou tirar esses jornais, passar um pano e sei lá, acender um incenso.
Limpei o canil e pedi para a minha mãe encontrar um incenso bem bonito para a Góya. Não vou rezar, não acredito em Deus. Incenso deve ser coisa religiosa também, mas pelo menos é cheiroso e a doutrina de quem usa incenso é mais bonita, então vou acender um incenso mesmo.
- Proteção, parece bom.
Acendi o incenso e o coloquei na casinha, puxei a Góya mais para dentro, apoiei sua cabeça em um pano vermelho e a cobri com um outro xadrez. Agora sim parecia uma cachorra querida!
Dei meu último tchau e fechei a porta. Nada mais me prende por aqui. A Góya, mais uma vez, engoliu todos os meus problemas. Puta cachorra foda!