sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Chego e parto

Seu dia já estava terminando. Era hora de se sentar e ler os textos e as notícias que haviam se acumulado durante o dia que ela passou fora de seu quarto, ouvindo músicas e se lamentando por ter permitido a entrada e a saída de todas as pessoas que haviam deixado profundas cicatrizes no amago de sua alma, ou daquilo que ela acreditava ser a tal "alma" que todos diziam ter.

Não soa como um bom dia e nem como pensamentos bons, não é? Ligar seu computador também não lhe trouxe coisas boas. Notícias sobre tragédias, políticos, esportistas e seus escandalos... Nada de útil. Nada de agradável.

- As notícias podiam ser todas felizes, como escreveu uma vez aquele cronista. Eu gostaria de ler que o marido de uma mulher triste trouxe flores à ela depois voltar do trabalho ou que o filho mais novo daquele casal aprendeu a ler alguma palavra nova e difícil...

Talvez abrir o blog daquele artista famoso, que despertava toda a admiração que ela poderia ter por alguém, lhe traria boas palavras. Palavras de conforto que valessem o dia perdido.

Eu sou um aeroporto. Na verdade, todos nós. (...) Eu sou um aeroporto. Chegadas e partidas são a única certeza na minha vida. (...) E você, aeroporto em greve, tá esperando o quê, olhando pra cima?

- Que confortante.

Sentiu como se somente ele, o escritor, a entendesse de verdade. Leu o texto mais algumas vezes e sentiu uma enorme pena de si mesma por se sentir estagnada como um aeroporto.

Algumas boas semanas depois, a menina continuava se sentindo como naquele dia em que leu o texto sobre sermos como aeroportos, mas não estava pelas bandas daquele site. Estava no Orkut vendo quem havia lhe visitado. Eu sou um aeroporto. Chegadas e partidas são a única certeza na minha vida.

- De novo essa frase?

Já era hora de dormir. Sua cota de pensamentos já havia se esgotado, mas algo lá no fundo de sua cabeça lhe pedia para ler mais uma vez aquele texto e pensar mais um pouco.

Eu sou um aeroporto.

- Aeroportos não são pessoas, são lugares. Nós não podemos ser aeroportos, aeroportos são lugares, são parados e só assistem as coisas acontecendo.
Eu não posso ser um aeroporto, parado. Eu não sou parada. Eu sou um avião. Todos nós somos aviões. Aeroporto é apenas um cenário. Ele até pode ser a vida, mas não as pessoas.

E você, aeroporto em greve, tá esperando o quê, olhando pra cima?

Aeroportos não olham pra cima. Aviões sim.

- Como posso ser um aeroporto que olha pra cima? Eu sou mesmo é um avião, apontado para cima. Não preciso mais olhar, posso tentar chegar lá em cima.

Um aeroporto não nota a diferença do começo e nem do fim de um dia.

- É. Sou mesmo um avião. Pouso no aeroporto, marco meus pneus em suas pistas. Marco meu trajeto no céu. Todos me marcam, mas eu não preciso ficar parada como um aeroporto. Posso crescer com as marcas e apontar cada vez mais o meu nariz pra cima. Um aeroporto não.

Seu dia começara agora.

Um comentário:

  1. Inspirado no texto "Chegadas e partidas" de Lucas Silveira:
    http://romanceemapuros.wordpress.com/2009/12/27/chegadas-e-partidas/

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