quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Vida de Peixe

Cheiro de peixe no ar... Olhei ao redor, barracas, vendedores velhos, frutas podres, pastéis malcheirosos.
Foi quando me toquei que eu era mais uma sardinha empilhada em uma das tendas que me circundavam. Entrei em pânico e logo percebi quão ínfimo isso era, eu era um peixe, um peixe morto.
Bem, a última coisa de que me lembrava além do porre da última noite era eu acompanhando um cara que conheci no bar até o seu carro. Abaixei-me para pegar alguma coisa e a cena acabava. Qualquer tentativa de avançá-la era seguida por um torpor tão forte em meus olhos de peixe que desisti. O sonho estava divertido e a feira movimentada, apesar do odor de podridão que eu exalava. Uma figura estranha deparou-se sobre a tenda: luvas, calça social e um rosto comum. Ele pediu alguns peixes e logo eu estava emabalado e não muito depois prostado sob uma tábua de carne.
Deixou-me sozinho por alguns minutos e pelo meu ângulo de visão observei parte da cozinha: utensílios de cozinha, fogão, faca ensanguentada, jornal repousado sobre a mesa e as chaves de seu carro, braço humano fatiado ao lado da faca. Exaltei-me, aquilo não era comum era? Mesmo num sonho, antes que eu pudesse terminar minha tese sobre a aleatoriedade dos sonhos ele usou da mesma faca para me fatiar. Eu era agora um guizado que flutuava na água quente. Colocou-me no prato numa porção ousada, e agora com uma nova vista, deparei-me com um homem, ou algo parecido com um homem, embalado por sacos plásticos. Ele era definitivamente eu. Quando havia me abaixado para pegar as chaves dele, me sequestrou. Me estuprou. roubou meu orgulho, minha vida, e me comeu duas vezes.
Merda de vida.

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