sábado, 9 de janeiro de 2010

o amor tem dessas

Depois dessa idade o tempo desacelera. Os 40 e os 60 se igualam. As experiências não são de acelerar o coração e as decepções não fazem mais você ter vontade de se atirar pela janela. E eu tinha ela. É. Tinha. Eu não a amava e nem ela a mim. Nós nos possuíamos. Sabíamos disso. Mas ela era daquelas débeis que procuram aventuras para se destruírem aos poucos. E eu era cansado. Se ela procurava por destruição, tinha vindo ao lugar certo.

Viver a dois era difícil. O desejo vinha só do meu lado. Mas era gracioso o modo como ela se despia às escondidas e vinha ao meu encontro já nua. Uma consideração tamanha fazer isso por um velho como eu. Depois tirava as minhas roupas e me deitava na cama - atualmente era o único lugar no qual minha coluna não rejeitava o sexo. E eu ia por cima dela. Me acolhia, ajudando com os movimentos. Seu olhar alternava entre o teto e minha boca, sempre vazio. Eu suava. Esbaforava feito um cachorro velho enquanto ela ficava com olhos carinhosos para mim. Era uma santa. A piedade presente naquele quarto grudava nas paredes. Sexo por pena. Parecia sexo com a minha mãe quando ela me ajudava a desengasgar após um tropeço da minha respiração descompassada. Eu não aguentava. Perdia o tesão ao pensar na minha sofrida mãe. Era sempre a mesma história. Mesmo assim ela me consolava, passando as mãos pela pele enrugada das minhas costas. Uma guerreira misericordiosa. Eu me sentia um derrotado em meu próprio campo de batalha.

Mas nós sempre tentávamos novamente. Não havia intimidade, nem coragem o suficiente para pedir que ela não fosse tão maternal. Eu sabia que esse era o único jeito de ela suportar esse velho. Uma noite, então, eu me segurei. Tentei não resgatar memórias da infância. Mas toda vez que abria os olhos podia vê-la ali. E me sentia sujo. Voltava a fechá-los, fazendo esforço para manter o fluxo de sangue no lugar devido e afastando os pensamentos nojentos da minha frente. Meus músculos do rosto contraíam-se a ponto de darem a luz a novas rugas. Meu corpo travava uma luta insana entre prazer e aversão. Só pude ouvir, ao longe um "Algo errado, querido?" antes de vomitar no rosto dela.

Desencaixei nossos corpos e sentei ao pé da cama, como qualquer marido impotente faria, envergonhado. Dessa vez suas mãos não vieram ao meu encontro, com suas palavras confortantes. O silêncio doeu por alguns longos segundos. Apenas uma pergunta o quebrou: "Faz de novo?". Me puxou para junto dela. Com olhos curiosos, foi invadindo minha boca aos poucos com seus dedos, chegando ao fundo da minha garganta. Senti minhas costelas contraídas e a água nos olhos enquanto despejava sobre ela todo o meu carinho. Desde então, sou eu quem lhe tiro as roupas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário