domingo, 22 de novembro de 2009

Coluna de Água

Eu estava sentado com o olhor focado em nada em particular. Uma gota caiu na minha frente. Isso me despertou. Essa gota pareceu se multiplicar, e várias gotas caiam em todos os lados. Eu estava completamente desperto, parecia estar conectado ao mundo que me rodeava por uma força maior. Essas gotas aumentavam, e logo que caiam eram substituídas. Não eram mais gotas, eram colunas de água. A água fria me tocava, me amava, me controlava. Eu vi que perto dos meus pés ela escorria pela terra fazendo uma trilha marrom. Era estranho, mas o marrom parecia vermelho. Aquela coluna que me possuia também possuia a terra aonde eu pisava, o barro nos meus pés é a prova disso. Eu olhei ao redor. A casa pegava fogo. Como podia pegar fogo com tanta chuva caindo diretamente sobre ela? Eu não sei, nunca soube. Ela ainda estava lá dentro. Pra ser honesto, ela ainda está lá dentro. Ficou impossível dizer o que era madeira e o que era uma pessoa em meio das cinzas. Mas eu calculo que quando o fogo já estava incontrolável ela ainda estava desacordada, portanto não havia mais nada a ser feito. Ela queimava, eu amava. Amava a água que era mais poderosa do que eu, a água que chorou a sua morte enquanto eu só pude esperar que ela morresse tomada pela febre. Eu queria ser uma coluna de água, para poder levar aquele fogo como a água levava a terra. Como eu queria que aquela chuva levasse embora as lágrimas que queimavam meu rosto. Nunca mais fui o mesmo depois de ver meu mundo pegar fogo, depois de ver o fogo da febre queimar o fogo da minha paixão, e o calor do fogo queimar a chama da minha existência. Sempre me senti culpado, andando com o remorso nas minhas costas. Até que não pude mais aguentar isso. Agora estou aqui, numa noite que promete uma boa chuva, com dois litros de gasolina e um isqueiro de prata. A gasolina não é como a água, ela não toca o meu corpo lavando os meus pecados. Queima a minha pele incendiando os meus erros. Os dois litros estão agora espalhados pelo meu corpo todo, exceto por minha mão direita. Ela vai garantir que eu queime a mim mesmo, não que seja apenas um erro depois de uma encenação de suicídio. O fogo está aceso. A chuva começa a cair por sobre a terra. Eu toquei no meu peito com o isqueiro. Foi instantâneo. Enquanto agonizava ajoelhado, queimando com meus pecados, a chuva me olhava. Me olhava, e me molhava. As gotas que caiam eram indiferentes aos dois litros de gasolina que ardiam em meu corpo. Naquela noite eu era um ponto vermelho na escuridão, nada mais. Não havia mais o peso da culpa. Eu estava em equilíbrio com o mundo enquando queimava do mesmo jeito que meu amor queimou. E do mesmo jeito que eu estava na chuva naquele dia, eu sei que hoje ela está nessas gotas que eu mal sinto. Mas naqueles que pensei serem os últimos segundos de minha vida, algo parecia errado. Não sei dizer o que era, talvez fosse apenas a gasolina queimando. Mas a gasolina não queimava mais. Eu estava enrolado em uma manta e uma ambulância estava do meu lado. Um homem dizia para eu não desistir, que não era tarde demais para conseguir viver ainda. O equilíbrio estava quebrado. Achei que o momento do incêndio até minha tentativa de suicídio tinha sido ruim, mas agora estava no inferno. Queimei toda a pele do meu corpo, estou preso em uma cama, vigiado 24h por dia para não tentar me matar mordendo minha lingua ou algo do tipo. Eu sou a quebra do sistema, mas dessa vez o sistema foi o mundo. Eu tentei corrigir o erro que cometi no passado e fui impedido. Estou em desiquilíbrio com o universo, não posso descansar em paz. Minha única sorte foi que depois de uma semana, um residente colocou o soro em algum ponto que não devia e morri por hemorragia. O engraçado, é que por final, a água me matou, e não o fogo.

Um comentário:

  1. morrer no fogo não deve ser muuito confortavel, melhor água mesmo haha ou hemorragia, .hm ;*

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