terça-feira, 17 de novembro de 2009

questão de gosto

Eu precisava de um café. Tomei coragem e fui até a cozinha gelada, que por ironia eu tinha mandado entupir de pisos frios até nas paredes, pra ficar mais “fresquinha”. Idiota. Peguei uma panela qualquer e enchi de água. Esperava pelas pequenas bolhas que se desprendem do metal e começam a subir à superfície – o que identifica o ponto certo da água pra um bom café – quando pensei que precisava mesmo é de um banho. Ainda poderia aproveitar a água, mas não nessa temperatura. Aumentei a intensidade do fogo e aguardei até que as bolhas gigantes estourassem, espirrando água fervente pelo chão.

Aos cuidados de um pano, levei meu pequeno vaporizador metálico para o banheiro, tomando cuidado para não derramar nada. Fechei a porta e depositei a panela em cima da pia. Meus olhos me fitavam do espelho. Eram lindos. Dançando, o vapor da água ainda esperava alguma atitude minha. Sedutor. Liguei o chuveiro. Água quente também saía dele. O pano de lado e minha mão no metal. O ardor inicial era agradável, mas depois a pele dos meus dedos fritou. Retirei a mão, vermelha, deixando alguns pedaços mínimos dela no metal em ebulição. Com meus dedos ainda latejando de dor, despejei o caldo infernal. Sobre mim. Me envolveu feito um cobertor, até eu olhar novamente para o espelho e me ver inteira, em chamas. Meu rosto escarlate começava a formar bolhas. Elas foram crescendo e estourando, misturando sangue e água, que escorriam pelos meus seios e terminavam no chão. Meu olho direito quase não conseguia enxergar-se novamente no espelho. A água deve ter passeado mais por aquele lado e a cegueira começava. Parte do meu couro cabeludo já não existia. As queimaduras eram para sempre. Minha beleza estava destruída, incompleta. E por fim, perfeita.

Um comentário: