quarta-feira, 11 de novembro de 2009

conversa de bar

É notável a quantidade de vezes em que os seres-humanos pensam que são realmente semelhantes aos seus iguais. Às vezes percebemos nossas diferenças. E nos damos conta de quem realmente somos. E foi assim que tudo se deu.

- Eu preciso de alguma coisa pra fazer.
- É cara, também acho. Precisa conhecer gente nova. Gente mais intelectualizada, comprometida com alguma coisa.
- Pois é.
- Sabe, tem esse grupo que eu faço parte, é uma ONG. Só gente de nível, que ajuda a comunidade, faz o bem, sabe? Acho a sua cara, ainda mais você, que gosta de ajudar os outros.
- Desde quando eu gosto de ajudar os outros?
- Como assim? Não gosta?
- Não.
- Impossível não gostar. E a sensação de bem-estar que te dá? Isso não é bom?
- Prazer por prazer, prefiro pagar uma puta pra isso. Mais barato e rápido.
- Não fala besteira, cara.
- É tudo questão de auto-satisfação. Não existe isso de altruísmo no mundo. Tudo tem seu fim egoísta.
- Falou besteira.
- Me diz aí alguma ação humanitária que te digo o fundo real dela.
- Ajudar os pobres, que tal?
- Deixando de lado as crenças religiosas?
- É.
- Limpeza de consciência. Aumentar auto-estima. Achar seu valor no mundo. Só escolher um. E depois dizem que não dá pra estimar o valor de nós, humanos, né?
- E por que você vive então?
- Vivo pra mim e pra quem eu gosto. E pro que eu gosto. Se eu quiser ajudar as baleias, ajudo. Mas não vou me sentir melhor por isso. Só ajudei. Foda-se o que elas vão pensar de mim, se ficarão gratas. Ajudei pra passar o tempo. Como passo o tempo aqui com você.
- Ah, então agora você fica aqui comigo, bebendo, pra passar o tempo?
- Lá vem. Sabia que ia dar nisso. Você não entende como eu funciono. Eu te curto pra caramba. Beber cerveja com você e ouvir seus papos sobre igreja é muito bom. E pra passar o tempo. Não é isso que a gente faz a vida toda: espera o tempo passar? Colocar em palavras acaba com a magia da coisa, não é?
- Então se não surgir nada mais interessante, eu sou sua única opção?
- Eu não disse isso. Mas sim. Considere um elogio ou não, mas você é a coisa mais interessante que eu tenho pra fazer agora. E não estou dando valores nem fazendo comparações.
- É, cara. Bem que me disseram que você não era boa companhia.
- Ah, é?
- É. Que você era estranho e tal. Por isso não tem amigos.
- Poxa. Fico sentido.
- Tira esse seu sorrisinho da cara. Não precisa fingir que não se importa.
- Tá certo. Eu me importo. Me importo tanto que vou pedir outra garrafa pra gente. Pode ser?
- Tá.
- E você? Vive pra quê?
- Vivo pela vida, amigo.
- E eu não?
- Eu vivo para fazer a diferença. Eu vivo para tornar o mundo um lugar melhor para os que virão. Quero fazer minha parte.
- Desperdício de tempo.
- Mas você poderia fazer isso. Como você disse, só para passar o tempo.
- Tem razão. Começarei amanhã a dar a minha comida aos pobres. Mas primeiro, me deixa acabar essa cerveja.
- Não precisa zoar, eu sei que você não liga pra isso. Mas me diz aí, por que tanta falta de humanidade? É algum trauma?
- Além dos seus papos sobre deus agora vai dar uma de psicanalista? Não fode.
- É, bem que eu sabia que essa pós em psicologia não ia dar em nada.
- Mas voltando ao que perguntou, não é que eu não tenha esse espírito humanitário. Eu gosto de tratar outros seres-humanos do mesmo jeito que eu me vejo e vejo a todos nós: com desprezo. Somos a podridão do mundo. Aqueles que fodem tudo e depois querem consertar. Os que se iludem acreditando numa vida pós-vida e deixam isso reger suas experiências nesse planeta. Eu pouco me importo se vamos morrer e virar adubo ou se viraremos anjinhos gorduchos. O fato é que somos podres. Nossas emoções são mascaradas e conseguimos ser mais patéticos do que seríamos caso esse contrato social não existisse.
- Até que enfim você mostrou alguma emoção, amigo.
- É. Só isso consegue me alterar.
- Então você gosta de viver o momento? É como aquela corrente filosófica...
- Epicurismo. Não. Epicuro se achava rebelde. Fazia orgias e pensava ir contra as regras. Ele era só mais um dentre os outros. Também passava a vida procurando alguma coisa, assim como você quer “fazer a diferença”. Eu não. Só vivo. Faço o que me der vontade. Não necessariamente busco a felicidade, como fazia o filósofo. Não ligo de viver na tristeza. Não fujo dela.
- Se é assim, por que você não mata pessoas? Não estupra mulheres pelas quais sente desejo?
- Porque tenho ética. Não sou um animal irracional. Como humano carrego o fardo de ter consciência do que é certo ou errado, pelo menos pra mim.
- Não sei. Acho essa sua conversa mais aparência do que realidade. De se achar diferente, só isso.
- Não é.
- Então, de acordo com seu modo de vida, eu poderia fazer o que bem entender e você acharia normal.
- Não só normal. Acharia correto.
- Supondo que essa conversa esteja me irritando. Que você esteja me irritando e fazendo eu te achar um babaca, então eu poderia pegar essa cadeira em que estou sentado e acertá-la na sua cara?
- É um motivo.
- Então farei isso.
- Vá em frente.

Bebi um último gole amargo da cerveja, que nesse momento já estava quente. Ele tomava coragem, incrédulo quanto a minha passividade no momento. As pessoas do bar ao qual pertencia a mesa na calçada ainda não percebiam o que estava por vir. Tentei debochar da situação. Meu sorriso sarcástico foi interrompido por um pedaço de madeira mais consistente do que eu esperava. A pele do meu rosto dançou pelo ar, acompanhada dos respingos vermelhos que eram expulsos da minha têmpora. Gravidade zero. É assim. Meu corpo, então, jogado contra o asfalto. A parede como meu chão. Depois falam que descobrimos o verdadeiro sentimento humano quando ajudamos os necessitados. Quem nunca levou uma cadeira na cabeça não pode saber como é se sentir humano. Enfim um pouco de realidade.

(...)

- Ó meu deus, o que eu fiz?
Ele parecia desesperado.
- Libertador, não?
O sangue é salgado.

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